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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Modernidade tardia

publicado em

Dirigido por Marcela Borela, “Mudernage” faz uma reflexão sobre a experiência moderna nas artes plásticas em Goiás. O arcaico e o novo dividindo o mesmo espaço, nem sempre pacificamente, numa cidade criada para ser o símbolo brasileiro do progresso varguista

Algumas imagens parecem ser inevitáveis. Impregnam o tema. Seus autores sabem que beiram o clichê, ou são mesmo clichês, mas, ainda assim, recusam-se a excluí-las, tamanha a força simbólica que carregam. Usando-as, mesmo correndo o risco de parecerem óbvios, todos saberão de forma inequívoca o que pretendem dizer. Exemplo clássico são as ovelhas, sendo uma negra, se transformando em seres humanos no início de “Tempos Modernos”, de Chaplin. Pertence a essa mesma categoria a imagem das vacas que antecedem os respingos de tinta na abertura do documentário média-metragem “Mudernage”, dirigido por Marcela Borela. A relação é clara: na terra do boi também se produziu arte. O arcaico e o moderno dividindo o mesmo espaço, nem sempre pacificamente, numa cidade criada para ser o símbolo brasileiro do progresso varguista: Goiânia. Uma fazenda asfaltada, como diz o insulto clássico, eis a nossa mudernage.

O título, talvez a maior sacada do documentário, ao que parece, foi extraído da letra de “O violeiro”, do cantor e compositor nordestino Elomar Figueira Mello, arquiteto de formação que se tornou conhecido no universo violeiro como uma espécie de menestrel ao estilo medieval. “Vô cantá no canturi primero / as coisa lá da minha mudernage / qui mi fizero errante e violêro / Eu falo séro e num é vadiage”. A canção figura com destaque na eclética trilha sonora, juntamente com peças de Beethoven, modas de viola de Tião Carreiro, músicas religiosas, marchinhas e sons incidentais dos mais variados, que vão desde berrantes até cacarejar de galinhas.

O documentário de Marcela Borela, que teve pré-lançamento no 3º Festival de Cinema Universitário Latino Americano Perro Loco, realizado em agosto no Campus da Universidade Federal de Goiás, representa Goiás no projeto DOCTV, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, com apoio da Fundação Padre Anchieta e TV Cultura. Segundo seu texto oficial de divulgação, o DOCTV “tem como objetivos gerais a regionalização da produção de documentários, a articulação de um circuito nacional de tele-difusão e a viabilização de mercados para o documentário brasileiro”. Dezenas de filmes foram viabilizadas por esse programa. A qualidade é desigual. Vai de registros fundamentais como o ótimo “Mandinga em Manhattan”, do baiano Lázaro Faria, enfocando as origens da capoeira e sua difusão pelo mundo, até sonolentos exercícios de pretensão vazia como “Acidente”, cometido pela dupla mineira Cao Guimarães e Pablo Lobato.

Apesar do tema de interesse restrito, “Mudernage” se aproxima mais da primeira categoria. Chama atenção sua qualidade técnica. Borela recrutou alguns dos melhores profissionais do audiovisual goiano. A fotografia de Pedro Guimarães e Emerson Maia é inteligente e criativa, privilegiando ângulos inusitados. A boa captação de som direto, feita por Chico Macedo, poupou “Mudernage” de um dos maiores males do cinema brasileiro. A edição movimentada de Erico Rassi e Jader Augustus, com farta utilização de efeitos gráficos, mantém o interesse. Os mais cínicos, ou nem tanto, diriam: “nem parece filme goiano, uai”. Mas é, começando pelo sotaque.

A primeiro parte do média-metragem foi usada para estabelecer o contexto histórico da mudernage goiana. Por meio de depoimentos de artistas como Siron Franco, Roos e Carlos Sena, dentre outros, o espectador é informado sobre a condição de Goiânia de representante de uma modernidade tardia. Também na arte. Após o rupestre indígena e o barroco do século XIX, dominado por Veiga Valle, houve uma lacuna, não havia artistas. Sendo a arte um produto do contexto urbano, a arte moderna só surgiu em Goiás a partir da década de 1930, com a fundação de Goiânia, em sua tentativa de exumar a arquitetura art déco, mas, sobretudo, com a chegada de um grupo de artistas que se tornariam professores-precursores: o italiano Frei Confaloni, o alemão Gustav Ritter, o paulista D. J. Oliveira, o mineiro Cléber Gouvêa e, finalmente, Luiz Curado, goiano de Pirenópolis. Entre influências do Bauhaus, do expressionismo, do “Novecento italiano”, do paisagismo mineiro etc., foi fundada a Escola Goiana de Belas Artes em 1952, com ideário modernista.

Das origens semi-amadoras, passando pela profissionalização da cena artística entre as décadas de 1970/1980, a percepção da ausência de críticos que pudessem pensar o cenário, Borela conduz o espectador para a segunda e mais interessante parte do filme, onde ocorre uma espécie de julgamento histórico e estético dos artistas da mudernage. Salvo raras exceções, recusam sua herança. Tanto a segunda geração dos modernos, quanto os artistas contemporâneos. Existe um diplomático discurso predominante de respeito ao pioneirismo, porém rejeitam a influência.

Siron Franco, por exemplo, afirma que logo se afastou de seus “mestres” porque acreditava que a arte deveria passar por uma ideia, e não ser, fundamentalmente, uma representação da realidade. Roos não aprovava o tipo meio francês encarnado por D. J. Oliveira para impressionar os nativos.

Dentre os contemporâneos o discurso é mais ácido. Os premiados Marcelo Solá e Pitágoras confessam que, durante seus anos de formação, mal ouviram falar dos nomes dos artistas pioneiros. Conheciam Siron Franco, que, pop, estava sempre na mídia. Gilmar Camilo, em tom de revolta, vai mais fundo e denuncia um estado de tensão entre os grupos. Fala do constante “dinamitar” ao novo em Goiás. Divino Sobral, talvez o entrevistado mais engajado no projeto de estabelecer uma História da Arte em Goiás, considera que a influência dos professores-precursores deu-se, basicamente, em termos pessoais, não tanto na obra realizada pelos artistas posteriores.

Pitágoras, numa entrevista hilária, culpa a influência católica pelo tom resignado e pelo desgaste da linguagem dos artistas modernos goianos que, por “canalhice”, optaram por produzir para uma pseudo-elite rural. O preço, segundo ele, será o esquecimento. Juliano Moraes, dono das opiniões mais contundentes, coloca-se explicitamente como um artista que se formou numa relação de conflito com os modernos goianos, uma modernidade não apenas tardia, mas conservadora, “preocupada com questões que se colocaram no começo do século (XX) na Europa”. Portanto, uma geração que nasceu superada.

Para registro fílmico, Borela instiga alguns de seus entrevistados da ala contemporânea, pedindo que comentem por meio de um ato artístico, seja pictográfico ou performático, a mudernage. Marcelo Solá, visivelmente constrangido, temendo estar sendo deselegante, recusa-se sem muitas palavras. Juliano Moraes também se nega, afirmando que fazer algo do gênero seria farsesco, ridículo. Seria como um índio fazendo um ritual de passagem só para o antropólogo ver. Nesse sentido, estranhamente, os “índios” acabaram sendo os integrantes do Grupo Empreza, apontado por Paulo Veiga, um de seus integrantes, como mais o inquietante e vanguardista do estado. Realizaram especialmente “para a mídia do filme” a série de vídeo-performances “Paisagens Destiladas”, que consistiam em se reunir e tomar cachaça em frente a um monumento. Substituíram o espaço público pelo apartamento do clã Borela e o monumento pela coleção de telas modernistas da mãe da diretora. Talvez inconscientemente incomodado pela problemática levantada por Juliano Moraes, um dos membros do Grupo Empreza hesita e se pergunta: “Fico imaginando isso tipo encaixado dentro do documentário, assim, né...”.

Marcela Borela chamou sua obra de “filme processo”. Definição difícil de ser decodificada pelo espectador. Graduada em jornalismo, é possível que se relacione com sua passagem pelo mestrado em História, onde pesquisa História da Arte. Pode ter vindo dessa experiência acadêmica a farta utilização de cartazes em forma de notas explicativas, assim como a reutilização crítica de algumas imagens dos documentários apologéticos “Pedro Fundamental” e “D. J. Oliveira — Nove Minutos de Eternidade”, de P. X. Silveira. Perceptível como se esmerou em mostrar o “processo” de feitura de um mural pintado por Fabíola Morais na parede remanescente da Escola Goiana de Belas Artes, no qual a artista une e subverte traços de artista da mudernage.

Seu estilo de produção de documentário, aparentemente, é devedor da escola de Eduardo Coutinho, célebre diretor de “Cabra Marcado Para Morrer” e “Edifício Master”. Assim como Coutinho, Borela coloca-se em quadro, não esconde que está fazendo um filme, não esconde sua câmera, sua equipe, nem mesmo sua claquete. Ao mesmo tempo, como o polêmico documentarista norte-americano Michael Moore, diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11 de Setembro”, a diretora espetaculariza sua presença em cena. Distante do estilo interrogatório seco de Coutinho, Borela transforma a si mesma em personagem. Quase uma figura de ficção em meio ao cinema verdade. Filmou a si mesma interagindo com a instalação “Coral de Árvore”, feita a base de lã colorida e livros, de Divino Sobral. A cor da lã e do vestido combina. Em seguida, sentada no chão, escreve: “Goiânia: enriquecida pelo arroz e pelo boi”. Mise en scène calculada. Sua voz é onipresente, interagindo com os entrevistados ou comentando aspectos técnicos da produção. Durante a entrevista com Pitágoras, se pergunta: “não sei se tem mais coisas para conversar?”.

Com razão, Pitágoras respondeu que “têm”. Talvez por tempo hábil de produção e pela própria duração do filme, assuntos e figuras importantes para o debate ficaram de fora ou foram minimizados, caso de Ana Maria Pacheco, artista goiana de expressão internacional. Ou mesmo, considerando a presença em tons de homenagem de Antônio Poteiro, a hybris do primitivista Omar Souto, representando em si mesma o conflito entre a tradição machista-patriarcal goiana e a modernidade. Mas, enfim, são sempre opções feitas pelo realizador. “Mudernage” deve ser lembrado como o registro inédito que é.

O tema da modernidade desmanchado no ar tudo que é sólido, em Goiás, no Brasil e no mundo, é múltiplo, assim como a experiência moderna em si, e ainda deve ser vastamente explorado. Às vezes por meio da reflexão acerca de nossas tragédias caseiras. Se a modernidade começou fazendo de Goiânia uma fazenda asfaltada terminou por transformá-la em uma cidade que brilha no escuro.
 

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