POR EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 29/05/2009 ÀS 03:11 PM
Livro de Peter Gay sobre modernismo provoca polêmica
publicado em livros
O modernismo “deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar — ou, mais radicalmente, de derrubar — os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução”, escreve Gay

O livro “Modernismo: O Fascínio da Heresia — De Baudelaire a Beckett e Mais um Pouco” (Companhia das Letras, 578 páginas, tradução de Denise Bottmann), de Peter Gay, provoca polêmica nos jornais patropis. Marcelo Coelho publicou petardo, na “Folha de S. Paulo”. O jornalista e mestre em ciências sociais garante que Gay não incorpora as discussões recentes sobre o modernismo e seria raso em algumas questões. Fico com a impressão de que Coelho está preocupado com a crítica (positiva) de Gay ao cinema. A crítica pareceu-me realmente insuficiente, mas não pelos motivos apontados pelo jornalista, e sim por conta de uma paixão talvez excessiva por Orson Welles (superestimado) e Chaplin.
O “Estadão” entrou na dança com ensaios de Teixeira Coelho e Francisco Alambert, professores da USP.
O segundo Coelho, o Teixeira, diz que Gay deveria falar em “modernismos” e discorda da tese de que o modernismo continua vivíssimo. “É uma furada”, denuncia, sem dizer por quê, o mestre. Outra implicância de Coelho, talvez justa, é com a preferência de Gay por Gabriel García Márquez (também amado por ninguém menos do que George Steiner) e o esquecimento de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar.
Para não parecer Policarpo Quaresma, Coelho não cita Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”), mas poderia ter citado Lezama Lima (“Paradiso”) ou Alejo Carpentier (“O Século das Luzes”). Lezama, barroco, não seria modernista? Talvez se possa dizer que se trata de um modernista que também é barroco. Gay esclarece que sua preocupação maior é mesmo com a Europa.
Furibundo, Coelho sustenta que o livro de Gay é uma espécie de “Reader´s Digest”. Um ataque abaixo da linha de cintura, mas, digamos, divertido e atraente. Não serve “nem para quem se inicia, nem para quem é iniciado. Acima de tudo, não para o leitor do século 21”. Para terminar, Coelho escreve o nome de Eric Hobsbawm (“Hobsbawn”) errado. Não tem nada mais moderno do que o desleixo com a forma.
Alambert, quem sabe menos ressentido, diz que Gay vê “coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista”.
O mestre, menos contundente do que os Coelhos, admite que Gay é preciso ao dizer que “o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores de alta cultura” (o texto entre aspas é de Gay). O modernismo “deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar — ou, mais radicalmente, de derrubar — os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução”, escreve Gay, com o endosso do historiador Alambert.
O modernismo foi grandemente influenciado pelas idéias de Marx, mas sobretudo pelas de Nietzsche. Gay e Alambert concordam.
O escritor Halley Margon V. Jr. não aprova o que leu do livro de Gay. “O capítulo sobre música é, no mínimo, claudicante.” Halley sugere a leitura de “O Resto é Ruído — Escutando o Século XX” (Companhia das Letras, 646 páginas, tradução de Cláudio Carina e Ivan Weisz), de Alex Ross. “É sensacional. Poucas vezes li alguma coisa que é, ao mesmo tempo, para especialistas e leigos (ou estúpidos). É preciso, profundo e claro.” O promotor de justiça Marcelo Franco está entre os admiradores da polêmica obra do historiador germano-americano.
O “Estadão” entrou na dança com ensaios de Teixeira Coelho e Francisco Alambert, professores da USP.
O segundo Coelho, o Teixeira, diz que Gay deveria falar em “modernismos” e discorda da tese de que o modernismo continua vivíssimo. “É uma furada”, denuncia, sem dizer por quê, o mestre. Outra implicância de Coelho, talvez justa, é com a preferência de Gay por Gabriel García Márquez (também amado por ninguém menos do que George Steiner) e o esquecimento de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar.
Para não parecer Policarpo Quaresma, Coelho não cita Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”), mas poderia ter citado Lezama Lima (“Paradiso”) ou Alejo Carpentier (“O Século das Luzes”). Lezama, barroco, não seria modernista? Talvez se possa dizer que se trata de um modernista que também é barroco. Gay esclarece que sua preocupação maior é mesmo com a Europa.
Furibundo, Coelho sustenta que o livro de Gay é uma espécie de “Reader´s Digest”. Um ataque abaixo da linha de cintura, mas, digamos, divertido e atraente. Não serve “nem para quem se inicia, nem para quem é iniciado. Acima de tudo, não para o leitor do século 21”. Para terminar, Coelho escreve o nome de Eric Hobsbawm (“Hobsbawn”) errado. Não tem nada mais moderno do que o desleixo com a forma.
Alambert, quem sabe menos ressentido, diz que Gay vê “coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista”.
O mestre, menos contundente do que os Coelhos, admite que Gay é preciso ao dizer que “o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores de alta cultura” (o texto entre aspas é de Gay). O modernismo “deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar — ou, mais radicalmente, de derrubar — os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução”, escreve Gay, com o endosso do historiador Alambert.
O modernismo foi grandemente influenciado pelas idéias de Marx, mas sobretudo pelas de Nietzsche. Gay e Alambert concordam.
O escritor Halley Margon V. Jr. não aprova o que leu do livro de Gay. “O capítulo sobre música é, no mínimo, claudicante.” Halley sugere a leitura de “O Resto é Ruído — Escutando o Século XX” (Companhia das Letras, 646 páginas, tradução de Cláudio Carina e Ivan Weisz), de Alex Ross. “É sensacional. Poucas vezes li alguma coisa que é, ao mesmo tempo, para especialistas e leigos (ou estúpidos). É preciso, profundo e claro.” O promotor de justiça Marcelo Franco está entre os admiradores da polêmica obra do historiador germano-americano.
A primeira literatura cosmopolita do Ocidente desde a Idade Média
Na polêmica provincial sobre o livro “Modernismo”, de Peter Gay, foram citados obras de teóricos do modernismo e do pós-moderno. Mas deixaram de citar duas obras importantes e complementares, talvez porque mais históricas do que teóricas. A comparação tende a ser mais produtiva se feita com textos similares.
“Os Primeiros Modernos — As Origens do Pensamento do Século XX” (Record, 571 páginas, tradução de Cynthia Cortes e Paulo Soares), de William R. Everdell, é uma história alentada. “O modernismo na arte veio antes do modernismo na ficção e as reações a este (mesmo por parte de modernistas) foram as mais viscerais.”
Como Gay, Everdell cita Knut Hamsun e August Strindberg como modernistas, independentemente de suas opiniões políticas ou moralistas. O professor escreve que James Joyce percebeu que “a literatura modernista não era nacional mas europeia, talvez a primeira literatura verdadeiramente cosmopolita do Ocidente desde a Idade Média”. O capítulo “James Joyce — O Despedaçamento do Romance” é do primeiro time.
“Modernismo: Guia Geral — 1890-1930” (Companhia das Letras, 556 páginas, tradução de Denise Bottmann), organizado por Malcolm Bradbury e James McFarlane, contém ensaios de vários autores. Algumas análises são mais satisfatórias do que as de Peter Gay, ainda que menos polêmicas e mais acadêmicas. “Supor que algum estudo seja capaz de apresentar para um exame sereno o tipo de sítio arqueológico que representa o modernismo é não entender a própria natureza do fenômeno”, escrevem Bradbury e McFarlane. Eles acrescentam algo que corrobora, de certa maneira, a tese de Gay de que o modernismo continua e que o pós-moderno é uma ficção: “O modernismo, em muitas características suas, ainda é em larga medida a nossa literatura, ainda conserva um caráter de novidade que surpreende e perturba, ainda é polêmico, difícil nos mantermos afastados dele, difícil falarmos sobre ele”.
O professor Franz Kuna, no belo texto “O romance de dupla face — Conrad, Musil, Kafka, Mann”, antecipa Gay ao escrever: “O esquema dialético oferecido por Nietzshe parece ter-se tornado o arcabouço, o protótipo estético para quase todos os grandes romances do século XX. (...) Foi o romance moderno que incorporou mais sofregamente a fórmula nietzscheana sobre a dupla face do homem moderno, fadado a existir de modo trágico”. O ensaio “O romance simbolista — De Huysmans a Malraux”, de Melvin J. Friedman, diz que “os romances de [Henry] James, [Marcel] Proust, [James] Joyce, [Joseph] Conrad, [William] Faulkner e Virginia Woolf são, em certo sentido, herdeiros ficcionais da poesia simbolista francesa”. Friedman analisa, muito bem, entre outros, o romance “Enquanto Agonizo”, de Faulkner. O livro contém análise percuciente do modernismo russo.
O livro de Gay não esgota o modernismo. Pelo contrário, ao historiá-lo, transforma-o em problema, daí a polêmica, que certamente não é só brasileira. Ao contrário do que diz Teixeira Coelho, não é ruim, ainda que possa conter falhas e análises controversas.
Na polêmica provincial sobre o livro “Modernismo”, de Peter Gay, foram citados obras de teóricos do modernismo e do pós-moderno. Mas deixaram de citar duas obras importantes e complementares, talvez porque mais históricas do que teóricas. A comparação tende a ser mais produtiva se feita com textos similares.
“Os Primeiros Modernos — As Origens do Pensamento do Século XX” (Record, 571 páginas, tradução de Cynthia Cortes e Paulo Soares), de William R. Everdell, é uma história alentada. “O modernismo na arte veio antes do modernismo na ficção e as reações a este (mesmo por parte de modernistas) foram as mais viscerais.”
Como Gay, Everdell cita Knut Hamsun e August Strindberg como modernistas, independentemente de suas opiniões políticas ou moralistas. O professor escreve que James Joyce percebeu que “a literatura modernista não era nacional mas europeia, talvez a primeira literatura verdadeiramente cosmopolita do Ocidente desde a Idade Média”. O capítulo “James Joyce — O Despedaçamento do Romance” é do primeiro time.
“Modernismo: Guia Geral — 1890-1930” (Companhia das Letras, 556 páginas, tradução de Denise Bottmann), organizado por Malcolm Bradbury e James McFarlane, contém ensaios de vários autores. Algumas análises são mais satisfatórias do que as de Peter Gay, ainda que menos polêmicas e mais acadêmicas. “Supor que algum estudo seja capaz de apresentar para um exame sereno o tipo de sítio arqueológico que representa o modernismo é não entender a própria natureza do fenômeno”, escrevem Bradbury e McFarlane. Eles acrescentam algo que corrobora, de certa maneira, a tese de Gay de que o modernismo continua e que o pós-moderno é uma ficção: “O modernismo, em muitas características suas, ainda é em larga medida a nossa literatura, ainda conserva um caráter de novidade que surpreende e perturba, ainda é polêmico, difícil nos mantermos afastados dele, difícil falarmos sobre ele”.
O professor Franz Kuna, no belo texto “O romance de dupla face — Conrad, Musil, Kafka, Mann”, antecipa Gay ao escrever: “O esquema dialético oferecido por Nietzshe parece ter-se tornado o arcabouço, o protótipo estético para quase todos os grandes romances do século XX. (...) Foi o romance moderno que incorporou mais sofregamente a fórmula nietzscheana sobre a dupla face do homem moderno, fadado a existir de modo trágico”. O ensaio “O romance simbolista — De Huysmans a Malraux”, de Melvin J. Friedman, diz que “os romances de [Henry] James, [Marcel] Proust, [James] Joyce, [Joseph] Conrad, [William] Faulkner e Virginia Woolf são, em certo sentido, herdeiros ficcionais da poesia simbolista francesa”. Friedman analisa, muito bem, entre outros, o romance “Enquanto Agonizo”, de Faulkner. O livro contém análise percuciente do modernismo russo.
O livro de Gay não esgota o modernismo. Pelo contrário, ao historiá-lo, transforma-o em problema, daí a polêmica, que certamente não é só brasileira. Ao contrário do que diz Teixeira Coelho, não é ruim, ainda que possa conter falhas e análises controversas.
O “Estadão” entrou na dança com ensaios de Teixeira Coelho e Francisco Alambert, professores da USP.





