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POR EM 01/05/2009 ÀS 09:52 AM

Os japoneses venceram: na Segunda Guerra e em Gran Torino

publicado em

O carisma de Eastwood é gigantesco. O público menos exigente, diante de seu magnetismo na tela, pode até ignorar os furos no roteiro, as situações clichês que se multiplicam e as interpretações fracas dos coadjuvantes. Porém, tudo isso existe, colocando em suspeita o rótulo de obra-prima que alguns críticos apressados colaram no filme

Clint Eastwood

Clint Eastwood é a personalidade viva mais respeitada do cinema. Ninguém ousa questionar sua virilidade, inteligência ou talento. E, ao contrário do que ocorre com muitos de seus colegas de fama, o tempo é um aliado. Charlton Heston foi ridicularizado por Michael Moore em “Tiros em Columbine”. Brigitte Bardot, desde que se tornou ativista pelos direitos dos animais, é ridicularizada por todo mundo. Sofia Loren, inexplicavelmente, resolveu posar nua depois dos 70. Elizabeth Taylor tornou-se figurante de luxo.
 
Não encontra rival nem mesmo entre os diretores. Eastwood não é o mais brilhante, inovador ou técnico dos realizadores em atividade, mas, com certeza, é o mais coerente. Scorsese vendeu a alma à Academia, em troca do Oscar. Coppola, semi-aposentado, assinou “Jack”, o que não tem desculpa. Spielberg dedica demais de seu imenso talento à venda de pipocas. Godard tornou-se uma caricatura de si mesmo. Woody Allen, apesar de alguns lampejos, não se renova há vinte anos. Lars Von Trier, dono de prestigio inflacionado, é amado e odiado em proporções iguais. George Lucas é produtor, não diretor.
 
Clint é o homem. O maior pistoleiro da história dos faroestes. Seu “estranho sem nome”, sujo e enfezado, é muito mais convincente do que os cowboys de barba feita e limpinhos, interpretados por John “Jack Grandão” Wayne. Como diretor, sua marca é a constância. Desde os anos 80, raramente, faz filmes que não sejam, no mínimo, bons. Em variados gêneros. Do melodrama chique “As Pontes de Madison”, até retratos sem censura do mundo do jazz em “Bird”, passando por aventuras inteligentes ao estilo de “Coração de Caçador”. Eventualmente assina algumas pérolas, como “Os Imperdoáveis” e “Sobre Meninos e Lobos”. 
 
Tamanho respeito, muitas vezes, converte-se em idolatria cega. É o que temos testemunhado nas críticas ao recente filme “Gran Torino”, produção de 2008, lançado quase simultaneamente com “A Troca”. Sem dúvida, “Gran Torino” é um bom filme, digno da grife Eastwood, mas não é um triunfo. Acredito que “A Troca”, mesmo sendo mais lento e pesado, é muito mais profundo, complexo e tecnicamente bem realizado. O trunfo de “Gran Torino” é, justamente, a presença do diretor encabeçando o elenco, de certa forma emulando seu personagem em “Menina de Ouro”. O carisma de Eastwood é gigantesco. O público menos exigente, diante de seu magnetismo na tela, pode até ignorar os furos no roteiro, as situações clichês que se multiplicam e as interpretações fracas dos coadjuvantes. Porém, tudo isso existe, colocando em suspeita o rótulo de obra-prima que alguns críticos apressados colaram no filme. Parece-me que se trata de uma homenagem ao diretor que, possivelmente, realizou seu canto de cisne como interprete. Eastwood merece, mas não acho que “Gran Torino” vá se destacar em sua filmografia. O tempo deve colocá-lo em seu devido lugar, entre as produções medianas, ao lado de “Um Mundo Perfeito” e “Perversa Paixão”. Se a graça é ver Eastwood interpretando um veterano de guerra deslocado no tempo, recomendo o hilário “O Destemido Senhor da Guerra”, produção de 1986. Filme despretensioso e divertido. Mostra que Eastwood é tão durão que poderia ter sido instrutor do próprio Rambo. 
 
Na verdade, a última vez em que Eastwood roçou a genialidade foi em “Cartas de Iwo Jima”, possivelmente um dos dez melhores filmes de guerra de todos os tempos. Foi realizado como parte de um projeto duplo sobre a Segunda Guerra Mundial, formado pelos longas “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”. O mais comum é encontrarmos resenhas afirmando que o primeiro filme é bom e que o segundo é ainda melhor. Trata-se de uma meia verdade, provavelmente gerada pela isenção crítica que Eastwood ganhou ao longo da carreira. Sem condescendência, “A Conquista da Honra” é fraco. “Cartas de Iwo Jima”, sim, é um triunfo.  
 O que “A Conquista da Honra” tem de piegas, paternalista e mistificador, “Cartas de Iwo Jima” tem de sóbrio, inteligente e humanista. Não por acaso, apesar dos dois filmes tratarem da mesma batalha, sob perspectivas diferentes, “A Conquista da Honra”, o lado americana, foi solenemente ignorado pela Academia, enquanto “Cartas de Iwo Jima”, quase todo falado em japonês, foi indicado ao Oscar de melhor filme. Os velhinhos acadêmicos entendem de épicos de guerra. Alguns deles não só lutaram na Segunda Guerra, como também trabalharam em obras-primas como “A Ponte do Rio Kwai”, “Patton” e “Tora, Tora, Tora”.
 
A rigor, o drama dos vencedores americanos é tão interessante quanto o dos perdedores, e massacrados, japoneses. Apenas foi menos trabalhado.  Creio que Eastwood praticamente abandonou “A Conquista da Honra”, dirigindo-o burocraticamente, para se dedicar a “Cartas de Iwo Jima”.
 
A idéia original era filmar o best-seller “Flags of Our Fathers”, de James Bradley e Ron Powers: um livro reportagem sobre a utilização política de uma imagem – a célebre fotografia de Joe Rosenthal mostrando seis soldados americanos erguendo uma bandeira em território conquistado - como símbolo de otimismo em tempos de guerra, visando arrecadar fundos para manutenção do conflito. Contudo, o próprio Eastwood conta que “enquanto pesquisava para fazer o primeiro filme, logo me interessei pela figura do tenente-general Tadamichi Kuribayashi e fiquei imaginando que tipo de pessoa ele era para defender a ilha de modo tão feroz e inteligente, colocando todo exército em túneis subterrâneos. Foi então que consegui um livro sobre Kuribayashi publicado no Japão, que reunia cartas que ele enviou para sua esposa e filhos. Ele era um homem bastante sensível e familiar. Por meio das cartas, você descobre que Kuribayashi era um sujeito único, gostava da América e achava o conflito um erro. Ele sofreu bastante com a resistência entre seus próprios homens que o consideravam louco, criando todo aquele complexo de túneis. Durante as pesquisas, descobrimos que existiam outros personagens interessantes, como os jovens japoneses que estavam lá da mesma forma que os americanos, sem querer estar em batalha”. Como se vê, um artista entusiasmado! Divulgou-se que as filmagens ocorreram quase que simultaneamente. Estaria duplamente entusiasmado? Não creio. 
 “
A Conquista da Honra” é, tecnicamente, irrepreensível. O que não implica em especial mérito. Em Hollywood apuro técnico é regra, não exceção. Até mesmo produções classe B contam com ótimos profissionais em suas folhas de pagamento. Trata-se, afinal, de uma indústria milionária. Porém, dinheiro nem sempre compra qualidade literária. Um bom roteiro continua sendo a base para um bom filme. É claro que “A Conquista da Honra” possui alguns bons momentos - o melhor é aquele em que um soldado é abandonado em mar aberto, destruindo a lenda de que no exército americano “ninguém é deixado para trás” -, contudo, o tom geral é de mais do mesmo. O que o filme tem de melhor, sua fotografia envelhecida e a cena da invasão da praia, parece exageradamente “inspirado” em “O Resgate do Soldado Ryan”. Influência do produtor, Steven Spielberg? 
 
Em termos de produção, curiosamente, “A Conquista da Honra” foi uma empreitada muito maior do que “Cartas de Iwo Jima”. Seus cenários são enormes, encenou batalhas gigantescas, com milhares de figurantes etc. “Cartas de Iwo Jima” é minimalista. Boa parte de suas cenas se passam em praias, campos abertos ou no interior de cavernas. Possui diversas seqüências noturnas, notoriamente uma estratégia para economizar dinheiro. Certamente, os orçamentos dos filmes foram contabilizados separadamente. Até porque, em tese, “A Conquista da Honra” era muito mais comercial do que “Cartas de Iwo Jima”. Eastwood teve que lidar com isso. O que pode ter contribuído para definir o caráter de cada obra. O primeiro seria um espetáculo para o grande público. Um espetáculo que, para simular seriedade, finge não ser um libelo patriótico. O segundo seria uma reflexão intelectualizada sobre o absurdo da guerra – especialmente preparado para cinéfilos que não se importam em ler legendas. 
 
O problema maior de “A Conquista da Honra” reside em sua estrutura narrativa barroca, repleta de idas e vindas no tempo, flashback dentro de flashback, dentro de outro flashback. Não é necessariamente uma fórmula ruim, mas é preciso saber usá-la. Eastwood é, essencialmente, um ótimo contador de histórias. Aprendeu a filmar com Sérgio Leone, que usou o recurso com parcimônia em “Era Uma Vez na América”, mas sua principal influência foi mesmo Don Siegel, um mestre da narrativa clássica hollywoodiana. Seus dois prêmios Oscar, por “Os Imperdoáveis” e “Menina de Ouro”, seguiram esse modelo. Malabarismos narrativos nunca foram seu forte. O que pode ser comprovado no próprio “Cartas de Iwo Jima”. Sem os entraves temporais do filme em inglês, sua trama flui serena. Seus flashbacks, curtos e bem colocados, apenas pontuam determinados aspectos da narrativa principal, aprofundando-os.  
 
É nítido como Eastwood burilou ao máximo os personagens japoneses, dando-lhes estofo humano. Um esmerado trabalho de preparação do texto ajudou o elenco. O que é visível na interpretação sóbria de Ken Watanabe, como o tenente-general Kuribayashi. É de uma riqueza impressionante. Toda nobreza de espírito e inteligência do oficial japonês foram plenamente transmitidas, sem apelar para excessos. Detalhes mínimos de expressões faciais dizem muito. 
 
Em comparação, apesar do esforço dos atores, os personagens americanos são pouco mais do que estereótipos bidimensionais. Eastwood não costuma repetir cenas. Seu método de direção de atores consiste em dar-lhes liberdade em cena, potencializando suas qualidades individuais. Nem sempre funciona. Foi o que aconteceu com o exageradamente festejado fuzileiro índio Ira Hayes, interpretado por Adam Beach, que se excede em expressões chorosas pouco convincentes. Suas constantes, e tediosas, bebedeiras mais parecem surtos de irresponsabilidade do que um caso grave de alcoolismo, potencializado pela situação de estresse que vive ao assumir o papel de herói oficial. Um verdadeiro desperdício do que poderia ser um tipo inesquecível. Na verdade, o melhor personagem americano que aparece nos dois filmes é Sam, um jovem fuzileiro que, em “Cartas de Iwo Jima”, é aprisionado. Ferido, depois de um significativo diálogo, morre. Apesar de breve, sua presença é vital, simbólica. Mostra que, apesar das diferenças culturais, e de cada lado sentir-se superior ao outro, japoneses e americanos são essencialmente iguais.
 
O exemplo maior desta semelhança marginal é encarnado na figura um tanto patética de um soldado raso nipônico que considera a Segunda Grande Guerra um pesadelo sem sentido, do qual ele só deseja acordar e voltar à sua vida pacata, ao lado de sua esposa e filha recém-nascida. Acha que o Imperador do Japão deveria entregar Iwo Jima aos americanos, sem resistência. Sua opinião apátrida não se justifica por covardia – embora ele não seja um exemplo de coragem física – mas por não enxergar sentido em todo aquele derramamento de sangue. Para ele, Iwo Jima é apenas um pedaço de terra estéril e mal-cheirosa. Não tem a mesma compreensão de seus compatriotas de que aquela ilha estéril e mal-cheirosa é, apesar do aspecto desolador, parte do território sagrado do Japão.
 
Importante notar que esse soldado raso, um dentre muitos, padeiro de profissão, é um homem letrado - não exatamente erudito, mas, sem dúvida, interessado em cultura. Aparece lendo em diversas cenas. Não é algo gratuito. Em determinada passagem, o soldado-padeiro lê um livro sobre um castelo europeu. Alguém comenta que aquilo é inútil, perda de tempo, uma vez que ele nunca poderá visitar esse castelo. Mas ele continua lendo. Não tem orgulho por ler, mas continuar lendo.
 
Se “Cartas de Iwo Jima” fosse assinado por outro diretor, essa característica proto-intelectualizada poderia ser encarada como uma ironia. Uma retomada do clichê acerca do homem de letras fracote e inábil, jogado em uma situação limite, que não entende e não controla. Pouco mais do que um alívio cômico. Algo que, aliás, o próprio Spielberg fez em “O Resgate do Soldado Ryan”. Com Eastwood essa interpretação simplista não é possível. Para Eastwood, o soldado-padeiro representa o indivíduo que, em meio ao caos da guerra, consciente de que é apenas massa de manobra, entende que a única coisa que importa é tentar manter a sanidade.
 
É justamente sua consciência que é testada na cena mais contundente do filme, quanto ele testemunha atônito a uma sessão de suicídio coletivo, perpetrada por seus colegas de armas. Desejam morrer honradamente, por suas próprias mãos, sem cair prisioneiros. O padeiro-soldado não deseja participar daquilo, mas sua posição de “honorável soldado do Imperador” obrigá-o. Consegue escapar por pouco, apenas para quase ter sua cabeça decepada por um oficial que julgou sua atitude covarde. É salvo por Kuribayashi, outro nipônico que é considerado lunático e simpatizante do inimigo, apenas porque enxerga criticamente as tradições milenares de seu povo. Criticá-as, mas mantêm-se cioso quanto a suas obrigações para com a elas e seu Imperador.  
 
“Cartas de Iwo Jima” não é perfeito. Tem seus pontos baixos. Um deles refere-se ao tempo. A batalha de Iwo Jima durou cerca de 31 dias. A edição do filme não transmite a sensação de que o confronto tenha se estendido por tanto tempo. Do mesmo modo, escapa ao espectador as reais dimensões da batalha. Estima-se que havia aproximadamente 22 mil soldados nipônicos defendendo a ilha. No filme, temos a sensação de que o contingente é bem menor, talvez um grupo de mil ou dois mil homens fazendo guerra de guerrilha. Outro deslize acontece quase ao final, com a exagerada aproximação entre Kuribayashi e o soldado-padeiro. Travam uma amizade descontextualizada. Mais uma pequena recaída sentimental, típica de Eastwood. Um vício que, anteriormente, quase comprometeu o tom sério de “Menina de Ouro”.
 
Contudo, o maior problema dá-se pela ausência. Senti falta de uma cena onde os orgulhosos soldados japoneses vissem ao longe a bandeira americana tremulando no topo do monte Suribachi, ponto mais alto de Iwo Jima. O potencial dramático desta passagem, imagino, seria tremendo. Em primeiro lugar porque sedimentária a ligação com “A Conquista da Honra”. Depois, porque fortaleceria as motivações dos personagens para seqüência da tentativa suicida dos japoneses de fazer uma investida final contra os fuzileiros americanos, mesmo eles estando muito mais bem armados e nutridos. De qualquer forma, são problemas menores que não comprometem a excelência da obra. 
 
“Cartas de Iwo Jima” era o melhor filme dentre os indicados para o Oscar 2007. A única obra com inegável importância histórica, em um ano fraco. Perdeu para “Os Infiltrados”, um Scorsese menor. Mas não há do que reclamar. Fala-se muito sobre o Oscar não ser justo. Não é bem assim. Trata-se, sobretudo, de um prêmio que representa o reconhecimento da indústria do cinema e da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que procura dar respeitabilidade a essa indústria, a seus profissionais. Eastwood já possui duas estatuetas de melhor diretor. Scorsese merecia a sua, pelo que fez no passado.
 
Essa é a grande diferença entres os dois cineastas. Scorsese, por mais talentoso que seja, parece já ter ultrapassado há tempos o auge da carreira. Quanto a Eastwood, ninguém pode ter certeza. Clint, da mesma forma que Dirty Harry, seu personagem mais famoso, sempre pode ter mais uma bala no Magnum 44. “Make my day, punk!”
 

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