Amuleto, de Roberto Bolaño
Não é de espantar que o Brasil tenha descoberto Roberto Bolaño com quase dez anos de atraso em relação ao resto do mundo. Espantoso é que tenha descoberto.
Ao menos dessa vez, o mercado editorial tupiniquim acompanhou o prestígio crescente do escritor chileno — especialmente o entusiasmo europeu e norte-americano —, providenciando traduções de quase todas suas obras disponíveis. O trabalho, muito bem feito, está todo a cargo de Eduardo Brandão, que tem se revelado competente na tarefa.
Lançado recentemente no país, “Amuleto” é um desdobramento de uma história presente em “Os Detetives Selvagens”, prêmio Rômulo Galegos de 1998 e uma das pedras basilares da complexa e multifacetada obra de Roberto Bolaño.
Nesse romance, dois jovens poetas saem à caça de Cesárea Tinarejo, uma escritora desaparecida no deserto mexicano de Sonora. O livro é composto pelo diário de Garcia Madero, além de dezenas de depoimentos de coadjuvantes, dando vazão à criatividade e à originalidade de Bolaño no que se refere à sua capacidade prodigiosa de juntar imaginação e realidade em um relato qualificado por ele como uma carta de amor à sua geração.
Um dos episódios se refere a Auxilio Lacouture, que estava no banheiro da Universidade Nacional Autônoma do México durante a invasão militar em setembro de 1968. Se em “Os Detetives”, a história já revela sua tensão, é em “Amuleto” que ela atinge a carga máxima. Narrado pela própria Auxilio, o refúgio-cativeiro no banheiro ficará inscrito na lembrança e na alma da poeta uruguaia:
“A noite escura da alma avança pelas ruas do DF, varrendo-o todo. Já mal se escutam as canções, aqui, onde antes tudo era uma canção. A nuvem de poeira pulveriza tudo. Primeiro os poetas, depois os amores e depois, quando parece que está saciada e que se perde, a nuvem se volta e se instala no ponto mais alto da sua cidade ou da sua mente e diz a você com gestos misteriosos que não pensa sair dali”.
”Amuleto” expande o episódio graças ao milagre da memória: os dias de privação, terror e resistência servem para que Auxilio, “a mãe de todos os poetas mexicanos”, como se autodenomina, recorde acontecimentos de sua atribulada vida.
“Resista, Auxilio”. Esse era seu único pensamento. Faz lembrar o verso do poeta alemão Rainer Maria Rilke: “Quem fala de vitórias? Suportar é tudo”. Auxilio resiste à fome e à solidão, tendo por companhia, um livro de poemas. A poesia aparece na hora mais improvável como a única mão em que se agarrar. Em que pese a idade de Auxilio, e apesar de ser uma “testemunha do tempo seco”, o episódio do banheiro não lhe dá sabedoria: ela está tão perdida, tão inocente, tão insegura quanto seus filhos, os poetas mexicanos.
A História é vista, por Auxilio Lacouture, como “um conto curto de terror”. A certa altura, perguntam a ela: pode imaginar? Posso imaginar qualquer coisa, responde ela. “Não consigo esquecer nada. Dizem que esse é o meu problema”. Memória encarnada da História, Auxilio é representante de um século no qual todos os horrores são possíveis: a câmara de gás e a bomba atômica saíram diretamente da imaginação humana para a realidade, da realidade para a História, desta para a memória e da memória para a eternidade.
A juventude tem a visão embaçada pelos ideais de revolução e principalmente pela inexperiência. Na tentativa urgente de cumprir a utopia, o sonho choca-se com a realidade, o que conduz ao fracasso, destino de toda geração, segundo Bolaño: basta existir para fracassar. A escrita de Bolaño não é nada menos do que o testemunho, pungente, desse fracasso.





