George Eliot e Nechama Tec viram homens no Brasil
Desconfio que alguns resenhistas não leem os livros que comentam, talvez por excesso de trabalho ou, quem sabe, preguiça. Muitos leem o prefácio, a introdução ou o posfácio e escrevem as resenhas
A inglesa George Eliot (1819-1880) é uma escritora tão poderosa quanto Virginia Woolf. Por ter assinado seus livros com nome masculino, Mary Anne Evans é confundida, sobretudo no Brasil, com homem. Na tradução de um livro de ensaios de Gore Vidal, Diogo Mainardi (o erro deve ter sido do revisor, pois Mainardi conhece bem literatura) escreve: “Embora um George Eliot...”. Na semana retrasada, li o mesmo num jornal brasileiro, não me lembro qual. Alguns dos melhores livros de Eliot foram publicados no Brasil: “Middlemarch — Um Estudo da Vida Provinciana” (Record, 882 páginas), “Daniel Deronda” (Paz e Terra, 694 páginas, tradução de Marisis Aranha Camargo) e “O Moinho Sobre o Rio” (Círculo do Livro, 554 páginas, tradução de Gilda Stuart). Sua vida pode ser conhecida na excelente biografia “George Eliot — A Voz de um Século” (Record, 877 páginas, tradução de Laís Lira), de Frederick R. Karl. Sua vida daria literatura, aliás, deu, porque a biografia é tão rica quanto um dos melhores romances de Eliot.
Desconfio que alguns resenhistas não leem os livros que comentam, talvez por excesso de trabalho ou, quem sabe, preguiça. Muitos leem o prefácio, a introdução ou o posfácio e escrevem as resenhas. Há pouco, na “Folha de S. Paulo”, Oscar Pilagallo resenhou, num texto de poucas linhas, “Europa na Guerra” (Record), de Norman Davies, e “Stálin, os Nazistas e o Ocidente” (Larousse), de Laurence Rees. De forma lapidar, como convém ao resenhismo brasileiro, diz que as duas obras não contêm nada de novo. O que não é verdade (os livros mudam o foco de interpretação da guerra). Pilagallo implica com a valorização da participação da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, insinuando que, sobretudo Davies, desvaloriza o front ocidental. É fato que Davies revaloriza o front oriental, fornecendo dados que comprovam sua tese, o que Pilagallo não menciona, porque senão derrubaria sua “tese”, mas não desconsidera a participação de ingleses e americanos. Davies faz muito mais: valoriza canadenses, poloneses, ucranianos, bielo-russos, entre outros povos. E faz um alerta: os russos sofreram na guerra, mas é preciso dizer, no lugar de russos, “soviéticos”, porque outros povos, como ucranianos e bielo-russos, foram, proporcionalmente, muito mais agredidos pelos nazistas alemães. Ao mesmo tempo em que registram a atuação decisiva da URSS, Davies e Rees apontam, com farta documentação, os crimes do stalinismo e, de certo modo, a omissão dos pragmáticos Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt.
Erro espantoso foi cometido pela revista “IstoÉ”. O repórter Ivan Claudio escreveu: “Daniel Craig se despiu do uniforme de espião britânico para encarnar o refugiado judeu Tuvia Mandel no filme ‘Um Ato de Liberdade’, de Edward Zwick. A história se baseia em fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial e narrados em livro homônimo pelo escritor Nechama Tec”. “Um Ato de Liberdade” é baseado no livro “Defiance” (“Rebeldia”), traduzido no Brasil, por conta do filme, como “Um Ato de Liberdade — Os Guerrilheiros de Bielski” (Editora Record, 402 páginas, tradução de Dinah Azevedo). Correção: Nechama Tec é mulher, socióloga e professora da Universidade de Connecticut.





