Brasilianista sugere que crítica ao golpe de 64 começou em Washington
Os Estados Unidos apoiaram o golpe civil-militar de 1964. Chegaram a preparar ajuda militar, por intermédio da Operação Brothers Sam, mas o sistema de defesa do governo do presidente João Goulart era tão frágil que o apoio americano não foi necessário. O brasilianista James N. Green, no livro “Apesar de Vocês — Oposição à Ditadura Brasileira nos Estados Unidos, 1964-1985” (Companhia das Letras, 582 páginas), tenta provar que, apesar do apoio do governo e da imprensa, intelectuais americanos criticaram o golpe e, na sequência, denunciaram torturas contra militantes da esquerda. Embora fossem minoria, chegaram a influenciar a posterior política de direitos humanos do governo.
Trata-se de uma pesquisa no geral rigorosa, mas de matiz esquerdista. Os militares são mais ou menos demonizados, enquanto a esquerda radical, que pretendia implantar outra ditadura, a do (na verdade, contra o) proletariado, é mostrada de modo quase angelical. Green não é adepto de que o golpe “começou” em Washington, mas sugere que, sem o apoio americano, que possibilitou a aglutinação das correntes militares, o golpe talvez não tivesse ocorrido ou teria demorado mais tempo. A crítica do golpe “começou” em Washington? Green não sustenta que começou, mas conta que a crítica organizou-se, em grande medida, nos Estados Unidos e, daí, ganhou o mundo.
Até a página 86, Green faz um cozinhadão do que se publicou no Brasil a respeito do golpe militar, com destaque para os livros do jornalista Elio Gaspari, sua principal fonte de informação. Nada há de novo. Depois, o historiador americano apresenta personagens novos e outros não tão novos, mas a respeito dos quais se sabia pouco em termos de combate direto ou indireto à ditadura. Aí o livro “acorda” e fica menos desinteressante.
Green relata que vários americanos e brasileiros radicados nos Estados Unidos contribuíram, de modo decisivo, para mostrar que o regime militar torturava e matava presos políticos. Eram intelectuais (muitos brasilianistas, que a esquerda chegou a chamar de “agentes da CIA”), militantes dos direitos humanos e civis, e religiosos. A recuperação das ações de Marcos Arruda, Brady Tyson, Ralph Della Cava, Robert Levine, Tetê Moraes, Phyllis R. Parker, Thomas Skidmore, Anivaldo Padilha (Niva), Jovelino Ramos, entre outros, é o forte do livro. Mas o barulho que tem provocado talvez seja maior do que valem suas teses.
O historiador não é muito cuidadoso com nomes. O capitão Benone Arruda Albernaz aparece apenas como “capitão Albernaz” na página 312 e no índice remissivo (página 561). O sociólogo chileno Enzo Faletto, um dos pais da teoria da dependência, tem o sobrenome mudado para “Fallet” (páginas 242, 567 e 569).





