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POR EM 15/05/2009 ÀS 06:44 PM

George Eliot e Nechama Tec viram homens no Brasil

publicado em

Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas

George Eliot e Nechama Tec  

A in­gle­sa Ge­or­ge Eli­ot (1819-1880) é uma es­cri­to­ra tão po­de­ro­sa quan­to Vir­gi­nia Wo­olf. Por ter as­si­na­do seus li­vros com no­me mas­cu­li­no, Mary An­ne Evans é con­fun­di­da, so­bre­tu­do no Bra­sil, com ho­mem. Na tra­du­ção de um li­vro de en­sai­os de Go­re Vi­dal, Di­o­go Mai­nar­di (o er­ro de­ve ter si­do do re­vi­sor, pois Mai­nar­di co­nhe­ce bem li­te­ra­tu­ra) es­cre­ve: “Em­bo­ra um Ge­or­ge Eli­ot...”. Na se­ma­na re­tra­sa­da, li o mes­mo num jor­nal bra­si­lei­ro, não me lem­bro qual. Al­guns dos me­lho­res li­vros de Eli­ot fo­ram pu­bli­ca­dos no Bra­sil: “Middle­march — Um Es­tu­do da Vi­da Pro­vin­ci­a­na” (Re­cord, 882 pá­gi­nas), “Da­ni­el De­ron­da” (Paz e Ter­ra, 694 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ma­ri­sis Ara­nha Ca­mar­go) e “O Mo­i­nho So­bre o Rio” (Cír­cu­lo do Li­vro, 554 pá­gi­nas, tra­du­ção de Gil­da Stu­art). Sua vi­da po­de ser co­nhe­ci­da na ex­ce­len­te bi­o­gra­fia “Ge­or­ge Eli­ot — A Voz de um Sé­cu­lo” (Re­cord, 877 pá­gi­nas, tra­du­ção de Laís Li­ra), de Fre­de­rick R. Karl. Sua vi­da da­ria li­te­ra­tu­ra, ali­ás, deu, por­que a bi­o­gra­fia é tão ri­ca quan­to um dos me­lho­res ro­man­ces de Eli­ot.

Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas. Há pou­co, na “Fo­lha de S. Pau­lo”, Os­car Pi­la­gal­lo re­se­nhou, num tex­to de pou­cas li­nhas, “Eu­ro­pa na Guer­ra” (Re­cord), de Nor­man Da­vi­es, e “Stá­lin, os Na­zis­tas e o Oci­den­te” (La­rous­se), de Lau­ren­ce Re­es. De for­ma la­pi­dar, co­mo con­vém ao re­se­nhis­mo bra­si­lei­ro, diz que as du­as obras não con­têm na­da de no­vo. O que não é ver­da­de (os li­vros mu­dam o fo­co de in­ter­pre­ta­ção da guer­ra). Pi­la­gal­lo im­pli­ca com a va­lo­ri­za­ção da par­ti­ci­pa­ção da Uni­ão So­vi­é­ti­ca na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al, in­si­nu­an­do que, so­bre­tu­do Da­vi­es, des­va­lo­ri­za o front oci­den­tal. É fa­to que Da­vi­es re­va­lo­ri­za o front ori­en­tal, for­ne­cen­do da­dos que com­pro­vam sua te­se, o que Pi­la­gal­lo não men­ci­o­na, por­que se­não der­ru­ba­ria sua “te­se”, mas não des­con­si­de­ra a par­ti­ci­pa­ção de in­gles­es e ame­ri­ca­nos. Da­vi­es faz mui­to mais: va­lo­ri­za ca­na­den­ses, po­lo­nes­es, ucra­nia­nos, bi­e­lo-rus­sos, en­tre ou­tros po­vos. E faz um aler­ta: os rus­sos so­fre­ram na guer­ra, mas é pre­ci­so di­zer, no lu­gar de rus­sos, “so­vi­é­ti­cos”, por­que ou­tros po­vos, co­mo ucra­nia­nos e bi­e­lo-rus­sos, fo­ram, pro­por­ci­o­nal­men­te, mui­to mais agre­di­dos pe­los na­zis­tas ale­mã­es. Ao mes­mo tem­po em que re­gis­tram a atu­a­ção de­ci­si­va da URSS, Da­vi­es e Re­es apon­tam, com far­ta do­cu­men­ta­ção, os cri­mes do sta­li­nis­mo e, de cer­to mo­do, a omis­são dos prag­má­ti­cos Wins­ton Chur­chill e Franklin D. Ro­o­se­velt.

Er­ro es­pan­to­so foi co­me­ti­do pe­la re­vis­ta “Is­toÉ”. O re­pór­ter Ivan Clau­dio es­cre­veu: “Da­ni­el Cra­ig se des­piu do uni­for­me de es­pi­ão bri­tâ­ni­co pa­ra en­car­nar o re­fu­gi­a­do ju­deu Tu­via Man­del no fil­me ‘Um Ato de Li­ber­da­de’, de Edward Zwick. A his­tó­ria se ba­seia em fa­tos re­ais ocor­ri­dos du­ran­te a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al e nar­ra­dos em li­vro ho­mô­ni­mo pe­lo es­cri­tor Ne­cha­ma Tec”. “Um Ato de Li­ber­da­de” é ba­se­a­do no li­vro “De­fi­an­ce” (“Re­bel­dia”), tra­du­zi­do no Bra­sil, por con­ta do fil­me, co­mo “Um Ato de Li­ber­da­de — Os Guer­ri­lhei­ros de Bi­elski” (Edi­to­ra Re­cord, 402 pá­gi­nas, tra­du­ção de Di­nah Aze­ve­do). Cor­re­ção: Ne­cha­ma Tec é mu­lher, so­ci­ó­lo­ga e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­da­de de Con­nec­ti­cut.
 

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