Ciclo de Albany: a verve e o entusiasmo de William Kennedy
Capital do estado de Nova Iorque, com cerca de cem mil habitantes, a pequena Albany é também o cenário principal de uma série de livros escritos por William Kennedy. O autor de “Ironweed”, prêmio Pulitzer de literatura em 1984, vem ao Brasil em agosto para participar da Feira Literária Internacional de Paraty.
Como jornalista, Kennedy fez importantes trabalhos investigativos em sua cidade, principalmente na cobertura política. O trabalho na imprensa o levou a Porto Rico, onde se tornou amigo de Saul Bellow, um dos maiores romancistas norte-americanos — embora tenha nascido no Canadá — do século XX, prêmio Nobel em 1976. Bellow ajudou Kennedy a “ir direto ao ponto”, cortando os excessos e dando confiança ao autor do Ciclo de Albany.
A série de romances, sete até o momento, conta a história da família Phelan, imigrantes irlandeses, na cidadezinha de Nova Iorque. Segundo Kennedy, as inspirações para o famoso Ciclo são variadas, passando pela família Glass de J. D. Salinger, pelas histórias de Faulkner e James Joyce, além da Comédia Humana de Balzac, em que os personagens transitam por diferentes romances.
A editora Cosac & Naify se encarrega de lançar as obras de William Kennedy no país. O livro mais recente a aportar por aqui é “O Grande Jogo de Billy Phelan”, cuja trama se relaciona com a máquina política de Albany nos anos 30. Os leitores também podem encontrar edições da Companhia das Letras, como “Ossos Antigos” (Very Old Bones, que vem sendo chamado nos jornais de Velhos Esqueletos) e “O Livro de Daniel Quinn”.
Narrado por Orson Purcell, filho bastardo de Peter Phelan, “Ossos Antigos” é uma dolorosa história de acerto de contas entre diversas gerações da família Phelan na famosa residência da Colinie Street, em Arbor Hill. Mais do que “uma trama de memória delirante”, na expressão do narrador, “Very Old Bonés” é também um livro sobre a loucura e sobre a redenção. A loucura a que parecem condenados todos os Phelan, bem como a suposta redenção desses imigrantes irlandeses na América.
Exímio artesão, Kennedy consegue unir lirismo ao desencanto da história, na voz sempre sarcástica e nunca autoindulgente de Orson Purcell. Os diálogos são tão certeiros quanto os de um Ernest Hemingway, com tiradas secas e precisas. Mesmo os trechos sensuais e românticos têm a ironia como contrapartida.
Dividido em cinco partes, “Ossos Antigos” tem trechos que se justificariam em separado, como o dia em que Peter providenciou a instalação de luz elétrica na casa da família, depois da morte da matriarca Kathryn. A “escalada rumo à demência” de Orson é contada em flashback, desvendando o passado até culminar na tentativa de expiação das culpas familiares dos Phelan.
Luz e sombra
“Mesmo como aspiração, a arte é um meio de se adquirir controle sobre a vida”, afirma o narrador. A arte como tentativa de ordenação à existência, eis uma das lições de William Kennedy. Com proposta ligeiramente semelhante, Ian McEwan escreveu “Reparação”, o romance do século XXI, segundo os críticos. É claro que o inglês aborda a questão de outro ângulo, mas nem por isso “Ossos Antigos” deixa de ser um romance complexo sobre o assunto.
Passar da claridade para a escuridão ou da escuridão para a claridade, indaga Platão na epígrafe. Em certo momento, Orson pondera: “Cada um usa o talento que tem, não é? E cada um também segue os seus demônios. Cada um faz o que pode para adquirir algum poder sobre a vida, porque só quando somos desafiados é que ficamos conhecendo os nossos limites — e aí é que as cosias começam a ficar estranhas”.
William Kennedy desenvolve com maestria os demônios familiares dos Phelan, abordando a criação artística, além de temas como a presença da memória nos quadros de Peter e do próprio narrador. Discutindo a motivação dos artistas — culpa, loucura e energia sexual —, Kennedy jamais se esquece de temperar o texto com “verve e entusiasmo”, como afirma um dos personagens do livro.





