Grande lançamento do ano é de McCarthy
A história é violenta, sanguinolenta, mas os personagens, filhos de Shakespeare, são extraordinários. A forma tensa e ritmada torna o romance, às vezes vagaroso e não linear, uma delícia

Não deixa de ser incrível, mas um dos grandes lançamentos do ano é um relançamento, o romance “Meridiano de Sangue” (Alfaguara, 352 páginas), de Cormac McCarthy. Trata-se, simplesmente, do melhor livro do escritor americano, com nova tradução. A Nova Fronteira lançou o romance, com o título de “Meridiano Sangrento — Ou O Anoitecer Vermelho no Oeste” (320 páginas, com ótima tradução de Julieta Leite).
A história é violenta, sanguinolenta, mas os personagens, filhos de Shakespeare, são extraordinários. A forma tensa e ritmada torna o romance, às vezes vagaroso e não linear, uma delícia. Há uma edição portuguesa do romance de McCarthy, publicada pela Relógio d’Água.
Harold Bloom, desprezado no Brasil por certa crítica acadêmica, escreve muito bem sobre “Meridiano de Sangue” no livro “Como e Por Que Ler” (Objetiva, 275 páginas, tradução de José Roberto O’Shea).
“A merecida notoriedade de ‘Moby Dick’ e ‘Enquanto Agonizo’ é levada adiante por ‘Meridiano de Sangue’, pois Cormac McCarthy é discípulo de Melville e Faulkner. Eu diria que nenhum romancista norte-americano vivo, nem mesmo Pynchon, oferece-nos um livro tão marcante e memorável quanto ‘Meridiano de Sangue’, por mais que eu goste de ‘Submundo’, de Don DeLillo, ‘Zuckerman Bound’, ‘Teatro de Sabbath’ e ‘Pastoral Americana’, de Philip Roth, e de ‘O Arco-Íris do Desejo’ [publicado no Brasil, como ‘Arco-Íris da Gravidade’) e ‘Mason & Dixon’, de Pynchon. Nem mesmo o próprio McCarthy, na recente Trilogia da Fronteira, que inicia com o esplêndido ‘Todos os Belos Cavalos’, consegue igualar ‘Meridiano de Sangue’, ponto culminante do Western, e que jamais será superado”.
Bloom diz, com toda razão e apesar do capitão Ahab e de pelo menos um personagem de Ralph Ellison, que “o juiz Holden” é “a figura mais assustadora de toda a literatura norte-americana”. “Meridiano de Sangue” é uma obra que vai “permanecer canônica, marcante tragédia, ao mesmo tempo, norte-americana e universal. O juiz Holden é um vilão digno de Shakespeare, demoníaco como Iago, um teórico da guerra eterna. E a grandeza do livro — a linguagem, a paisagem, os personagens, as concepções —, em última análise, transcende a violência, e transforma sangue em arte, uma arte comparável à de Melville e Faulkner”.
Para Bloom, “em ‘Meridiano de Sangue’, a prosa é das mais elevadas, mas apresenta uma parcimônia toda sua, e diálogos sempre convincentes, especialmente quando o incrível juiz Holden fala. (...) Quando chego ao final do romance, creio que o juiz seja mesmo imortal”. Holden tem um quê de fantasmal, de Drácula. Sua ambiguidade “é por demais empolgante”.
“As três glórias do livro são o juiz, a paisagem e (é terrível ter de dizer isso) os massacres, esteticamente distanciados por McCarthy, por meios diversos e complexos. (...) Uma vez que a linguagem de Cormac McCarthy, como a de Melville e Faulkner, é, muitas vezes, propositadamente, arcaica, tudo leva a crer que o ‘meridiano’ do título signifique o zênite, isto é, a posição do sol no firmamento ao meio-dia”.
Ao contrário de Bloom, só pude me encantar com McCarthy quando consegui “libertá-lo” de Faulkner, porque, no fundo, são diferentes. Cruelmente diversos.















