Feltrinelli: o editor que bancou Doutor Jivago
A Editora Conrad lançou um livro importante, "Feltrinelli — Editor, Aristocrata e Subversivo", de Carlo Feltrinelli. A biografia não deve ser considerada suspeita porque foi escrita pelo filho de Feltrinelli; na maioria dos casos, ele publica as contradições do pai e as versões de outras pessoas.
Se levasse cinema a sério, diria que a história de Feltrinelli merece um grande filme, no estilo do que Luchino Visconti fez com "O Gattopardo", romance do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa. O que deve chamar mais a atenção é a história de Feltrinelli como “terrorista”, “amigo” de Fidel Castro e “milionário”. Ao tentar colocar uma bomba num local público, em 1972, Feltrinelli morre. A Europa ficou perplexa.
O que me interessa é a história de como publicou os romances "Doutor Jivago", do russo Boris Pasternak, na Itália, e "O Gattopardo" ("O Leopardo").
Poeta refinado, um clássico moderno, tradutor de Shakespeare, Pasternak escreveu "Doutor Jivago" para, de certo modo, se vingar dos comunistas que proibiam a publicação de seus textos. O romance, que transita com desenvoltura entre a prosa e a poesia (há uma bela tradução de Zoia Prestes, Editora Record. Os poemas foram traduzidos por Marco Lucchesi), é, em termos formais, uma volta ao romance russo do século 19 e, ao mesmo tempo, um modo de interferir, direta ou indiretamente — como a prosa de Dostoiévski (pioneiro na dissecação do terrorismo com "Os Demônios") e Tolstói —, na vida dos russos do século 20. Transformado num épico pelo cinema — o belo filme de David Lean —, "Doutor Jivago" comoveu gerações de socialistas, capitalistas e indivíduos politicamente independentes.
Mesmo antes de ser filmado por Lean, o romance era um sucesso, mas não na Rússia, onde só foi publicado, em 1989, depois da perestroika e da glasnost de Mikhail Gorbachev. Ao perceber que o romance tinha valor, Feltrinelli mobilizou várias pessoas, torrou dinheiro e arrancou os originais de "Doutor Jivago" do cercadíssimo território russo. Ele recebeu o texto em Berlim, em 1956.
Feltrinelli contratou um tradutor e, depois de uma correspondência intensa com Pasternak (incorporada no livro, num corpo tão pequeno que deixa os olhos doendo), publicou "Doutor Jivago" em 23 de novembro de 1957. O livro vendeu muito bem na Itália — 12 mil exemplares na primeira semana —, mas Pasternak não pôde desfrutar do dinheiro e morreu amargurado com a censura e a perseguição dos comunistas soviéticos. Em 1958, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas não pôde recebê-lo. Numa reunião pública, Nikita Kruschev disse que Pasternak era “um porco que cospe na própria manjedoura” (a tradução mais brasileira talvez seja prato) e pediu sua expulsão da Rússia. Pasternak, depois de cogitar matar-se, procurou Kruschev e disse-lhe que o exílio no Ocidente “significaria” a morte para ele.
O meu comentário é um pálido resumo do belíssimo livro.





