Quem vigia os vigilantes?
Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes. “Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super”

Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Assim, se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados e como serão os quadrinhos do futuro, quando finalmente resolvermos não gastar mais papel com estes “graphic novels”, isto é, romances em quadrinhos criados pelo mestre no gênero Will Eisner. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes.
“Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super”. Assim, o aclamado roteirista dos gibis, Alan Moore, pode ver uma de suas histórias finalmente bem contada, depois das péssimas adaptações da “Liga Extraordinária”, “Constantine” e “V de Vingança” (Moore pediu até pra sair dos créditos deste último que distorcia sua mensagem). Não por coincidência, estas adaptações tiveram roteiros que não seguiram o original e, por isto, umas mais outras menos, fracassaram.
Não é o caso de “Watchmen”, que é fiel a história de Moore. Pano de fundo: EUA, 1985. Os americanos estão próximos de eleger pela terceira vez Richard Nixon como presidente, já que a vitória do Tio Sam no Vietnã foi avassaladora, graças ao super-herói Dr. Manhattan, um físico que sofreu um acidente nuclear, mas tendo reaparecido em forma de, digamos, “energia pura”, vira uma arma poderosa contra os inimigos. Por seu grande poder, ele é acusado de ter fomentado a corrida armamentista nuclear e por este motivo, a grande potência ocidental está muito próxima a uma guerra nuclear fatal contra a URSS.
Mas Dr. Manhattan é uma exceção, pois os outros vigilantes são demasiados humanos, aposentados-saudosistas ou agindo nas sombras já que foram postos na ilegalidade pelo próprio Nixon, afinal “Quem vigia os vigilantes?” (frase atribuída ao antigo poeta romano Juvenal). Aliás, colocar os “super” na ilegalidade também foi um expediente usado por Frank Miller no famoso “Batman - o Cavaleiro das Trevas”. Neste clássico dos quadrinhos, a Liga da Justiça é acusada pela Associação de Pais e Mestres de dar mau exemplo as crianças já que batem e matam os bandidos, ao que Batman teria respondido as gargalhadas: “Claro que matamos. É nosso serviço!”.
Mas aqui estamos falando de Watchmen que se passa num universo, onde Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha não existem (pra quem não sabe os quadrinhos funcionam assim. Mundos paralelos que apenas algumas vezes se cruzam).
Nas tocantes histórias paralelas de “Watchmen”, vale destacar as viagens no tempo do Dr. Manhattan, cuja narrativa é poética: “É março de 1959. Sou fotografado com Janey num parque de diversões/ É 1985. Estou em Marte com a fotografia nas mãos/ Em 15 segundos ela estará no chão marciano/ É agosto de 1959. A luz dos canhões de partículas me faz em pedaços/ 5 segundos para foto cair das minhas mãos/ É novembro de 1959. De alguma forma sou reestruturado /A foto no chão./ Tudo que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”.
O filme começa com o assassinato do Comediante, um super-herói mercenário que também lutou e assassinou no Vietnã. Por causa disto, o sombrio Rorschach (outro vigilante) desconfia que alguém possa estar querendo se livrar de todos os ex-companheiros. No túmulo do Comediante recém assassinado, Rorschach (o nome vem daquelas cartas com manchas usadas por psicólogos para entender a mente do paciente) conta uma piada ao seu estilo: “Um homem vai ao médico e se diz deprimido. O doutor receita-lhe ir ver o grande palhaço Pagliacci que está na cidade, ao que o homem responde: Mas eu sou o Pagliacci!”.
O ponto alto do filme é o discurso do Dr. Manhattan a Laurie, quando ela, chorando lhe convence da beleza da vida: “Milagres termodinâmicos...eventos improváveis...eu anseio por observar algo assim/ e no entanto em cada par humano, milhões de espermatozóides avançam rumo a um só óvulo/ Multiplique as possibilidades por incontáveis gerações. Junte à chance de seus ancestrais estarem vivos; de se encontrarem; de conceberem esse preciso filho, você: o pináculo do improvável/...mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto destes milagres que nos esquecemos deles...”.
Clichês?
É 16 de março. Aperto botões numa máquina / 17 de março. Alguém lê o que escrevi/ 11 de março. Me emociono no enterro do Comediante, mas que, infelizmente, é menos triste que a piada de Rorschach / 19 de março. Semana de calor. Difícil perceber o milagre da vida. / Tudo que vemos no espelho, é conseqüência de um big-bang e de um universo em expansão/ Pra que ansiar pelo improvável, se nós somos o resultado dele?














