Biografia de Lula “mata” militar que está vivo
Na contracapa de “Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao Planalto” (360 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Bernardo Schmidt), o escritor Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, que publicou a obra, escreve: “Os livros de Denise Paraná e o filme de Fábio Barreto contam a história emocionante e épica de Lula. O livro de Richard Bourne faz a mesma coisa — mas também a explica”. Concluída a leitura, constata-se que o livro é uma crônica da vida de Lula, da infância à Presidência da República, mas sem grandes revelações. Pode conter novidades para estrangeiros, mas para o leitor brasileiro minimamente informado é um repeteco do que Denise Paraná publicou na biografia oficial de Lula e do que saiu nos jornais e revistas. Há alguns erros na “pesquisa” de Bourne, que, se não comprometem todo o trabalho, indicam desleixo do professor-doutor da Universidade de Londres e da editora. Há informações interessantes, embora nada novas, como o fato de Lula ter sofrido depressão e ter sugerido que poderia desistir da disputa em 2002. Bourne mostra que Lula já “transferia” voto como metalúrgico. Na década de 1970, Jair Meneghelli não queria disputar a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, mas Lula o impôs. Meneghelli obteve 89% dos votos.
Secundando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Bourne sustenta que Lula é uma estrela internacional, mas admite que teve “dificuldade em convencer editores” a publicar seu livro no exterior. O livro não é inteiramente ruim, mas, apesar de recolher algumas críticas, aproxima-se de uma hagiografia. Às vezes, o autor “compra” as informações do governo Lula e, sem examiná-las com atenção, aprova-as. Um dos problemas de Bourne é sua bibliografia haitiana: não cita os livros de Elio Gaspari e de Luís Mir, autor de um grande estudo sobre o PT (uma visão talvez excessivamente vinculada à do Partidão).
O meu texto não é uma resenha, mas um apontamento do típico desleixo editorial do Brasil. Bourne se diz especialista em Brasil, sobretudo em Lula, mas não parece muito bem informado sobre detalhes importantes da história do país. A Geração Editorial, uma casa gabaritada, dirigida por um jornalista experimentado, tinha o dever de corrigir o texto e, eventualmente, adequá-lo. A Editora Record, ao receber uma tradução, submete-a um especialista no assunto em foco. Provavelmente muitos desastres foram evitados com a revisão técnica.
No caso do livro de Bourne, a revisão técnica teria corrigido a maioria das falhas. Quando sugiro que a obra aproxima-se de uma hagiografia quero dizer exatamente que não se trata 100 por cento de uma biografia de santo. Porque, nos capítulos finais, Bourne torna-se mais crítico em relação ao governo, indicando, quem sabe, certo desencanto. Deixei de apontar vários outros erros, para evitar cair no quixotismo, sobretudo porque não atrapalham em nada o trabalho do pesquisador inglês.
“Lula do Brasil”, apesar dos vários problemas, não é descartável. O leitor certamente fica conhecendo um pouco mais do fenômeno que se tornou maior do que o PT e todos os outros partidos políticos brasileiros. Mas falta uma biografia mais crítica e perspicaz do homem e do político Lula. Por enquanto, depois de Denise Paraná e Bourne, temos o presidente-quase-santo. Seus problemas recentes de hipertensão serviram pelo menos para humanizá-lo, para reduzir sua aura de santo de Garanhuns. Lula não é apenas gente, na lida com o povão — é também mortal.
Não deixa de ser sintomático que os intérpretes estrangeiros do Brasil, nos últimos anos, têm decaído. Não temos mais um Claude Lévi-Strauss ou um Roger Bastide. Temos os apressados Bourne e Larry Rohter, mais fáceis de serem lidos e, igualmente, menos profundos. Rohter e Bourne são, muitas vezes, tão profundos quanto um pires. Rohter, na sua tentativa de dessacralizar, também não soube explicar porque Lula, contrariando as expectativas de vários intelectuais, se elegeu presidente da República duas vezes, derrotando José Serra e Geraldo Alckmin, dois tucanos da orgulhosa elite política de São Paulo. Lula está à espera de uma pena que, embora compreensiva, não perca a dimensão crítica.
Lista de erros cometidos pelo professor-doutor inglês Richard Bourne, da universidade de Londres
1 — O ideólogo do governo Lula, Marcos Aurélio Garcia, ganhou um “de” supostamente enobrecedor: “Marco Aurélio de Garcia”.
2 — “O Partido Comunista Brasileiro foi fundado em 1922.” Em 1922 foi fundado o Partido Comunista do Brasil, só mais tarde Partido Comunista Brasileiro.
3 — Bourne diz que o presidente João Goulart era “conhecido como Jango por seus partidários”. Errado. Até os jornais radicalmente contrários ao presidente o chamavam de Jango.
4 — Na página 39, há um problema que talvez tenha a ver mais com a tradução. Bourne diz que, em 1967, os “amigos” do regime militar “demonstrarem-se incapazes de vencer as eleições”. A palavra apropriada não é “amigos”, e sim partidários.
5 — Ao contrário do que diz Bourne, Vladimir Herzog, quando foi assassinado sob tortura, em 1975, não era “um jornalista célebre”. Ficou “famoso” depois de morto.
6 — Bourne diz que, na década de 1970, alguns deputados do MDB “tinham ligações com os comunistas do submundo”. Submundo não é a palavra justa. O termo clandestinidade talvez seja mais apropriado. O problema é, mais uma vez, de tradução.
7 — No lugar de “comida”, o autor (ou tradutor) prefere usar “ração”. No Brasil, pelo menos, a palavra “ração” tem a ver mais com comida para animais.
8 — Na página 71, Bourne diz que o general Golbery do Couto e Silva “foi demitido” pelo presidente João Baptista Figueiredo. Na página 87, o autor publica a informação correta: Golbery “renunciou em protesto contra a perda de controle sobre o aparato de segurança”.
9 — Em 1981, “duas bombas explodiram no centro de convenções Riocentro, no Rio de Janeiro. (...) As explosões tinham uma ligação direta com o aparato de segurança do DOI-Codi, como indicou o fato de uma das bombas ter explodido prematuramente em um carro, matando um sargento e um capitão do Exército”. Bourne, talvez fazendo justiça ao homônimo [Jason] Bourne, acaba de se tornar criminoso: matou o hoje coronel Wilson Dias Machado, que, quando capitão, acompanhou, no Riocentro, o sargento Guilherme Pereira do Rosário. Guilherme morreu e Machado está vivíssimo.
10 — O festival de erros não para. Bourne desinforma: “Em setembro de 1980, uma carta-bomba endereçada ao presidente da OAB matou seu secretário”. O professor da Universidade de Londres não sabe, mas os brasileiros sabem que quem morreu foi a secretária Lyda Monteiro Silva, de 59 anos.
11 — Em 1984, no tempo das Diretas Já, as Organizações Globo tinham apenas um jornal impresso, “O Globo”. Bourne escreve: “Jornais como os do grupo Globo”.
12 — “Ricardo Kotscho estava preparando um plano de governo que duraria dez anos.” Kotscho, ex-assessor de Imprensa do presidente Lula, tinha poder, mas será que o plano de governo foi elaborado pelo jornalista?
13 — Bourne foi jornalista do “The Guardian”, mas esqueceu que é preciso apurar informações com rigor. “Uma repórter da revista semanal ‘Veja’ fora instruída a ridicularizar os ônibus de campanha [de Lula] em sua cobertura”, diz o acadêmico. Mas não cita o nome da jornalista nem de quem a instruiu. Nem apresenta provas da suposta orquestração. Numa nota, na página 315, cita como fonte única e exclusivamente Ricardo Kotscho, um profissional sério, mas, no caso, suspeito. Foi assessor de Imprensa de Lula e permanece íntimo.
14 — Bourne tenta ser isento, eventualmente apresentando críticas a Lula, mas, não raro, parece petista. A crítica ao fato de Lula “morar numa casa em São Bernardo paga por um amigo, Roberto Teixeira”, é vista como “ataque pessoal”. O estudioso inglês não informa que Teixeira é empresário que, possivelmente, negocia com governos.
15 — Bourne garante, sem apresentar testemunho confiável: “O ministro da Educação de [Fernando Henrique] Cardoso [Paulo Renato Souza] não podia pagar uma passagem aérea para Washington”. A fonte da informação? Anônima.
16 — Uma casa é um edifício? Por certo, é. Mas, no Brasil, convencionamos chamar casa de casa e edifício é sinônimo de prédio (de vários andares). Bourne, deixando de seguir a tradição local, diz que o caseiro Francenildo Costa trabalhava num edifício em Brasília. Quem trabalha em edifício é, em geral, zelador ou porteiro. O inglês afirma que Costa “testemunhou obscenas idas e vindas” do ex-ministro Antônio Palocci. Só não esclarece o que entende por obscenas.
17 — Bourne parece alheio ao mundo real quando diz que a mídia brasileira trabalhou contra o desarmamento da população. A maioria dos jornais e das redes de televisão, como a TV Globo, defendia o desarmamento. “Veja” e o Jornal Opção foram dos poucos que se posicionaram a favor da liberdade individual.
18 — Não tenho nenhum interesse em defender o governo de Fernando Henrique Cardoso, mas Bourne equivoca-se quando diz que Lula iniciou o processo para melhorar o sistema educacional brasileiro. O governo FHC criou o Fundef, que Lula apenas aperfeiçoou.















