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POR EM 16/11/2009 ÀS 06:10 PM

Historiador denuncia canalhice intelectual do filósofo Sartre

publicado em

Passado Imperfeito, de Tony JudtEm “Os Intelectuais” (Editora Imago), o historiador inglês Paul Johnson faz um retrato nada lisonjeiro de Jean-Paul Sartre, o filósofo e escritor francês. Os críticos de Johnson dizem que, ao seu radicalismo acusatório, falta nuance. A nuance agora pode ser vista no livro “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Editora Nova Fronteira, 475 páginas), do historiador inglês Tony Judt. Este, por sinal, não cita Johnson.

Não se trata, devido ao tema, apenas de um livro de história. É uma reflexão histórico-filosófica de um especialista com multifacetada formação cultural. Os que avaliam que Johnson trata Sartre com extrema grosseria vão ficar surpresos. Diferentemente de Johnson, que bate muito mas nem sempre documenta corretamente sua opinião, Judt é extremamente judicioso. Ele mostra detalhadamente como Sartre aderiu e justificou o stalinismo. Pensadores hoje mais cortejados, como Merleau-Ponty, também não saem muito bem do livro. Os heróis, mas matizados, são Albert Camus, François Mauriac e Raymond Aron.

Mesmo Camus teve seus momentos de justificar o socialismo soviético, mas já em 1948, quando Sartre continuava apaixonado pelo stalinismo, fazia sua autocrítica. Em 1952, replicando Camus, Sartre escreveu: "Nós podemos ficar indignados ou horrorizados diante da existência desses campos [de concentração soviéticos]; nós podemos até ficar obcecados por eles, mas por que eles deveriam nos constranger?" Mais tarde, em 1973, o maoísta Sartre ainda é mais "coerente": "Um regime revolucionário deve descartar um certo número de indivíduos que o ameaçam, e não vejo outro meio para isso, a não ser a morte. Sair de uma prisão sempre é possível. Os revolucionários de 1793 provavelmente não mataram o suficiente". Antes, em 1950, Sartre distorcia a história: "Eu procurei, mas não consigo encontrar qualquer evidência de um impulso agressivo por parte dos russos nas últimas três décadas". Camus, em 1949, escreveu: "Uma das coisas que lamento é ter feito concessões demais à objetividade. A objetividade é, às vezes, uma acomodação. Hoje, as coisas estão claras, e temos que chamar de ‘concentracional’ o que o é, mesmo que se trate do socialismo. Em um certo sentido, eu nunca mais serei polido". Camus se arrependia, publicamente, de ter sido cordeiro dos comunistas.

Judt explica, detidamente, os motivos da cegueira de Sartre, Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty e mesmo de intelectuais católicos como Emmanuel Mounier e François Mauriac. Este, herói do livro, atua, às vezes, como inocente-útil (a tradutora brasileira, Luciana Persice Nogueira, prefere a expressão idiota-útil, que não reflete bem o ambiente político e cultural). Há um trecho muito interessante no qual Judt mostra que, ao ver a França prostrada, alguns de seus intelectuais trocaram a pátria pela União Soviética, para, no geral, rivalizar com outro gigante, os Estados Unidos. A URSS era a França “em pé”.

Num aspecto, pelo menos, o livro de Judt é falho, ou melhor, pouco amplo. O historiador nota a influência da filosofia alemã (anti-modernização por excelência) na filosofia francesa, sobretudo no existencialismo de Sartre, mas não vai a fundo na explicação.

Não se pense que o livro de Judt é obra de mero combate intelectual. Não é. Apesar de notar a canalhice de Sartre, o autor é extremamente equilibrado. Não há ataques abaixo da linha de cintura, no estilo de Paul Johnson. Mas, sim, Sartre sai muitíssimo mal do livro, assim como, embora menos, Merleau-Ponty. Camus fica maior, porém com alguns arranhões.

Judt diz que o brasileiro José Guilherme Merquior é autor de um livro "excelente" — “De Praga a Paris”. A obra de Merquior, autor de um trabalho intelectual mais consistente do que o de Olavo de Carvalho, que está se tornando mais polemista que filósofo, merece reedição urgente.

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Comentários (3)

  • Tudo em nome do partido. Tudo para o partido. Os mortos que abram alas para revolução. Alguma semelhança entre stanilismo e religião? O marxismo é o ópio dos intelectuais.

    8 meses atrás por Thiago
  • Caro Andre Ribas. Os mortos receberam um salvo-conduto, não podem mais ser criticados. Talvez a ciência bolchevique (exemplo de racionalidade e praticidade) crie uma máquina do tempo, assim os historiadores voltaram no tempo para fazerem suas criticas, In illo tempore. Há apenas um problema, eles não aceitavam criticas.Porém, deve-se observar que o autor tinha 28 anos, quando escreveu seu primeiro livro sobre a esquerda francesa.Ora, Sartre pelo que se sabe morreu em 1980. Judt, que já morreu, foi um bom historiador, escreveu vários livros sobre a esquerda francesa, o seu pecado para muitos foi não permanecer fiel, e quem já o leu, sabe que não é um conservador como Paul Johnson.Por outro lado, não vejo ninguém vir aqui desqualificar um Raymond Aron ou Leszek Kolakowski.

    1 ano atrás por Valney Oliveira
  • Pena que o historiador não escreveu enquanto Sartre estava vivo e lúcido, pois receberia uma resposta daquelas de ficar de quatro, grande Sartre, pequeno Tony Judt.

    Canalhice? Ora, Sartre sempre defendeu suas posições explicitadas no periódico, enquanto este existiu tempos modernos, com todo seu conteúdo filosófico, e sempre deixou menores seus colegas da intelligentsia francesa ou argelina (Camus). Filósofo que negou prêmio Nobel de literatura juntamente com seu milhão de dólares, apagaram já da sua biografia? De canalha, não tem nada...
    Mas de covarde, este historiador tem, fácil escrever sobre defunto, pois este não tem como se defender.


    1 ano atrás por andre ribas


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