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POR EM 22/05/2009 ÀS 07:31 PM

Ilações tiradas de um manual anti-tiranos

publicado em

A ti­ra­nia co­lo­ca ao po­e­ta e ao ju­ris­ta pro­ble­mas se­me­lhan­tes. Afi­nal, a ti­ra­nia não gos­ta da pa­la­vra e as­pi­ra à paz dos ce­mi­té­rios. Os ti­ra­nos só co­nhe­cem o ar­gu­men­to de sua for­ça e àque­les que não con­cor­dam com is­so só res­tam ade­são ser­vil e si­lên­cio 

 
Res­pon­da de­pres­sa: o que os po­e­tas e os ju­ris­tas têm mais em co­mum? An­tes que se­ja ne­ces­sá­rio ao lei­tor con­sul­tar di­ci­o­ná­rios ou tra­ta­dos de re­tó­ri­ca, eis aqui a res­pos­ta: res­pon­dem sem­pre à le­tra. Ou de­vem res­pon­der sem­pre que te­nham opor­tu­ni­da­de, em­bo­ra a res­pos­ta, às ve­zes, pos­sa cus­tar di­as de ca­la­bou­ço, tor­tu­ra ou de­sa­pa­re­ci­men­to no mar. Foi as­sim até há não pou­co tem­po, em­bo­ra ha­ja ho­je em dia quem di­ga que a di­ta­du­ra que vi­ve­mos de 1964 a 1985 te­nha si­do bran­da, tal­vez por­que não te­nham si­do os seus tes­tí­cu­los e unhas que fo­ram ar­ran­ca­dos.

A que vêm es­tas re­fle­xões? Vêm a pro­pó­si­to do “Ma­nu­al An­ti-Ti­ra­nos: Re­tó­ri­ca, Po­der e Li­te­ra­tu­ra”, que Ma­ria Lu­í­sa Ma­la­to, pro­fes­so­ra dou­to­ra as­so­cia­da do De­par­ta­men­to de Es­tu­dos Por­tu­gues­es e Es­tu­dos Ro­mâ­ni­cos da Fa­cul­da­de de Le­tras da Uni­ver­si­da­de do Por­to, aca­ba de pu­bli­car pe­la Li­vra­ria do Ad­vo­ga­do Edi­to­ra, de Por­to Ale­gre, em sua co­le­ção Di­rei­to & Ar­te. Ali se lê que, di­an­te da pa­la­vra abu­si­va, ain­da que a da lei, tan­to o po­e­ta co­mo o ju­ris­ta sem­pre pen­sam na pos­si­bi­li­da­de de res­pon­der com a pa­la­vra, ain­da que sub­ver­si­va.

Diz a au­to­ra: tan­to um co­mo ou­tro sa­bem que, le­va­da aos seus li­mi­tes, a in­ter­pre­ta­ção aca­ba por con­du­zir quer à sua ne­ga­ção quer à sua ver­da­de mais pro­fun­da. “Pa­ra am­bos, o sen­ti­do do tex­to po­de an­co­rar-se sob al­ça­da de uma lei ar­bi­trá­ria, sob uma au­to­ri­da­de du­vi­do­sa ou um po­der cor­rup­to. Ou fur­tar-se a es­sa al­ça­da pa­ra de fo­ra a con­tes­tar. Nem o po­e­ta nem o ju­ris­ta se aco­mo­dam à uni­vo­ci­da­de da nor­ma e, por is­so, am­bos in­co­mo­dam”, acres­cen­ta.

É por is­so que nos de­cep­cio­na­mos quan­do ma­gis­tra­dos não exi­bem a com­pos­tu­ra que o car­go exi­ge. E se dei­xam le­var pe­los ho­lo­fo­tes da mí­dia ou pe­la vai­da­de de um efê­me­ro car­go no po­der exe­cu­ti­vo, em vez de se re­co­lhe­rem à do­ce e anô­ni­ma apo­sen­ta­do­ria. Foi o que boa par­te da so­ci­e­da­de bra­si­lei­ra — ao me­nos aque­la que pen­sa — sen­tiu quan­do há 20 anos um su­pre­mo ju­iz elei­to­ral, após ter pre­si­di­do as pri­mei­ras elei­ções li­vres do Pa­ís de­pois da du­as dé­ca­das de re­gi­me au­to­ri­tá­rio ci­vil-mi­li­tar, dei­xou-se aba­ter pe­lo la­ço do ini­mi­go ao acei­tar um car­go de mi­nis­tro no no­vo go­ver­no. Fi­cou mar­ca­do pa­ra sem­pre.

Es­pe­cia­lis­ta no sé­cu­lo XVI­II por­tu­guês, Ma­ria Lu­í­sa Ma­la­to é au­to­ra de obras fun­da­men­tais so­bre aque­le pe­rí­o­do da his­tó­ria lu­sa, co­mo “Ma­nu­el de Fi­guei­re­do: Uma Pers­pec­ti­va do Ne­o­clas­si­cis­mo Por­tu­guês — 1745-1777” (Lis­boa: Im­pren­sa Na­ci­o­nal-Ca­sa da Mo­e­da, 1995), bi­o­gra­fia do te­a­tró­lo­go Ma­nu­el de Fi­guei­re­do (1725-1801), “Por Aca­zo Hum Vi­a­jan­te: A Vi­da e a Obra de Ca­ta­ri­na de Len­cas­tre 1ª Vis­con­des­sa de Bal­se­mão — 1749-1824” (Lis­boa: Im­pren­sa Na­ci­o­nal-Ca­sa da Mo­e­da, 2008), “His­tó­ria da Li­te­ra­tu­ra Eu­ro­peia: Uma In­tro­du­ção Aos Es­tu­dos Li­te­rá­rios” (Lis­boa: Quid Ju­ris, 2008) e da edi­ção crí­ti­ca da “Obra Li­te­rá­ria de Jo­sé Anas­tá­cio da Cu­nha (1744-1787)”, em co-au­to­ria com a pro­fes­so­ra Cris­ti­na Ale­xan­dra de Ma­ri­nho, que saiu em dois vo­lu­mes (com iné­di­tos do au­tor) pe­la edi­to­ra Cam­po das Le­tras, do Por­to (v.1, 2001; v. 2, 2006).

A pro­fes­so­ra uti­li­za seu vas­to co­nhe­ci­men­to da épo­ca pa­ra mos­trar que en­tre a Li­te­ra­tu­ra, o Di­rei­to e a Re­tó­ri­ca se po­de es­ta­be­le­cer mui­tas pon­tes e uma fá­cil cum­pli­ci­da­de de re­sis­tên­cia à au­to­ri­da­de da for­ça bru­ta, fí­si­ca e des­me­su­ra­da. No “Ma­nu­al” que pre­pa­rou ali­nham-se his­tó­ri­as exem­pla­res de com­ba­te — às ve­zes, si­len­cio­so — da li­ber­da­de con­tra a ti­ra­nia, da me­mó­ria con­tra o es­que­ci­men­to. É o que es­tá por trás, por exem­plo, da fun­da­ção de aca­de­mi­as ci­en­tí­fi­cas e li­te­rá­ri­as no sé­cu­lo XVI­II, ain­da que em tem­pos de ti­ra­nia ex­plí­ci­ta. A aca­de­mia tor­nou-se uma re­pre­sen­ta­ção da Ar­cá­dia em que os aca­dê­mi­cos fa­zi­am de con­ta que eram pas­to­res — fi­si­ca­men­te oci­o­sos e men­tal­men­te ati­vos —, exer­ci­tan­do-se na­que­la po­e­sia pri­mor­di­al que era bu­có­li­ca, diz a au­to­ra. Pa­ra ter o rei ao seu la­do — que à épo­ca do ab­so­lu­tis­mo era sem­pre um ti­ra­no —, os pas­to­res tra­ta­vam de ima­gi­ná-lo tam­bém um pas­tor ar­cá­di­co e um me­ce­nas es­cla­re­ci­do. Mais: “um mo­nar­ca ilu­mi­na­do, sá­bio em su­as de­ci­sões, enér­gi­co na de­fe­sa de seus sú­di­tos e ob­ser­va­dor de sua na­tu­ral li­ber­da­de”.

Diz a in­ves­ti­ga­do­ra que a pre­sen­ça da agri­cul­tu­ra (pro­xi­mi­da­de e re­ci­pro­ci­da­de da na­tu­re­za) na po­e­sia ar­cá­di­ca ser­ve pa­ra va­lo­ri­zar a ação po­lí­ti­ca não des­pó­ti­ca, mas que de­ri­va de uma re­ci­pro­ci­da­de en­tre rei e sú­di­tos.

Se­gun­do a au­to­ra, é im­por­tan­te pa­ra o es­pí­ri­to utó­pi­co da aca­de­mia a cren­ça na imor­ta­li­da­de da po­e­sia. A imor­ta­li­da­de é na­tu­ral­men­te a fa­ma a que to­do po­e­ta (ou li­te­ra­to) as­pi­ra, ou se­ja, a gló­ria “que fi­ca, ele­va, hon­ra e con­so­la”, de que di­zia Ma­cha­do de As­sis (1839-1908). E que tam­bém tem o no­me de pos­te­ri­da­de, que, no fun­do, é uma uto­pia. Dis­se, cer­ta vez, Bo­ca­ge (1765-1805) num po­e­ma: “(...) Pos­te­ri­da­de, és mi­nha!”. É o de­se­jo utó­pi­co de ven­cer a mor­te, o tem­po, a His­tó­ria e tu­do o que ela es­que­ce ou cor­rom­pe.

Por is­so, diz a au­to­ra, o po­e­ta tor­na-se um fi­ló­so­fo, que ob­ser­va e com­pre­en­de o mun­do com o olhar: “O Pas­tor en­con­tra-se pró­xi­mo da Na­tu­re­za e, ain­da mais do que o Agri­cul­tor (que plan­ta, co­lhe, po­da, en­xer­ta), mol­da-se pas­si­va­men­te a ela, dei­xan­do que ela si­ga o seu cur­so. Guia e pro­te­ge o re­ba­nho, mas dei­xa-o fre­qüen­te­men­te em li­ber­da­de pa­ra que a na­tu­re­za cum­pra os seus rit­mos. É sá­bio, por­que ob­ser­va e não age”.

Afir­ma Ma­ria Lu­í­sa que a ti­ra­nia co­lo­ca ao po­e­ta e ao ju­ris­ta pro­ble­mas se­me­lhan­tes. Afi­nal, a ti­ra­nia não gos­ta da pa­la­vra e as­pi­ra à paz dos ce­mi­té­rios. Os ti­ra­nos só co­nhe­cem o ar­gu­men­to de sua for­ça e àque­les que não con­cor­dam com is­so só res­tam ade­são ser­vil e si­lên­cio. Por is­so, aque­les que ser­vi­ram aos ti­ra­nos têm ver­go­nha do pa­pel que de­sem­pe­nha­ram e, mais tar­de, quan­do os ti­ra­nos já es­tão mor­tos, pro­cu­ram re­es­cre­ver a his­tó­ria. É um pou­co des­sa lu­ta que ho­je se tra­va no Bra­sil. De um la­do, os ex-co­la­bo­ra­ci­o­nis­tas e mui­tos de seus des­cen­den­tes — que usu­fru­em o que aque­les ame­a­lha­ram sa­be-se lá co­mo —; e de ou­tro, os re­ma­nes­cen­tes da lu­ta po­lí­ti­ca que, ho­je, ob­via­men­te, já não são tão ide­a­lis­tas co­mo na­que­le tem­po.

Na­da dis­so, po­rém, jus­ti­fi­ca que, ao com­pa­rar o re­gi­me mi­li­tar bra­si­lei­ro às di­ta­du­ras de Chi­le, Ar­gen­ti­na e Uru­gu­ai, con­clua-se que a ver­de-ama­re­la te­nha si­do me­nos vi­o­len­ta por­que os “de­sa­pa­re­ci­dos” fo­ram em nú­me­ro bem in­fe­ri­or. Co­mo se a ig­no­mí­nia pu­des­se se re­su­mir a uma ques­tão de es­ta­tís­ti­ca. Por es­se cri­té­rio, é pos­sí­vel ima­gi­nar que, em vez de seis mi­lhões, ti­ves­sem si­do três mi­lhões os eli­mi­na­dos pe­la in­sâ­nia hit­le­ris­ta o Ho­lo­caus­to não se­ria o Ho­lo­caus­to. E as bar­ba­ri­da­des que ve­mos, por exem­plo, nos fil­mes da épo­ca que se exi­bem no Yad Vas­hem, o Mu­seu do Ho­lo­caus­to, em Je­ru­sa­lém, co­mo tra­to­res ati­ran­do cor­pos a fos­sas, te­nham si­do in­ven­ta­dos por al­gu­ma men­te te­ne­bro­sa.

Diz a au­to­ra que a ti­ra­nia se con­fun­de mui­tas ve­zes com o amor. E te­ria si­do por is­so que não pou­cos ti­ra­nos fo­ram ama­dos e lou­va­dos por mul­ti­dões. Mas, ho­je, ain­da bem, pa­re­ce que já não há es­pa­ço pa­ra es­se ti­po de ti­ra­no ca­ri­ca­to. As ti­ra­ni­as de ho­je são mais tec­no­ló­gi­cas e me­nos ide­o­ló­gi­cas.

En­fim, es­te “Ma­nu­al An­ti-Ti­ra­nos” per­mi­te mui­tas ila­ções e nos aju­da a com­pre­en­der e des­co­brir ti­ra­nos por to­dos os la­dos, até mes­mo aque­les que car­re­ga­mos den­tro de nós mes­mos e que es­tão ape­nas à es­prei­ta pa­ra aflo­rar di­an­te da me­nor con­tra­ri­e­da­de. Apren­der a do­mar es­tes ti­ra­nos in­ter­nos, rin­do de nós pró­prios, é o me­lhor ca­mi­nho pa­ra quem as­pi­ra a vi­ver em paz com o seu se­me­lhan­te. Até por­que, co­mo nos en­si­na a au­to­ra, o mai­or pe­ri­go pa­ra os que ata­cam os ti­ra­nos é aca­bar por ser co­mo eles. Quan­tos não co­nhe­ce­mos que aca­ba­ram as­sim?


 
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