A vingança de Roberto Marinho contra Adolpho Bloch
Quebrado, Adolpho Bloch saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta"
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A vingança é um prato que, às vezes, se come frio. No governo de Leonel Brizola, a Manchete conquistou o direito de transmitir ao vivo, com exclusividade, os desfiles das escolas de samba em 1984. "Roberto Marinho telefonou várias vezes para Adolpho [Bloch], em busca de uma solução compartilhada." Conluiado com Brizola, o empresário não atendeu el rei. A TV de Adolpho Bloch obteve altos índices de audiência e faturou muito dinheiro. "Era a primeira e inédita derrota de Marinho", diz o jornalista Arnaldo Bloch. Anos depois, quebrado, Adolpho saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta". A história está relatada no excelente "Os Irmãos Karamabloch — Ascensão e Queda de um Império Familiar" (Companhia das Letras, 339 páginas), do jornalista Arnaldo Bloch, colunista de "O Globo".
Quando Adolpho pôs a Manchete no ar, em 1983, conquistou até mesmo o apoio de Roberto Marinho, depois de garantir ao rei: "Que é isso, doutor Roberto. Novela não é coisa pra mim". Marinho enviou até Boni para ajudar a montar a tevê.
Quem espera uma biografia da família Bloch, detalhada e cronológica, deve desistir da leitura. Mas quem gosta de boas histórias sobre uma família de realizadores, complicados e ousados, está diante de um livro que relata bastidores deliciosos. Diferentemente da biografia de Roberto Marinho escrita pelo jornalista Pedro Bial, o texto de Bloch não preserva a família nem edulcora suas histórias. É um retrato simpático, mas nu e cru (conta até a história do avô, Arnaldo, que morreu transando com a amante). Bóris, Arnaldo e Adolpho brigavam muito, daí o jornalista Otto Lara Resende, empregado de Adolpho, ter chamado o três de "irmãos Karamabloch". "Os Bloch eram um só torvelinho: uma família solidamente unida pela desunião", disse Otto.
Adolpho ficou famoso por ter criado a revista "Manchete", que, durante certo momento, superou a famosa "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, o Chatô. Depois, começou a fazer água e o empresário, eternamente endividado, tentou vendê-la para Roberto Marinho e Samuel Wainer. A saída? A contratação do jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr Fernandes e pai do atual editor-chefe de "O Globo", Rodolfo Fernandes. Hélio impôs uma condição: "Quero total independência na linha editorial". "Mas não posso nem palpitar?", perguntou Adolpho. "Não. Só vai ver a revista depois de impressa." Deu certo: a revista voltou a crescer e a dar lucro. Tinha colaboradores como Fernando Sabino, Rubem Braga, Antônio Maria, Leon Eliachar, Ibrahim Sued e Carlinhos de Oliveira.
Apesar do sucesso, a empresa estava sempre descapitalizada, mas Adolpho era craque na arte de explorar os atentíssimos bancos. Relata Arnaldo: "E, na arte de tirar dinheiro de pedra, ele era o rei. Criou um notável sistema de compensação de cheques, geralmente envolvendo o Banco do Brasil e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, na Praça da Bandeira. A coisa funcionava mais ou menos assim: depositava o cheque descoberto do Crédito Real no caixa do Banco do Brasil; fazia o saque, na confiança, com o gerente, que segurava o cheque até ele cobrir o saldo; cobria o saldo no Crédito Real com um outro cheque, este do Banco do Banco do Brasil, contando com a paciência do respectivo gerente; voltava ao Banco do Brasil e começava tudo de novo". Daria, como se vê, um puta financista.
Um dia, com as torneiras fechadas pelos banqueiros, Adolpho atacou o caixa do boteco do Joaquim. "Você está rico, Joaquim. Eu estou morrendo." "Morrendo de quê? O senhor está até corado!" "Me dá!" "Não dou, seu Adolpho!" "Você não era nada, eu te salvei, te dei freguesia!" "Com todo o respeito, isso não lhe dá o direito de dispor do meu caixa!" "Me dá!" O relato de Arnaldo: "Num acesso, passou pela portinhola sob o balcão, invadiu a tasca, tirou o Joaquim do caminho e avançou sobre o caixa". A caminho do banco, Adolpho gritou: "Joaquim, você é um santo. Deus vai te pagar. E ieu [como dizia eu] também".
Noutra ocasião, em Roma, Adolpho encontrou o poeta Paulo Mendes Campos e disse: "Amanhã vamos ver o homem." "Que homem?", perguntou Paulo. "Na janela. Ele aparece todo dia." "Adolpho, você é judeu e eu sou poeta!" "Judeu, poeta, todo mundo tem que ver o papa."
Foram ver o papa Pio XII. "Quando o velhinho deu as caras e o povo o saudou, Paulo, que cochilava em pé, acordou assustado. A seu lado, Adolpho, de braços esticados, brandia, na direção da janela papal, um grosso maço de papel." Paulo inquiriu: "Que merda é essa, Adolpho?" "Depois eu explico." Só foi explicar um mês depois. Adolpho convocou Paulo e passou a conversar, por telefone, com o banqueiro Magalhães Pinto, do Banco Nacional. "Magalhães? Espera um minutinho que o poeta Paulo Mendes Campos vai falar." E recomendou ao poeta: "Diz pra ele, Paulinho, quem abençoou as duplicatas". "Foi o papa", disse o escritor. "Meia hora depois o portador do banqueiro veio buscar os papéis que ele endossou, pessoalmente, um a um", conta Arnaldo.
O poeta Ferreira Gullar era revisor da "Manchete" e Otto Lara Resende convocou-o para militar na redação. "Não pode, iele [ele] é revisor", barrou Adolpho. Lara Resende insistiu: "Adolpho, este revisor é um dos maiores poetas brasileiros, em nascedouro!" O empresário contra-atacou: "Mas é revisor". Certo dia, com Rubem Braga de porre, Gullar escreveu sua crônica. "Otto, adorei a última crônica do Rubem", disse Adolpho. "Pois saiba, Adolpho, que esta crônica do Braga na verdade foi escrita pelo revisor Ferreira Gullar."
O jornalista e político Carlos Lacerda atacava Samuel Wainer e também o judeu Arnaldo Bloch. Mas as irmãs de Adolpho adoravam o udenista. "Eu não voto no senhor, mas elas sim", confidenciou Adolpho. Mina, uma das irmãs de Adolpho, "passava horas assistindo aos discursos na tevê. O sobrinho Leonardo implicava. Punha-se na frente da televisão, checava se havia alguém por perto e mostrava o peru". "Olha o Lacerdaaaa!".
Depois do golpe civil-militar de 1964, "numa recepção para militares cinco estrelas para a qual alguns homens de imprensa são convidados, Adolpho conversa com Manuel Francisco do Nascimento Britto, do ´Jornal do Brasil´. Diz-lhe: ´Ieles [eles] não vão sair cedo de Brasília.´´Como é que você pode ter certeza, Adolpho?´´Olha a alegria das mulheres dos generais. Você tem alguma dúvida?´"
Leal ao senador Juscelino Kubitschek, que teve seus direitos políticos cassados, Adolpho foi, segundo Arnaldo, a "voz fundamental a convencê-lo a partir para o auto-exílio". Chegou a arriscar "a pele para ajudá-lo". "´Tem judeu afrontando a Revolução´, mandaria dizer dona Yolanda Costa e Silva, instalada no camarote vizinho ao de Adolpho, no Carnaval do Municipal, em 1965, quando o público cantou em peso o ´Peixe Vivo´e o russo acompanhou. O tumulto foi tal que, na saída, a primeira-dama levou até mão na bunda da irreverência popular. Leal ao cliente e contumaz descontador de duplicatas, o golpista Magalhães Pinto procuraria Adolpho para avisar que estavam querendo prendê-lo. Um militar da altíssima, cruzando no calçadão da Atlântica com um sobrinho do editor, exaltaria a coragem do homem: ´Você não é sobrinho do Bloch? Pois vou dizer: ele tem colhão´". Naturalmente, apesar da proteção a JK, Adolpho não fez oposição à ditadura. Pelo contrário, pragmático, integrou-se à tese do "Brasil potência".
Em 1976, JK disse ao amigo: "Quer saber, Adolpho? Bateu saudade da Maria Lúcia [Pedrosa, amante do mineirinho]. Vou de carro para o Rio". "Não faz isso, presidente. Vai de avião", sugeriu o dono da "Manchete". Morto o presidente bossa nova, Carlos Lacerda visita Adolpho e, aos soluços, o abraça. "´Ele era realmente um grande estadista´, lamentou, em lágrimas de crocodilo", escreve Arnaldo.
A hora da novela — Chatô e Roberto Marinho foram decisivos para a consolidação da televisão brasileira. Mas Adolpho também deu sua contribuição. A Manchete, pelo menos no início, talvez tenha sido a primeira televisão intelectualizada do país. O "Jornal da Manchete" teria chegado a influenciar até mesmo o jornalismo da Globo. Era mais penetrante. Mas Adolpho rompeu o trato com o doutor Roberto: "Agora ieu [eu] quero novela".
Não há dúvida de que a Globo é responsável pelas melhores novelas do país. Mas a Manchete foi a tevê que mais chegou perto do padrão globo de qualidade, eventualmente, superando-o. Como Adolpho queria novela, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony assumiu o comando do núcleo de teledramaturgia. A minissérie "Marquesa", sobre a marquesa de Santos, estrelada pela bela Maitê Proença e por Gracindo Jr., alcançou sete pontos de audiência.
A primeira novela foi "Dona Beija", com texto de Walter Aguiar Filho e direção de Herval Rossano. Com Maitê e Gracindo, a novela fez sucesso. "Chegou a bater, numa noite boa, o especial de Chico e Caetano, na Globo. O prestígio crescia, assim como as dívidas. No governo Sarney, chegou a 30 milhões de dólares. Desorganizado, Adolpho foi roubado por funcionários espertos.
Mais tarde, com a dívida se aproximando dos 100 milhões de dólares, a Manchete, ou seja, Adolpho, investiu mais dinheiro numa grande produção, "Kananga do Japão", com roteiro de Cony, texto de Wilson Aguiar Filho, direção de Tizuka Yamasazi (Arnaldo escreve "Yamakazi") e estrelas do porte de Tônia Carrero, Sérgio Brito, Cláudio Marzo, Julia Lemmertz, Christiane Torloni.
Para tentar encher os cofres, Adolpho contratou José Wilker para a dramaturgia, ou seja, mais novelas. Ele articulou "Corpo Santo", "Helena", "Carmen" e "A Rainha da Vida".
O grande lance de Adolpho foi mesmo a novela "Pantanal", de Benedito Ruy Barbosa, direção de Jayme Monjardim e estrelada pela atriz Cristiana de Oliveira. Manchete gastou 10 milhões de dólares em sua produção. "O que não se esperava era que, já nos primeiros capítulos, ´Pantanal´marcasse 40 por cento de audiência, superando em dobro os picos de novelas anteriores, e batendo a Globo de goleada. (...) Com uma audiência daquelas, a Globo tinha que reagir. Passou a atrasar ´Rainha da Sucata´em uma hora, para fazer frente. Não adiantou: se a audiência ficou mais dividida, a surra de ´Pantanal´era diária, e duraria os dez meses sucessivos em que esteve no ar. Um massacre. Feito considerado impossível desde sempre e até o fim dos tempos. E que de tal forma marcaria a história da televisão brasileira que, desde essa época, a tradicional novela das oito da Globo começa às nove", escreve Arnaldo, com uma pontinha de prazer e orgulho.
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"Pantanal" deu dinheiro, "mas", diz Arnaldo, "ficou um gostinho de que poderia ter sido uma enxurrada: como a tabela de publicidade fora calculada para uma audiência trinta pontos menor, os anunciantes faziam fila para anunciar por aquele precinho. Para tentar compensar o prejuízo relativo, Benedito Ruy Barbosa era obrigado a alongar os capítulos, e as seqüências de paisagens e de receitas caseiras começaram a tomar conta da trama. Sem, contudo, afetar a audiência".
Outra jogada acertada da Manchete foi o lançamento da modelo e manequim Xuxa Meneghel, que, com aquele jeito de menina-menino, encantou as crianças e mesmo os adultos como apresentadora do "Clube da Criança".
Depois de "Pantanal", mesmo com outras novelas, como "Ana Raio e Zé Trovão" e "Amazônia", a Manchete afundou.
No início da década de 1990, por conta de papagaios impagáveis, Adolpho decide vender a Manchete. O senador pelo Distrito Federal Paulo Octávio, hoje no DEM, um dos mais empedernidos colloridos, entra no páreo para comprá-la. A entrevista de Pedro Collor à revista "Veja", denunciando "o esquema de corrupção" supostamente "capitaneado" pelo presidente da República, detonou a venda da Manchete. Adolpho decidiu negociá-la com o grupo que dirigia o Instituto Brasileiro de Formulários (IBF), do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, ligado a PC Farias. O impeachment de Collor derrubou o negócio. Em 2000 Jaquito, o herdeiro de Adolpho, "assinou a falência de Bloch Editores". Era o fim.
Uma prova de que os poderosos tratam a imprensa, sobretudo a que está caindo, com o maior desrespeito está na descrição do encontro de Adolpho e o presidente Fernando Collor. O empresário diz: "Presidente, eu estou no fim". Collor é seco: "O senhor está no fim e eu estou no começo. Com licença". Os dois estavam no fim, a diferença é que Bloch sabia e Collor, não.
Há dois errinhos no livro. Arnaldo chama Paulo Octávio de "Otávio" e diz que Paraíso do Norte fica no Tocantins. Quando era Paraíso do Norte, a cidade ficava em Goiás, mas, com a fundação do novo Estado, passou a ser chamada de Paraíso do Tocantins, e não fica no Norte do Estado. Arnaldo conta que Adolpho e Hélio Wrobel criaram a fazenda Bloch-Wrobel na terra do governador Marcelo Miranda.
De resto, uma conclusão óbvia: não se faz mídia no Brasil, em São Paulo, locomotiva do País, ou em Goiás, sem recursos públicos.







