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POR EM 11/02/2010 ÀS 05:13 PM

Lacerda, o cunhado do ator Warren Beatty

publicado em

Carlos Lacerda — A Vida de um Lutador“Perseguido” pela ditadura civil-militar (as aspas tem explicação: fora a cassação, duríssima, óbvio, e uma prisão ligeira, Lacerda praticamente não foi incomodado pelos governos militares. Disse o diabo de Castello Branco, e nada), Lacerda correu mundo. Fez o que mais gostava de fazer: viajar. Numa dessas viagens, em 1968, conheceu a atriz Shirley MacLaine, por quem se apaixonou. “Foi durante a estada de Lacerda em Los Angeles, a serviço de ‘Realidade’, que ele e Shirley MacLaine se apaixonaram”, escreve o biógrafo oficial John Dulles. Alfredo Machado, dono da Editora Record, era muito brincalhão e gostava de irritar Lacerda: “Você reparou no tamanho dos punhos da Shirley? Se ela lhe der um soco, vai ser muito forte”. Lacerda ficou possesso, mas não respondeu. Depois de intensas juras de amor, Lacerda e McLaine se esqueceram. Mas, não fosse o amor pela família, Lacerda poderia ter sido tornado o marido brasileiro da irmã do ator Warren Beatty.

O brasilianista John Dulles, na segunda parte de “Carlos Lacerda — A Vida de um Lutador” (a palavra lutador não substitui a verdadeira — agitador, que a família deve ter vetado), resolve enfrentar os mexericos sobre Lacerda. Com luvas de pelica, claro.

Depois de esclarecer a história de Shirley MacLaine — de forma favorável a Lacerda, visto como uma espécie de latin lover —, Dulles cita a atriz brasileira Maria Fernanda Correia Dias — “com quem Carlos compartilhava sentimentos do coração e do espírito desde os anos 50” (Dulles, ou o tradutor, ou a família de Lacerda, que foi dona da editora que publicou o livro, a Nova Fronteira, não usa, nunca, a palavra amante). Adiante, Dulles ousa um pouco mais: “Carlos também compartilhara com ela [Maria Fernanda] um apartamento de hotel em São Paulo (colocando um aviso ‘Não perturbe’ na porta durante quase dois dias), e mandara-lhe muitas rosas. Portanto, diziam os mexericos, seu principal caso extraconjugal foi com Maria Fernanda. No final da vida, Carlos disse que de fato se apaixonara e tivera uma grande e estreita amizade com Maria Fernanda, mas que esse relacionamento não passara disso. No caso de Shirley [MacLaine], revelou que foram além de paixão e amizade”.

Separado de Letícia, Lacerda arranjou outra namorada, Maria Cecília Azevedo Sodré, que tinha idade para ser sua filha. Um amigo de Lacerda, “Tannay de Faria, chegou à conclusão de que Maria Cecília tinha a intenção de fazer chantagem com Lacerda, possivelmente através de cartas passionais que ele escrevera para ela.”

Homossexualidade — Sempre discreto quanto aos assuntos de alcova, Dulles não evita um tema polêmico: a suposta homossexualidade de Lacerda. A família de Lacerda sempre alegou que a história de “sua” homossexualidade havia sido plantada pelo Serviço Nacional de Informação, sob orientação do general Golbery do Couto e Silva.

Em que a homossexualidade muda a história de Lacerda e do país? Em nada, mas Dulles decidiu esfacelar o tabu. “É verdade que Lacerda gostava de companhia de homens mais moços, tais como Raphael de Almeida Magalhães no início da década de 1960, Marco Aurélio Moreira Leite, homem de negócios, no início da década de 1970, e Pedro Paulo Sena Madureira, superintendente da Nova Fronteira, em 1977; porém não praticava o homossexualismo, como alegaram no final da sua vida alguns detratores”, garante Dulles, depois de consultar não se sabe quais fontes.

Dulles desmente a tese que Lacerda teria sido assassinado, num hospital, por conspiradores militares. A causa foi, segundo Dulles, endocardite bacteriana. “O patologista Artis Quadros DaSilva concluiu que Lacerda, falecido às duas horas da madrugada de sábado, 21 de maio (de 1977), ‘inicialmente teve endocardite bacteriana aguda, e em seguida fragmentos (ou um fragmento) de vegetações valvulares se desprenderam (embolia) e se alojaram em uma artéria coronária, resultando em infarto do miocárdio e morte’. DaSilva acrescentou que entre as causas comuns de infecções bacterianas do coração acham-se abscessos, furúnculos e injeções intravenosas com agulhas contaminadas, e que Lacerda, ‘sendo diabético’, ‘estaria de qualquer maneira propenso a infecções’.”

Se DaSilva está certo, Lacerda não foi mais uma vítima da Operação Condor ou de outra qualquer.

Os adversários de Lacerda certamente gostariam de ter ouvido-lido o que ele disse de si mesmo: “Fracassei como marido, como pai e como político”.

Analista do segundo time — Carlos Lacerda era uma craque para analisar a situação política dos outros, mas um perna de pau ao analisar sua própria posição.

Dulles retrata bem isso (página 569): “Lacerda telefonou para Hélio Fernandes, que estava saindo de casa para ir à ‘Tribuna [da Imprensa’] e esperar que fosse preso. Ao perguntar ‘você acha que eu também serei preso?”, Lacerda se assustou com a resposta do diretor da ‘Tribuna’, de que ele podia ser cassado. ‘Se você não for cassado’, disse-lhe Fernandes, ‘então eu não conheço nada do processo que se desenvolve no meu país’. Fernandes achava que Lacerda não sabia analisar as situações políticas, principalmente quando estavam acontecendo. E acrescentou: ‘Como você vai ser cassado, fique em casa esperando, que não demora irão buscá-lo’”.

Lacerda não acreditou, mas acabou preso e cassado.

 

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Comentários (3)

  • Olívio, quatro sugestões de livros são bem detalhados: "A Era Vargas" (José Augusto Ribeiro), "Depoimento" (Lacerda), "Uma crise de agosto: O atentado da Rua Toneleros" (Cláudio Lacerda),"Quem Matou Vargas?" (Carlos Heitor Cony).

    2 anos atrás por Francis
  • Ao final fica uma pergunta: Lacerda foi um herói nacional ou um vilão?

    2 anos atrás por Olívio Lemos Filho
  • Incrível como as bibliografias colocam o biografado em uma posição sacrossanta. Basta ler Minha Razão de Viver do Samuel Wainer para ver o quão imbecil foi o "corvo" do Lacerda.

    Abraço.

    2 anos atrás por André HP


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