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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:49 PM

Poderoso Chefão negro

publicado em

Denzel Washington, Russel Crowe e Ridley Scott criam um novo clássico do gênero 

A ascensão e queda de Frank Lucas, poderoso chefão negro do crime organizado em Nova York, rendeu mais um belo trabalho do diretor Ridley Scott, em “O Gângster” (2007), disponível em DVD. O filme que Hollywood estava devendo sobre a máfia dos afros-descendentes.

O roteiro narra duas histórias paralelas, que só convergem quando o drama atinge o ponto culminante. É que a história de Frank Lucas, vivido brilhantemente por Denzel Washington, é indissociável da de Richie Roberts, interpretado com agudeza por Russell Crowe, o brioso detetive que conseguiu colocar o mafioso atrás das grades.

Depois da morte do chefão Bumpy Johnson, em 1968, Frank Lucas resolve assumir a vaga do patrão, antes que outro aventureiro o faça. Johnson era bom observador e notara que o mundo à sua volta havia mudado. Sua experiência como intermediário da máfia italiana o leva a observar que o pequeno comércio foi substituído por lojas de grandes redes. Em conseqüência, as compras do comércio passaram a ser feitas diretamente dos fabricantes, em detrimento dos intermediários.

Atuando como motorista e guarda-costas de Johnson, Lucas aprendeu com ele tudo que interessa para ser bem-sucedido. E, mais que ocupar sua vaga, decide também ser o cabeça do negócio e adquirir a heroína diretamente dos produtores, no sudeste da Ásia, recorrendo a pessoal e aviões militares envolvidos na Guerra do Vietnã. Isto numa época em que a guerra estava no ápice.

Uma notícia sobre a disseminação do uso de drogas entre as tropas norte-americanas no Vietnã desperta a atenção de Lucas para a facilidade de se conseguir heroína de alta pureza e a baixo custo, no chamado Triângulo Dourado, região situada na confluência de Mianmar, Laos, Tailândia e Vietnã. A notícia vem a calhar, porque ele tem um conhecido que, além de sargento do Exército, é dono de um bar na zona da guerra.

Como distribuidor de heroína com a maior pureza, considerada duas vezes melhor que a existente no mercado, e pela metade do preço da concorrência, Lucas se torna a mais importante figura do crime em Nova York. Até mesmo os mafiosos italianos passam a traficar para ele.

A despeito de sua importância, ele consegue passar despercebido da polícia graças a alguns fatores. Primeiro, porque aprendeu a se vestir com discrição, para não dar bandeira. “Quem atrai a atenção em um lugar é o mais fraco do lugar”, diz ele ao irmão que se veste de modo espalhafatoso. Segundo, a polícia não esperava que um negro fosse capaz de tamanha ousadia, a ponto de importar a droga diretamente da fonte, o que nem os italianos faziam.

Frank Lucas também aprendeu com o seu patrão tudo sobre o funcionamento da máfia italiana. Por isso, ele convoca os parentes e monta um esquema de distribuição no qual seus irmãos ocupam pontos estratégicos, com negócios de fachada, para encobrir e lavar o dinheiro da venda da droga. Seu modus operandi não difere em nada do de uma família siciliana.

Para enfrentar um criminoso desse jaez só mesmo um policial dotado de excepcional inteligência, desses de que o cinema é pródigo. Certo? Nonada. Richie Roberts é tímido e até um tanto atrapalhado. Além de enfrentar problemas na vida particular, é malvisto pelos colegas, por ter entregado aos superiores uma bolada que encontrou de quase um milhão de dólares; tira que entrega dinheiro ilegal achado pode entregar também policiais que recebem suborno. A seu favor contam apenas a incorruptibilidade e o empenho em cumprir sua missão.

Sua investigação também é favorecida por lances casuais, como o deslize cometido por Frank Lucas. Embora saiba que precisa evitar roupas chamativas, ele vacila e usa um vistoso casaco de chinchila para ir ao Madison Square Garden assistir à “luta do século”, entre Joe Frazier e Muhammad Ali. É o suficiente para atrair a atenção de Roberts.

Como era de se prever, o filme dialoga com “O Poderoso Chefão” (1972) — referência obrigatória, de um modo ou de outro, para filmes sobre mafiosos. Só que Ridley Scott preferiu outro viés. Para começar, nada de glamour ou de romantização. E o chefão italiano, Dominic Cattano, encarnado por Armand Assante, não passa de uma caricatura dos mafiosos de Francis Ford Coppola. Na fotografia, evitou-se a estetização em favor do estilo “reportagem”.

Também não se poupou o espectador dos efeitos degradantes que a heroína produz nos usuários. Principalmente quando se mostra a vida próspera da família Lucas. À cena do grupo reunido num banquete em grande estilo contrapõem-se imagens assombrosas de vítimas da heroína, conduzindo o expectador à seguinte conclusão: a vida regalada dos Lucas advém da desgraça de muitos.

De certo modo o filme apresenta o avesso do sonho hedônico que embalou a juventude norte-americana nos anos 1960, quando o imperativo era “sexo, drogas e rock’n’roll”. Daí a ironia da frase que o representante do cartel no sudeste asiático, após a notícia da retirada das tropas do Vietnã, que representará o fim do tráfico, diz a Lucas ao telefone: “Dê uma chance à paz”. Frase cunhada, como se sabe, pelo roqueiro John Lennon.

Após a rolagem dos créditos finais, uma surpresa: Frank Lucas aponta a arma para o espectador e dispara. Uma citação do primeiro faroeste do cinema, “O Grande Roubo do Trem” (1903), que terminava com alguém disparando o revólver em direção à platéia. E um possível recado de que criminosos como ele são um perigo para todo o mundo, mesmo para quem se sente confortavelmente fora de seu raio de ação.

 

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