A biblioteca de Hitler
Hitler leu pouco dos clássicos e não se interessava por literatura de qualidade. Não gostava de romances. Tinha grande interesse por textos antissemitas. Leu “O Judeu Internacional”, de Henry Ford, e “A Amoralidade no Talmud”. Era apaixonado por enciclopédias e almanaques — “dos quais podia extrair, para impressionar, muita informação em pouco tempo” — e livros de ocultismo

“A Biblioteca Privada de Hitler — Os Livros Que Moldaram Sua Vida” (inédito no Brasil), de Timothy W. Ryback, recebeu longo comentário de Jacinto Antón, do “El País”, na segunda-feira, 16.
Hitler, diz Antón, queimava livros, mas também os lia. “Sua relação com os livros, inclusive com os que não queimava, não era amável.” O líder nazista disse que “ler não é um fim em si mesmo, e sim um meio para um fim”. Era um leitor compulsivo, mas não lia por prazer. “Tomo dos livros o que necessito”, afirmou. “Claro que ler muito não significa ler bem. Suas leituras foram assistemáticas”, anota Ian Kershaw, autor de uma monumental biografia do exterminador de judeus, ciganos e esquerdistas e grande (sim, apesar de tudo) estrategista político-militar. “Ler não era algo que fazia para ilustrar-se ou para aprender, e sim para confirmar suas opiniões.”
Hitler leu pouco dos clássicos e não se interessava por literatura de qualidade. Não gostava de romances. Tinha grande interesse por textos antissemitas. Leu “O Judeu Internacional”, de Henry Ford, e “A Amoralidade no Talmud”. Era apaixonado por enciclopédias e almanaques — “dos quais podia extrair, para impressionar, muita informação em pouco tempo” — e livros de ocultismo. Entre seus livros foi encontrada a obra “A Arte de se Tornar Orador em Poucas Horas”.
O líder nazista lia, com interesse, os relatos do explorador Sven Hedin e as histórias do Oeste americano de Karl May. Falava aos seus generais da habilidade tática do herói apache do livro de May. Hitler conservou na sua biblioteca um manual de 1931 sobre gás venenoso, “com um capítulo dedicado aos efeitos do ácido prússico, comercializado como Zy-klon B”. Deve ser ter sido o ponto de partida para as câmaras de gás.
A biblioteca de Hitler tinha 16 mil volumes e vários livros não foram lidos nem suas páginas manuseadas. 1.200 volumes estão na Biblioteca do Congresso em Washington, outra parte está na Universidade Brown, em Providence, e vários livros foram levados para a Rússia.
Ryback, ao vasculhar um livro, encontrou um fio de bigode, possivelmente do führer. O autor diz que Hitler lia vorazmente, às vezes um livro por noite. Dava broncas na sua mulher Eva Braun quando interrompia suas leituras.
Não havia livros pornográficos na biblioteca de Hitler. Rybach só encontrou um livro sobre teatro espanhol “com desenhos e fotografias obscenas”.
No retiro alpino do Berghof, Hitler tinha as obras completas de Shakespeare “e parece que não leu só ‘O Mercador de Veneza’, pois fazia citações de ‘Hamlet’ e, sobretudo, de ‘Júlio César’”.

A Biblioteca Privada de Hitler, de Timothy W. Ryback
Qual o livro que Hitler lia quando se matou, no bunker de Berlim? Ryback constata que a fotografia do livro não permite a identificação do título, mas descobriu que os livros que acompanhavam o nazista, nos últimos dias, eram uma história da suástica, um ensaio sobre “Parsifal” e outro sobre as profecias de Nostradamus.
Na biblioteca, Ryback encontrou exemplares de “Peer Gynt” (presente de seu mentor Dietrich Eckart), do dramaturgo norueguês Ibsen, e “Feuer und Blunt”, de Ernst Jünger. O volume tem a dedicatória de Jünger para o nazista: “Ao führer nacional Adolf Hitler”. Hitler sublinhou trechos do livro.
Ao contrário do que fazia acreditar, Hitler “leu pouca coisa de Nietzsche, Schopenhauer (cujo nome escrevia errado) e Fitchte”. O que Hitler lia mesmo, com fervor, eram obras racistas, livros de ocultismo e de pseudociência, como “Magia: História e Prática”, de Ernst Schretel”. Este livro foi profusamente sublinhado. Entre os livros militares lidos por Hitler, Ryback destaca uma biografia de Schlleffen, “o gênio prussiano”. “É curioso que Hitler tenha grifado as considerações táticas sobre os perigos de a Alemanha lutar em duas frentes”, mas acabou por lutar contra Inglaterra e União Soviética, dispersando forças e permitindo que o país dirigido por Winston Churchill recuperasse energias e pudesse esperar pela ajuda dos Estados Unidos. Hitler leu várias obras sobre Frederico, o Grande, “especialmente a biografia de Carlyle”. “Mein Kampf” (“Minha Luta”) era para ter um título maior, e mais difícil de guardar: “Quatro Anos e Meio de Batalha Contra as Mentiras, a Estupidez e a Covardia”.
Documento diz que Hitler não tinha tendências homossexuais
O jornal inglês “Times” revelou na quarta-feira, 18, um informe secreto (será leiloado em março), achado num domicílio particular, de um tenente-coronel alemão que, antes de ser detido pelos aliados, “passou várias meses de 1943” no quartel general de Adolf Hitler, em Rastenburg, Prússia Oriental. “O ditador alemão mostrava maus modos à mesa, roía as unhas e enfiava o dedo no nariz.”
Os maus modos não têm tanto interesse assim, mesmo porque, como admite o tenente-coronel, Hitler dava pouca importância à comida e, à mesa, prestava mais atenção nas conversas dos militares ou civis. Ele “comia rápida e mecanicamente”. Hitler, segundo o oficial alemão — “El País” não informa seu nome —, “só comia verduras e fruta [o jornal diz “fervida”], bebia uma ou duas cervejas e proibia os oficiais de fumar em sua presença e devorava as sobremesas, o que contribuía para seus transtornos digestivos”.
O líder nazista ficava muito irritado quando algum oficial falava em retirada militar. Chegou a ameaçar de fuzilamento um oficial.
Nas conversas íntimas, Hitler dizia que não se casara “porque não queria que a preocupação com uma família atrapalhasse seu compromisso com a nação alemã”. O tenente-coronel garante que o líder nazista mantinha relacionamentos não-platônicos com mulheres. O oficial sustenta que, apesar dos rumores, Hitler não tinha tendências homossexuais.















