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POR EM 28/03/2010 ÀS 11:50 AM

Chá das Cinco Com o Vampiro

publicado em

Chá das Cinco Com o Vampiro

“Chá das Cinco Com o Vampiro” (Objetiva, 285 páginas), de Miguel Sanches Neto, é um roman à clef da pesada (seria quase um bildungsroman?). Seu projeto, se há um, é desmitificar o escritor minimalista Dalton Trevisan, conhecido como Vampiro de Curitiba, por conta de sua reclusão salingeriana (a diferença é que publica). Sanches escreve bem e com muita graça, sem porra-louquice.

 

Aos 84 anos, Trevisan reagiu com fúria ao saber do romance e chamou Sanches de “filho espiritual de Caim”, “traveca de araponga louca de meia-noite” e “hiena papuda”. Vi uma fotografia de Sanches. Não parece papudo nem Sancho Pança. Talvez tenha o gogó mais pronunciado do que o de outros homens. Mas, “hiena papuda”, é exagero produzido pelo ódio. Depois de certa idade, não se tem mais tempo para ter raiva — tem-se ódio, que é raiva transformada em pedra e que se leva para o túmulo (raiva é ódio provisório). O livro, presente do velho amigo Vassil Oliveira, é tão interessante que, começada a leitura, não queremos mais parar. O que buscamos? Escândalos? Talvez. Ou, quem sabe, um sentido para a obra de Trevisan, que, embora sabendo importante, não me apetece. Trevisan parece ter uma vida insossa, mas sua imaginação voa mais alto do que o cotidiano sem importância.

 

A crítica a Trevisan é direta: “O que destrói uma pessoa, qualquer pessoa, por mais reservada que seja, é a vaidade. No fundo, estamos sempre querendo ser aceitos. Esperando a aprovação dos outros. E fingimos indiferença ao mundo, ou mesmo ódio, até certo ponto. Há uma hora em que nos rendemos”. Será que Trevisan cabe na modelagem traçada pelo costureiro de palavras Sanches? Os indivíduos não são diferentes? Seu livro resulta do fato de, aparentemente, ter sido humilhado pelo mestre? Não sabemos, ou não sabemos inteiramente. Sanches é corajoso, pois, como adotamos o modo de vida americano, por qualquer motivo se processa e se exige indenização no Brasil.

 

Quando conversa com mulheres jovens e bonitas, o Vampiro fica aceso, contando histórias, como se quisesse rejuvenescer. Pois o elixir do velho é a juventude. Num encontro com duas garotas, uma delas jornalista, Trevisan se mostra encantador. “Um vampiro nunca antes tão compreensivo, levemente histriônico, conquistador”, conta Sanches. Só faltou dizer que o Vampiro estava babando. As palavras são as babas dos escritores, e, às vezes, não apenas dos escritores.

 

Sanches mostra Trevisan como “ex-viciado” em chocolate. Um guloso, enfim.

O Trevisan repetitivo, até cansativo, é explicitado por Sanches, ou melhor, pela personagem Beto Nunes. Trevisan deve ter se irritado ao ler sobre seu método de “pesquisa” — pagando pessoas para buscar informações (Proust não fazia diferente) — e a história de que Beto-Sanches, ao revisar seus contos, polia-os.

 

O personagem Geraldo Trentini é Dalton Trevisan escarrado. Sanches faz questão de nada esconder. Trevisan e Trentini têm oito letras, com cinco consoantes e três vogais. O início dos sobrenomes começa com “tre”. O objetivo de Sanches é não deixar dúvidas. Mas o romance sobrevive como romance? É o que os críticos terão de responder daqui pra frente. A minha impressão é que ficará como uma espécie de biografia, ou ensaio biográfico, não autorizada do Vampiro de Curitiba. Um ponto de partida para a futura biografia, que poderia ser escrita, digamos, por José Castello.

 

O livro me fez bem, pois ri, sozinho, várias vezes. Fico a pensar: Trevisan, atingido pelas palavras cruéis — quanto mais verdadeiras mais cruéis —, nem pode rir. Mas será que, sozinho, não dá boas risadas? Se não der, e aí Beto estará certo, bom sujeito não é.

 

As pedras de Miguel Sanches Neto não são destinadas apenas a Trevisan. Valêncio Xavier, no livro Valério Chaves, é tratado como um escritor menoríssimo. Até ridículo. A história do rompimento de Trevisan com o crítico literário Wilson Martins (Valter Marcondes), pelo qual Sanches tem simpatia — embora seus principais referenciais críticos sejam Álvaro Lins e Sérgio Milliet —, é hilariante. O jornalista Fábio Campana, Orlando Capote, também “apanha” sem dó nem piedade. Engraçado: ao descrever amigos e ex-amigos de modo impiedoso, tornando-os inimigos, é Sanches quem lembra o escritor americano Truman Capote. O autor do romance de não-ficção “A Sangue Frio” era amado pela elite da elite americana, mas, ao descrevê-la sem nenhuma delicadeza, passou a ser ignorado.

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Comentários (12)

  • Menos uma vingança e mais um exercício de desmistificar a vida dos escritores e a vida literária que não tem nada de elevada ou de glamurosa. O livro é muito bem escrito e não é sobre Dalton Trevisan, é sobre a vaidade, sobre o meio literário é sobre muitas coisas...

    10 meses atrás por Leonardo Meimes
  • Um dos melhores livros publicados no Brasil na última década. Bela resenha.

    1 ano atrás por Karl
  • A escrita do Sanches Neto pode ser o expoente mais grosseiro do que eu penso por autoficcao. No entanto, a obviedade das imagens expostas pelo autor em contraponto a existência e ações de Trevisan não é nem inédita nem inconsciente. Admiro suas possibilidades, mas não diria que é corajoso por isso, nem que se trata de uma obra fluida e interessante, até pq, pelo menos para mim, a obra não se qualifica. Não passa de um livro mediano, a menos que você contemple e se interesse pelo universo que desmascara, ou mascara, o autor.

    2 anos atrás por Emi Machado
  • Frase de Kalil Gibran que vale para o livro de Sanches, aplica-se a Dalton Trevisan, assim como a toda obra e todo e qualquer autor: "Todo trabalho é vazio, a não ser que haja amor".

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • De Sanches Neto li o de contos Hóspede Secreto, que é bom. De Trevisan li um bocado. O Trevisan mais antigo é genial. O Trevisan mais recente é ruim. Seus "minicontos" são um insulto à inteligência do leitor, uma evidência de sua preguiça para desenvolver boas idéias.

    2 anos atrás por Flávio Paranhos
  • Não conheço a obra do Sanches, a não ser "Amor Anarquista" que achei um livro de boas sacadas, mas bem cansativo - quase que documental. Esse lançamento do Sanches me parece se valer do mesmo formato do "Amor Anarquista". Só que agora com uma predileção mais biográfica que história.

    Sobre o conflito, penso que se o Trevisan pegou pesado o Sanches mereceu. Eu no lugar no Trevisan ficaria perversamente furioso. No lugar no Sanches faria o mesmo: revelava tudo, chutaria o balde. Então não dá para escolher um lado e eleger o dono da razão.

    Como professor de crítica literária, o Sanches manda bem na uepg. Isso é indiscutível.

    Abraço.

    2 anos atrás por André HP

  • Observe o que ele diz em uma entrevista sobre Trevisan: “Claro que guardo mágoa, a mágoa do leitor devoto, que se dedicou intensamente à leitura de uma obra, fazendo de tudo para compreendê-la. Depois das agressões que recebi, eu me tornei mais exigente em relação a esta obra, perdendo um restinho de inocência. O fato é que o meu livro está pressuposto na ficção de Trevisan, é um subproduto dela, ele queira ou não.”


    2 anos atrás por Alessandro
  • Divertido? Vale a pena? Miguel Sanches Neto usa o livro para se vingar da reprimenda que sofreu de Dalton Trevisan, depois que ele (Sanches) andou falando bobagens sobre o escritor curitibano.

    2 anos atrás por Alessandro
  • O livro é muito divertido. Vale a pena.

    2 anos atrás por Lauro
  • Discordo de Maja. Nenhuma existência é pequena. Já pessoas que apequenam trabalhos alheios à guisa de crítica, essas existem aos montes. É com todo respeito ao autor do post que digo que na minha opinião dizer que Chá das Cinco é SOBRE a vida de Dalton Trevisan é o mesmo que dizer que Vampiro de Curitiba é sobre a vida de Conde Drácula. Focar o romance apenas nisso seria uma perda...uma pena....

    2 anos atrás por Vanessa
  • Miguel Sanches Neto é um poeta alienado. Mais do que previsível ele tentar montar no sucesso de outros escritores, pra tentar fazer valer sua existência pequena.

    2 anos atrás por Maja
  • Dalton Trevisan é mais um escritor folclórico, do que um grande escritor.

    2 anos atrás por Rogério


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