As outras linhas de Camus
Há 50 anos morria em um acidente de carro na França o genial ensaísta, escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus (1913 — 1960). Com diversas obras consagradas, como “O Estrangeiro”, “O Mito de Sísifo”, “A Peste” e “O Homem Revoltado”, o Nobel em Literatura do ano de 1957 vivenciou experiências extremas em sua vida, como a infância pobre na Argélia, onde nasceu e a melhora de posição social e econômica na França, quando adulto. Miséria, guerras, estudos, viagens, Comunismo... Sem dúvida são muitos os fatores que ajudaram a moldar a personalidade do autor, que veio ao Brasil em 1949 e que em um diário relata suas impressões, suas ansiedades e suas decepções desta viagem. Como todo ser humano, Camus agrada, finge, interpreta, impõe-se, rende-se às pessoas e às situações. Como estrangeiro, comete erros de pronúncia, de grafia, além de incompreensões culturais. Como detentor de uma extrema inteligência e sensibilidade, ele conta, observa, confessa-se e surpreende nessa narrativa tão particular. Seu caderno pessoal foi publicado pela primeira vez em 1978, na França, pela Éditions Gallimard (“Journaux de Voyage”). No Brasil, foi lançado pela Editora Record com o título “Diário de Viagem — A Visita de Camus ao Brasil*”, e a sua terceira edição traz notas de justificativa à grafia errônea de certas palavras e esclarecimentos a alguns comentários. Devido à quantidade insuficiente de anotações para se originar um livro, a publicação também aborda uma estada nos Estados Unidos, além de uma brevíssima permanência no Uruguai, Argentina e Chile. Como os comentários sobre o Brasil ocupam um maior número de páginas, ao mesmo tempo em que o leitor irá se deparar com observações singulares de um estrangeiro em uma terra estranha, também terá a possibilidade de se encontrar com um Camus “ele-mesmo”, e não somente com o intelectual de conferências, entrevistas e palestras.
Em seu diário, o filósofo abrevia a maioria dos nomes de seus conhecidos, chamando-os basicamente pela primeira letra do principal nome e colocando um ponto logo à frente. Assim, B., por exemplo, refere-se a João Batista Barreto Leite Filho, jornalista dos Diários Associados na Europa que cobriu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).Também é comum a confusão feita com as línguas portuguesa, francesa e espanhola — ele, nativo do idioma francês e que entende o espanhol. Desta maneira, o poeta mineiro do Movimento Surrealista, Murilo Mendes, tem seu sobrenome acentuado (“Mendès”), cachaça vira “cachasa” e a cidade de Fortaleza é chamada por ele de “Fort Alesa”. Um jeito singular de se referir às pessoas e de captar nomes de regiões...
Camus, que entre os compromissos oficiais também é levado por seus anfitriões a desfrutar das cidades visitadas (Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre- sem se prender a estas capitais), raramente anota o assunto de muitas de suas conversas com figuras como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Dorival Caymmi, além de embaixadores e autoridades. Seu diário é reflexivo, e como se espera de cadernos assim, é confidencial, em que só seus pensamentos e sentimentos predominam. Se ele assiste a uma sessão de descarrego em algum morro da Baixada Fluminense, ou se acompanha procissões religiosas no estado de São Paulo ou no nordeste, se está em um bar, em um restaurante ou na estrada, o escritor deixa seus sentidos se prenderem na atmosfera do lugar, nos detalhes das situações, nas condições do tempo. Por diversos momentos comenta sobre o céu, as estrelas, a lua; ele, um romântico... Provavelmente as pessoas que o rodeiam nem sequer imaginam que o convidado tem a sua atenção presa a outros aspectos. Querem mostrar-lhe o Brasil, sua cultura, suas particularidades e neste processo, acabam levando-o até mesmo, a uma penitenciária (o que ele não compreende o porquê).
Para Camus, a cidade do Rio de Janeiro é um lugar repleto de atropelamentos em que uma multidão (de “bárbaros”) apenas olha o moribundo, sem socorrê-lo. Define o Brasil como um “país em que as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextricável torna-se disforme; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. (...) É o país da indiferença e da exaltação.” E prossegue: “(...) Não adianta o arranha-céu, ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer.”
Albert Camus, que ficou no Brasil entre os meses de julho a agosto do ano de 1949, traz no seu interior pontos de insatisfações, de cansaços de certas situações repetitivas; é um ser com uma grande bagagem de conhecimento acadêmico e pessoal em um mundo pós-guerra, em um país pós Estado Novo, que até aquele momento, ainda tinha um histórico pequeno como República Federativa. É com este olhar que ele vê o Brasil e o sente. É desta forma que ele se fecha em si, observa e depois, divide-se no Camus romancista, ensaísta, dramaturgo, filósofo e gente. Deixa o país juntamente com duas companhias desagradáveis: a tuberculose (diagnosticada posteriormente) e a companhia de um colega brasileiro (um médico anônimo) que em nada conquistou a simpatia do ilustre intelectual. Camus lamenta-se.
* “Diário de Viagem — A Visita de Camus ao Brasil”, de Albert Camus. Tradução de Valerie Rumjanek Chave. Ed Record, 3° edição. Rio de Janeiro/ Éditions Gallimard, 1978.





