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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:26 PM

A Babel de Luiz Ruffato

publicado em

A arte pós-moderna é bem diferente da arte anterior, digo, daquela arte praticada na primeira metade do século XX. Um dos traços marcantes do modernismo foi a política de grupo, os grandes “movimentos” estéticos – futurismo, expressionismo, surrealismo etc – tendo por conseqüência a publicação de inúmeros manifestos e revistas. De certa forma, nem Dada, a vertente mais anárquica daquele período, escapou a essa tendência: teria três grupos dispersos pela Europa – Zurique, Paris e Berlin - e um possível manifesto, escrito tardiamente por Tristan Tzara, em 1918. Ainda assim, é o que mais se assemelha em espírito e atitudes ao que assistimos hoje. Uma ponte, talvez.
 
De lá para cá houve uma mudança radical e não se ouve mais falar em grupos organizados e idéias pré-concebidas e escritas: o que parece contar, na cena atual, é a experiência solitária do indivíduo, independentemente de sociabilidades e projetos coletivos. A propósito: se essa arte é um reflexo da realidade contemporânea, vivemos então numa época absolutamente triste e indesejável. Solidão e individualismo parecem ser as marcas cruéis da realidade presente. O que prevalece é o fragmento e, de modo bastante irônico, a incomunicabilidade, o que explicaria uma forte tendência para o monólogo. O que vale é a verdade de cada um, logo as formas inusitadas: tudo serve de matéria e de suporte.
 
Assim como nas artes plásticas – cujas “esquisitices” ainda causam escândalos em muita gente -, na literatura brasileira da última geração temos um bom exemplo desse processo dispersivo na obra de Luiz Ruffato, jovem mineiro autor do estranho Eles eram muitos cavalos, lançado em 2001 . Não se trata, obviamente, de romance, de novela, de conto ou poema – tudo o que sabemos é que combina prosa e poesia, mas não se enquadra em nenhum gênero conhecido particular. Não é original por isso, mas explora até o paroxismo essa indefinição, razão pela qual é um daqueles livros que põem em xeque a validade desse tipo de classificação que - verdade seja dita - atende muito mais aos interesses da crítica do que da literatura strictu sensu . A crítica literária não escapa às vicissitudes da classificação, método científico universal, muito embora sejamos tendente a encarar boa parte de suas análises como performance ficcional. Posso estar redondamente equivocado, mas sou daqueles que, não raro, desconfiam dos foros de veracidade dos exegetas (opinião de um leigo curioso).
 
Eles eram muitos cavalos é isso - uma mistura de cartas, anúncios eróticos e de emprego, simpatias, poemas em prosa, diálogos, monólogos e até Oração a São Expedito! São na maioria relatos e depoimentos, resultando numa mistura de comédia e lirismo: o trágico, aqui, é patético e sem grandezas. Às vezes quem fala é a primeira pessoa, outras vezes o texto é inteiramente impessoal: o autor simplesmente transcreve um diploma da Igreja do Evangelho Triangular, por exemplo. Não tem começo nem fim, tampouco enredo, e podemos começar a lê-lo na página em que o abrimos, para frente ou para trás, tanto faz. Ruffato é um experimentador nato: explora diversas fontes tipográficas e chega a usar, inclusive, duas páginas em preto (apropriação de uma técnica usada pelo concretismo). A linguagem é crua e de um realismo visceral: vale-se de gírias, expressões erradas e neologismos como bundar , zoação, pruquê, cunhadaria , alaridar , lhufas, apê, arvinha, trampar, minas, corajar, bonachonamente etc. Os “heróis” e “heroínas” do livro são freqüentemente buscados na classe média decadente dos grandes centros urbanos (aqui, São Paulo), outras vezes no meio da ralé. Gente como a gente, aos montes e fugazes, consumidos pelo turbilhão de vozes que é o livro.
 
Um exemplo dessa escrita fragmentária ( 25. Pelo telefone ): “Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal”.
 
Agora deu pra mijar no chão... Não aquela gotinha no assento do vaso, não... que isso é até normal... Mas uma pocinha no chão... como se... como se o jato não tivesse mais força, entende?, como se o jato não tivesse mais força...
 
Eis a suposta esposa traída queimando o filme do marido para a amante “desgraçada!”. É apenas um exemplo da série vertiginosa de 69 lampejos de afetos, desejos e frustrações de ninguém porque de todo mundo, instantâneos das carências, da desagregação e da violência nas grandes cidades. Aos desavisados e tradicionalistas Eles eram muitos cavalos parecerá uma porra-louquice, mas não aos leitores de vanguarda: Ruffato tem sentido, densidade e dialoga com a realidade.
 
A conclusão é um truísmo necessário: um dos deveres dos amantes da literatura – particularmente dos que estão interessados em escrever - é ler autores contemporâneos seus. Se o clássico é vital, o contemporâneo não deixa de ser essencial: assim como não se escreve com profundidade ignorando a tradição, tampouco se escreve com interesse para o leitor presente sem que o mesmo reconheça, ali, o seu mundo particular.
 
A quem possa interessar, Luiz Ruffato é uma boa pedida.
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