Carol Shields: o comum é incomum
A escritora Margaret Atwood, no livro “Buscas Curiosas” (Rocco, 432 páginas, tradução de Ana Deiró), recolhe uma frase de Alice Munro sobre a escritora canadense Carol Shields: “Era uma pessoa luminosa”. Atwood é precisa: “A vida humana é uma massa de estatística, apenas para os estatísticos: o resto de nós vive em um mundo de indivíduos, e a maioria deles não é proeminente. Suas alegrias, entretanto, são plenamente jubilosas, e suas perdas e sofrimentos são reais. O caráter extraordinário de pessoas comuns era o forte de Shields, que alcançou sua mais plena expressão nas novelas ‘Swann’ [Record, 384 páginas], ‘The Republic of Love’ e, especialmente, ‘Os Diários de Pedra’ [Record, 364 páginas]. Ela dava a seu material o pleno benefício de sua enorme inteligência, seus poderes de observação, sua verve e agudeza de espírito humano, e suas amplas e vastas leituras. Seus livros são deleitáveis, no sentido original da palavra: são cheios de deleite, delícias e prazer”. Com tanta recomendação, comecei a ler “A Festa de Larry” (Record, 364 páginas, tradução de Ana Luiza Borges), livro com o qual Shields ganhou o Orange Prize. Munro e Atwood têm razão: a prosa de Shields é luminosa. É um retrato perfeito, ou quase, do homem comum. Shields é uma James Joyce sem firulas linguísticas. Joyce levou o homem comum para o centro de “Ulysses”. A história é comum — incomum é a forma (a linguagem) como Joyce a narra. Por caminhos diferentes, o irlandês e a canadense chegaram a resultados parecidos. Ainda que a comparação menos imprecisa seja com John Updike.





