revista bula

compartilhe



últimos comentários

últimas no twitter

  • @carolmoraisnut Seu comentário foi extremamente sensato. O proprietário da casa não está preparado para lidar com gente.
    8 horas atrás
  • 100 links para clicar antes de morrer (parte 2) | Revista Bula http://t.co/2lyLdsAo
    19 horas atrás
  • @anarina E aí...um texto por ano? Hihihi.
    19 horas atrás
  • Adagio do Concerto Nº 23 para Piano e Orquestra de Mozart. Interpretado por Hélène Grimaud: http://t.co/wwwQiydp
    19 horas atrás
  • ?@henrique_luz: App oficial do Twitter para iPhones/iPods touch chega à versão 4.1 com grande lista de novidades http://t.co/41KBoefh?
    1 dia atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

sugestões de filmes

  • O Homem de La Mancha, com Sophia Loren

POR EM 14/01/2012 ÀS 12:58 PM

Bartleby e Companhia

publicado em

Dentro do universo literário existe um fenômeno estranhíssimo, porém constante, de escritores com alta exigência literária, e com incrível capacidade de escrita, que se negam a escrever. Ou escrevem, e publicam, algumas poucas coisas e se calam para sempre. Ou, quando não se calam para sempre, ficam décadas num silêncio literário que agonia seus leitores e que deixam os críticos cismados. Esses escritores fazem parte do grupo que sofre da síndrome de bartleby.

Outro dia (há três anos; vocês não sabem, mas sou o arqueólogo oficial desse site, um caçador de textos empoeirados) o Flávio Paranhos, ilustre escritor da Bula, falava da sua recusa a escrever (e até de ler) ficção e que isso não era ocasionado pela síndrome de bartleby, que ela não causa nada, pois os escritores é que se recusam, numa espécie de abstinência consciente, ao seu ofício de escrever.

Pra mim, escritores que não escrevem é um mistério insolúvel. Como explicar o fato de Salinger, um dos maiores expoentes da literatura contemporânea, ter publicado apenas 4 livros e logo em seguida se calar, num silêncio que durou mais de 40 anos até sua morte em janeiro de 2010? Assim como Salinger, existem muitos outros bartlebys na literatura.

A síndrome de bartleby tem esse nome por causa do conto de Herman Melville, “Bartleby, o escrivão”, sobre um jovem que responde a anúncio de jornal oferecendo uma vaga de copista. No início se dedica com vigor ao seu novo emprego, sempre na ânsia de copiar algo, até que uma apatia vai tomando conta dele, a ponto de ficar dias sem fazer nada, sem se alimentar, sem sair do seu lugar, apenas olhando pela janela, e quando o dono do cartório insta-o a copiar algo, responde sem vontade: “preferia não o fazer”. E assim segue, absolutamente indiferente às coisas até seu triste fim. E, isolando a essência desse personagem, o escritor Enrique Villa-Matas escreve seu livro “Bartleby e Companhia”.

Um livro de notas para um texto que não existe. Notas que falam de escritores que não escrevem. O autor dessas notas, um escritor corcunda que não publica há mais de 25 anos, fascinado por bartlebys. Não dá para nomear o livro de Villa-Matas como um romance, afinal seu narrador é um bartleby, um não-escritor, nem como um livro de literatura comparada como quer Antonio Tabucchi, grande escritor italiano, autor de “Réquiem”. Prefiro vê-lo como um estudo de caso. Durante suas notas, o desconhecido narrador do escritor espanhol, vai formando uma galeria de autores do Não, contando suas inusitadas histórias através de uma descontraída conversa que, a cada folha, fica mais interessante. As notas transformam-se em alguns longos parágrafos, com escritores reais e outros fictícios, frutos da imaginação de Villa-Matas.  A galeria do Não é grande e tem sessões de razões pelas quais os escritores optam pela não-escrita, como de escritores que resolveram não escrever por causa de uma justificativa bizarra, como Juan Rulfo, autor de “Pedro Páramo” (e um ótimo fotógrafo como revela o livro “100 Fotografias”) que, depois de ter publicado sua obra-prima, ficou 30 anos sem escrever nada e quando perguntado por que não escrevia mais, respondia: “É que morreu meu tio Celerino, que era quem me contava as histórias” ou como o espanhol Felipe Alfau, que renunciou à escrita por causa das complicações que aprender o idioma inglês lhe trouxeram e por “ter-se tornado sensível a complexidades nas quais nunca havia reparado” ou ainda como Hofmannsthal, que preferiu não mais escrever por ter, segundo ele, perdido a capacidade  de pensar e falar coerentemente sobre alguma coisa. Há casos de escritores que eram aventureiros, como Rimbaud que escreveu apenas dois livros ainda muito jovem (aos 19 anos já tinha escrito sua obra completa) e calou-se literariamente pra sempre, morrendo com apenas 37 anos. Outro caso de bartleby por essência foi Kafka, homem tímido, de voz embargada, e que tinha mania de destruir o que escrevia (o que nos restou, ainda que incompletos na sua maioria, temos por causa de seus amigos que não permitiram que queimasse seus escritos). Existem ainda aqueles que não escrevem por se acharem um ninguém. Como, por exemplo, Pepín Bello, mente que liderou uma das gerações literárias mais geniais da Espanha no século XX, que dizia um ninguém e não escrevia por ter plena convicção disso.  Uma parte da galeria de notas é dedicada também aos bartlebys suicidas. De Quincey, autor de “Confissões de um Comedor de Ópio”, que morreu em virtude de seu vício (um suicídio lento), é um deles. Uma variante engraçada de bartleby, mesmo que ficcional, é de Paranoico Pérez, personagem criado por Antonio de la Mota Ruiz, que não escreve porque toda vez que tinha uma ideia para um romance, José Saramago escrevia e publicava primeiro. A galeria é imensa, ainda que o livro seja curto.

A literatura do Não, nas mãos de Enrique Villa-Matas, adquire ironia, leveza. As inúmeras notas relatando curiosos casos de escritores acometidos pela síndrome de bartleby são escritas num estilo bem humorado, sempre lembrando uma conversa descontraída e revelando uma fina erudição. Claro que o livro de Villa-Matas deixa alguns outros famosos bartlebys de fora. Os nossos maiores exemplares de escritores do Não encontram-se na figura de Manuel Antônio de Almeida, que publicou apenas “Memórias de um Sargento de Milícias” e se calou. Outro bartleby, e discordem o quanto quiser, foi Pio Vargas, que através das drogas se recusou a ser uma das mais espetaculares estrelas da poesia brasileira. O mais emblemático bartleby tupiniquim, pra mim, é o paulista Raduan Nassar que depois de publicar um dos mais marcantes romances da literatura contemporânea brasileira, “Lavoura Arcaica”, parou de escrever.

Esse é ainda um mistério não resolvido. Não existe uma razão pra essa recusa da escrita. Cada escritor faz a sua. Alguns largam porque isso de literatura e escrever é “fácil” demais, outros por acharem que é o contrário, e ainda outros porque querem fazer qualquer outra coisa que lhes pareça mais interessante. Não importa a razão, eles param. Como não podemos forçá-los a escrever novamente (falo dos vivos), podemos pelo menos nos deliciar com essa curiosa mania de não-escrever. E, para isso, o livro de Enrique Villa-Matas serve muito bem. Ou, quem sabe, todos estejam errados e esses escritores do Não sejam grandes escritores do silêncio, pois pode ser que Robert Walser tenha razão: “escrever que não se pode escrever também é escrever”. 

Bookmark and Share

Comentários (5)

  • Que sejam prestigiados todos que possuem esta síndrome, em detrimento de certas espécies que repetem-se à exaustão. Tenho medo de uma obra nova de um escritor que eu gosto muito. Medo de me decepcionar.

    3 semanas atrás por Karla
  • Parabéns, Ricardo Silva Oliveira! Texto muito bem escrito e instigante, que comenta um fenômeno filosófico e psicologicamente desafiador: o silêncio dos escritores. Não conhecia a tal síndrome de Bartebly... Sem querer me elevar à categoria dos escritores enumerados e comentados... Acho que sofro de alguma ansiedade de escrever que poderia, sim, talvez, não tenho certeza... Ser tal Síndrome de Bartebly. Acredito que muitos escritores se tornam autores já tarde porque levaram décadas para vencer, ainda que só provisoriamente, a síndrome de Bartebly. De toda forma.... Parabéns! Interessante texto!

    1 mês atrás por Hannibal
  • Gostei do texto Ricardo. Realmente, o livro de Villa-Matas deixa a gente cuíra!

    1 mês atrás por adriana abreu
  • Ricardão, parabéns pelo artigo. Interessante pensar em talentos que se calam, por motivos diversos. Para mim, no Brasil, o caso mais emblemático da síndrome de Bartleby é Raduan Nassar, autor do premiadíssimo Lavoura Arcaica. Nassar, que já havia sido criador de coelhos, decide recolher-se em seu sítio em São Paulo para se dedicar, segundo ele, exclusivamente à criação de galinhas. “Não há nada mais prazeroso que criar galinhas”, disse, em uma de suas últimas entrevistas, já não dá as caras há anos também na imprensa (vale lembrar que a falecida mãe de Nassar também era uma habilidosa criadora dessas aves). Em Goiás, há um escritor intrigante porque portador da síndrome de Bartleby sem ter publicado um livro. Marcelo Franco, escritor de primeira, parou de publicar antes de ter começado. Francamente... Marcelo, explique isso aí, rapaz. Seus leitores aguardam ansiosos por sua palavra. Ops, livro.

    1 mês atrás por Edmar Oliveira
  • Belo texto, Ricardo. Parabéns! Lembrou-me que o crítico Carlos Augusto Silva diz, com alguma razão, que sou um Bartleby.

    1 mês atrás por Ademir Luiz


*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2012 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio