POR OUTROS
EM 05/06/2009 ÀS 08:02 PM
Histórias das cicatrizes de uma Angola em transição
publicado em livros
Coletânea publicada em 2001, e que só agora chega ao leitor brasileiro, enfeixa dez textos que revelam todo o vigor e versatilidade de um escritor que traz no bojo de sua narrativa uma profunda e acurada consciência estética impulsionada por uma visão social e política de seu País, sem, contudo, sucumbir às afetações de uma prosa engajada ou aos cacoetes de um mergulho ideológico
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Continente multifacético e culturalmente fascinante, apesar das contradições vividas por um povo que experimenta tanto as guerras e conflitos étnicos quanto a miséria e a pobreza, a África vem oferecendo ao resto do mundo uma literatura de qualidade inquestionável, seja na ficção ou na poesia. Nesse território ainda estigmatizado pela dureza de uma realidade tão crucial e desafiadora, tanto no plano político-ideológico quanto nos desafios econômicos e sociais, encontramos autores que representam um momento singular em sua história literária. Já não é preciso falar de alguns nomes sobejamente respeitados no cenário intelectual contemporâneo, cujas obras encontram ressonância em todos os continentes, a exemplo de Lobo Antunes, Mia Couto, Pepetela, José Craveirinha, Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Nelson Saúte, Ondjaki, Miguel Gullander dentre outros. A safra literária de autores lusófonos dos países africanos vem confirmar não apenas a vitalidade criativa desses escritores, como a afirmação de uma literatura de língua portuguesa que a cada dia mais se consolida além das fronteiras luso-brasileiras.
Entre as obras que acabam de chegar ao Brasil, “Filhos da Pátria”, de João Mello, uma das vozes mais representativas da atual produção literária de Angola, é sinal marcante desse “boom” ficcional. Essa coletânea de dez contos publicada em 2001, e que só agora chega ao leitor brasileiro, enfeixa dez textos que revelam todo o vigor e versatilidade de um escritor que traz no bojo de sua narrativa uma profunda e acurada consciência estética impulsionada por uma visão social e política de seu País, sem, contudo, sucumbir às afetações de uma prosa engajada ou aos cacoetes de um mergulho ideológico.
Nos extratos narrativos de “Filhos da Pátria”, a crueza de uma realidade caótica, permeada por miséria e conflitos políticos, numa Angola que viveu uma transição política após a independência e uma guerra que durou quase três décadas e dizimou milhares de pessoas e empobreceu o País, é tratada por Melo com devido distanciamento, na medida em que assume o viés do humor e da ironia para registrar o quotidiano e refletir sobre as nuances históricas e as lutas de seu povo. Aliás, esse recurso amortiza, em certa medida, a visão que se passa sobre um país que vive seus problemas, ao mesmo tempo em que abre espaço para se discutir e refletir sobre o passado e o presente, bem como sobre questões emergentes ligadas às agruras que têm afetado os angolanos, como a fome, as epidemias, os vícios políticos, como a corrupção, o preconceitos, a purgação das mazelas em todos os níveis, a reconstrução física e moral do País, a consolidação da democracia e a afirmação da própria identidade, que sinaliza também na harmonização dos interesses políticos e partidários que fragmentam a unidade nacional desde 1975, quando o País tomou suas próprias rédeas em meio ao fogo cruzado de suas correntes político-ideológicas.
Nesse “grande caldeirão de problemas muito grandes, que para nós são uma matéria-prima riquíssima”, como enfatizou João Melo em recente entrevista concedida ao “Correio Braziliense”, não faltam motivos, circunstâncias e argumentos para se traçar um painel realista, sincero e ao mesmo tempo crítico sobre sua Angola, como na tentativa de vislumbrar o próprio lugar e valor da arte e da literatura num País que tem outras prioridades, como enfrentar os gravíssimos problemas econômico-sociais e as frequentes dissensões políticas. tão presentes também na vida e na história de outras nações africanas. Melo faz um recorte dessas tragédias comuns a todo o continente, que têm origem no próprio processo de formação das diversas nações e na diversidade de valores, costumes e etnias e que ainda é pouco explorada pela literatura, e a que chega até nós, muitas vezes, alimenta o imaginário dos leitores ocidentais de forma equivocada, por conta do apelo ao exótico ou à caricatura.
Ao abrir o livro com uma epígrafe de Gabriel o Pensador — “Essa é a pátria que me pariu” — João Melo dá pistas para a compreensão de seu projeto ficcional. Seus personagens incorporam esse sentimento que ao mesmo tempo representa o traço de ancestralidade, com seus totens, diferenças e referências multiculturais fortíssimos, e, por outro, reforça a necessidade de valorização dessa mesma herança, representação simbólica de uma Angola que sai do abismo e dos conflitos de séculos de opressão e anacronismo e procura se inserir na modernidade sem renegar suas origens históricas, mas tentando um salto dialético sobre seus escombros.
Entre essa visão idílica do passado e um presente em construção — quando se esboçam a nação, o país e o estado que, nos momentos conflituosos, parece renascer das próprias cinzas — seus personagens dão voz à identidade de um povo que procura organizar a unidade dentro de sua própria diversidade, apesar dos antagonismos. Nesse desfile de situações encontradiças em qualquer sociedade, e tão peculiares àquelas que sofreram, como Angola, rupturas institucionais, vamos encontrar uma legião de tipos característicos, uma espécie de mapeamento de uma época tão heterogênea como efervescente. Aí estão os sintomas presentes em quaisquer regimes, e tão velhos quantos atuais: a corrupção do funcionalismo público, o glamour e oportunismo de uma nova elite que se beneficiou do atual modelo econômico, os miseráveis infratores, o excluídos, os apartados sociais e políticos, os aproveitadores e os criminosos circunstanciais, os deslocados e refugiados, como em “Tio, mi dá só cem”, “Natasha”, “Ngola Kiluanje”, “O efeito estufa” e “O homem que nasceu para sofrer”, contos paradigmáticos desse livro. E não doura a pílula ao esboçar um País de contrastes, não poupa o leitor de uma visão eclética de uma nação estilhaçada por tantos problemas, mas que sobrevive esperançosa. Nesses contos povoados de memória, em que Melo dialoga com os universos político, étnico e histórico, todas as classes estão representadas e a maneira de contá-las numa linguagem caudalosa, singular e bem humorada, que, vez ou outra, atalha para o ensaio, abre espaço para uma sutil discussão sobre o momento vivido pelo País e seu povo, que perseguem um destino de liberdade, bem-estar e desenvolvimento em todos os níveis.
Nascido em Luanda em 1955, João Melo, viveu no Brasil entre 1984 e 1992, tendo morado no Rio de Janeiro como correspondente da imprensa angolana, período em que se graduou em Jornalismo e Universidade Federal Fluminense e fez Mestrado em Comunicação e Cultural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua obra vem sendo sistematicamente estudada nas universidades brasileiras. Além de escritor, é jornalista, professor universitário, crítico e ensaísta, tem dez livros publicados, entre poesia, conto, romance, crítica e ensaio. Divide-se entre a vida intelectual e as atividades parlamentares, exercendo atualmente o mandato de deputado da Assembléia Nacional pelo MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), partido do atual presidente José Agostinho dos Santos, fundado pelo líder Agostinho Neto, um dos responsáveis pela independência do País. Seu pai, Aníbal de Melo, foi um dos líderes que lutaram contra a colonização portuguesa.
Trecho de Filhos da Pátria
Tio, mi dá só cem, só cem mesmo pra comprar um pão, tô então com fome, inda não comi nada desde antesdontem, os outros miúdos mi caçambularam com ele o ferro que um muata me deu, eu lhe vi quando ele chegou com a garina, parecia então filha dele, ou neta, sei lá, meteu o carro lá bem no fundão perto das pedras, eu dei um tempo, contei nas mãos, eu então sei contar tio, também andei na escola, cheguei até na quarta, a, bê, cê, dê, um, dois, três, quatro, num é assim tio, é assim sim senhor, não ri, foi o meu professor é quem disse, lá no mato adonde eu estava antes de vir aqui em Luanda como deslocado, uns dizem é deslocado, outros porque é refugiado, essas palavras nós no mato na nossa escola mesmo nunca que lhes vimos, nem ouvimos, contudo, porém, lá no mato a gente não conhecia essas palavras mas também não estava a comer, só aqui mesmo é que andamos a comer, ai, estás a rir tio, num ri então, tu não sabes que tem comida de refugiado, de deslocado, de roto e esfarrapado, de desgraçado, lhe procuramos todas as noites nos contentores, lutamos, nos aleijamos, encontramos mesmo boas coisas, ossos de galinha assim com umas tiras recicláveis, sim, tio, recicláveis, esta palavra aprendi com uns moços que costumam aparecer por aqui, chegam de motoretas, dizem, nós somos da Juventude Verde, eu acho esquisito pois no meio deles só vejo, mulatos, tem até uns branquinhos, dizem temos aqui umas mudas de árvores pra vocês plantarem, nós lhes olhamos então de uma maneira que eles não entendem, são burros, muxoxamos entre nós árvores, árvores, queremos masé pancar, estamos embora com fome, com bué de fome, a nossa fome é tão grande que somos de capazes de matar estes moços verdes, todos eles bem nutridos, bonitinhos, bem cheirosos, o melhor mesmo é voltar a vasculhar os nossos contentores, às vezes mesmo encontramos coisas boas, carne de vaca moída que até não é preciso lhe mastigar mais, é só engolir e pronto, pedaços de pão todos esburacados parece levaram tiros, latas de cerveja, latas de gasosa, latas de sardinha, latas de atum, latas de feijão, latas de frutas, latas de doce, tantas latas, tantas, que eu acho que o mundo é uma granda lataria...















