POR TÚLIO MOREIRA ROCHA
EM 08/05/2009 ÀS 02:27 PM
Línguas à mesa
publicado em filmes
Obra-prima de Manoel de Oliveira visita a História in loco e representa a consagração do cinema do mestre português

“Um Filme Falado” (2003) é um exercício peculiar de cinema, dirigido pelo centenário cineasta português Manoel de Oliveira. Mostrando as delícias do estudo in loco da História, o filme é uma viagem pelo passado da humanidade, indo da Grécia à França, do Egito à Turquia. Rosa Maria, professora de História da Universidade de Lisboa, parte com a pequena filha, Maria Joana, num cruzeiro que atravessa lugares que foram palco de importantes acontecimentos da civilização humana.
Além de um empolgante ritmo de reportagem turística, o filme contempla o espectador com imagens belíssimas do mar e de diferentes sociedades que se desenvolveram, ao longo de séculos, às margens do Mediterrâneo. É também educativo, suscita a importância de estabelecer contato com a História ainda na infância e pode inspirar pais a levarem seus filhos para conhecer locais históricos. Pense, em âmbito regional, num passeio às cidades de Goiás, Pirenópolis e Corumbá de Goiás, ou ainda, numa viagem às regiões históricas de Minas Gerais ou Mato Grosso, e no impacto que o contato com o patrimônio material do passado provoca na formação da identidade social das crianças.
Certamente, a pequena Maria Joana do filme de Manoel de Oliveira fica atônita ao conhecer tantos locais históricos, ao descobrir os personagens que se destacaram na trajetória da civilização e ao acompanhar tantas reviravoltas e processos sociais que se sucederam ao longo do tempo. É uma forma de acabar com a velha impressão de que os jovens acreditam que o mundo surgiu no dia em que eles nasceram. Transformar a relação com o passado é um trabalho educativo, uma vez que a História contribui, decisivamente, para a compreensão da realidade presente, subsidiando as respostas para as perguntas que nos desafiam na atualidade.
Portugal e a Europa — O filme de Manoel de Oliveira também discute a posição de Portugal no contexto da União Européia. O país de passado glorioso, que já dominou os oceanos, constituiu um dos maiores impérios da História e conquistou terras em vários cantos do planeta, sofre, agora, para encontrar-se em meio a uma Europa eclética, de novos costumes e modismos, totalmente inserida na aldeia global. Portugal é o país que ainda se sente deslocado, por vezes isolado, em constante busca por um lugar ao sol.
A professora Rosa Maria carrega consigo este isolamento. Comunica-se bem nos lugares que visita porque fala francês fluentemente, mas a impressão de distanciamento da cultura lusa é latente. O curioso é que não se trata de uma queixa exclusiva dos portugueses. No navio, a turista conhece três mulheres de diferentes origens: uma empresária francesa, uma modelo italiana e uma cantora grega. A cantora lamenta pelo destaque reduzido da Grécia no mundo contemporâneo. É como se dissesse que aos gregos só resta a glória do passado e o único status sobrevivente é o de berço da civilização ocidental.
No momento mais mágico do filme, Rosa Maria e sua filha observam uma conversa entre as três mulheres e o capitão do navio, um americano de origem polaca. Cada um se expressa em sua língua materna, provocando a esfuziante sensação de que a Torre de Babel se sentou à mesa. A importância do idioma na cultura vem à tona. Quando Rosa Maria é convidada a acompanhar a conversa, Helena, a cantora grega, demonstra inveja da língua portuguesa, por ser falada em diversos lugares do mundo, enquanto o grego se conserva limitado às fronteiras de seu berçário.
“Um Filme Falado” colabora com o debate sobre a globalização e o impacto desse processo em diferentes culturas. Em detrimento de uma cultura que se sobrepõe e sufoca as outras, Manoel de Oliveira parece festejar as belezas de cada língua, atitude que culmina na marcante interpretação de uma canção grega. Ao fim da performance de Helena, lamentamos a falta de chance de ouvir mais músicas em grego ou em outros idiomas, tão limitados que estamos à sobrepujança do inglês.
Além de um empolgante ritmo de reportagem turística, o filme contempla o espectador com imagens belíssimas do mar e de diferentes sociedades que se desenvolveram, ao longo de séculos, às margens do Mediterrâneo. É também educativo, suscita a importância de estabelecer contato com a História ainda na infância e pode inspirar pais a levarem seus filhos para conhecer locais históricos. Pense, em âmbito regional, num passeio às cidades de Goiás, Pirenópolis e Corumbá de Goiás, ou ainda, numa viagem às regiões históricas de Minas Gerais ou Mato Grosso, e no impacto que o contato com o patrimônio material do passado provoca na formação da identidade social das crianças.
Certamente, a pequena Maria Joana do filme de Manoel de Oliveira fica atônita ao conhecer tantos locais históricos, ao descobrir os personagens que se destacaram na trajetória da civilização e ao acompanhar tantas reviravoltas e processos sociais que se sucederam ao longo do tempo. É uma forma de acabar com a velha impressão de que os jovens acreditam que o mundo surgiu no dia em que eles nasceram. Transformar a relação com o passado é um trabalho educativo, uma vez que a História contribui, decisivamente, para a compreensão da realidade presente, subsidiando as respostas para as perguntas que nos desafiam na atualidade.
Portugal e a Europa — O filme de Manoel de Oliveira também discute a posição de Portugal no contexto da União Européia. O país de passado glorioso, que já dominou os oceanos, constituiu um dos maiores impérios da História e conquistou terras em vários cantos do planeta, sofre, agora, para encontrar-se em meio a uma Europa eclética, de novos costumes e modismos, totalmente inserida na aldeia global. Portugal é o país que ainda se sente deslocado, por vezes isolado, em constante busca por um lugar ao sol.
A professora Rosa Maria carrega consigo este isolamento. Comunica-se bem nos lugares que visita porque fala francês fluentemente, mas a impressão de distanciamento da cultura lusa é latente. O curioso é que não se trata de uma queixa exclusiva dos portugueses. No navio, a turista conhece três mulheres de diferentes origens: uma empresária francesa, uma modelo italiana e uma cantora grega. A cantora lamenta pelo destaque reduzido da Grécia no mundo contemporâneo. É como se dissesse que aos gregos só resta a glória do passado e o único status sobrevivente é o de berço da civilização ocidental.
No momento mais mágico do filme, Rosa Maria e sua filha observam uma conversa entre as três mulheres e o capitão do navio, um americano de origem polaca. Cada um se expressa em sua língua materna, provocando a esfuziante sensação de que a Torre de Babel se sentou à mesa. A importância do idioma na cultura vem à tona. Quando Rosa Maria é convidada a acompanhar a conversa, Helena, a cantora grega, demonstra inveja da língua portuguesa, por ser falada em diversos lugares do mundo, enquanto o grego se conserva limitado às fronteiras de seu berçário.
“Um Filme Falado” colabora com o debate sobre a globalização e o impacto desse processo em diferentes culturas. Em detrimento de uma cultura que se sobrepõe e sufoca as outras, Manoel de Oliveira parece festejar as belezas de cada língua, atitude que culmina na marcante interpretação de uma canção grega. Ao fim da performance de Helena, lamentamos a falta de chance de ouvir mais músicas em grego ou em outros idiomas, tão limitados que estamos à sobrepujança do inglês.
O Mestre — “Um Filme Falado” representa ainda a consagração do cinema do mestre português. Consolidado no panorama mundial, o cineasta dirige atores de renome, mesmo se tratando de um filme fora dos padrões da grande indústria — é quase um trabalho artesanal, alternativo, de temática e estética bastante particulares. John Malkovich, o comandante do navio, Catherine Deneuve, a empresária francesa, Stefania Sandrelli, a modelo italiana, e Irene Papas, a cantora grega, contracenam com nomes importantes do cinema português, como Leonor Silveira (a professora Rosa Maria) e Luís Miguel Cintra.
O americano John Malkovich, inclusive, desenvolveu carinho especial por Portugal, onde é sócio de uma boate. Fã confesso do cinema de Manoel de Oliveira, o ator trabalhou com o mestre por três vezes (as outras duas parcerias aconteceram nos filmes “O Convento”, de 1995, e “Vou Para Casa”, de 2001). Nomes que projetam Portugal para o mundo, caso de Manoel de Oliveira, do escritor José Saramago e da atriz e cineasta Maria de Medeiros, diminuem as barreiras culturais estabelecidas pelos países “dominantes” e proporcionam a grata oportunidade de fugir do esquemão americano. Na aldeia global, também há lugar para os pequenos.
O americano John Malkovich, inclusive, desenvolveu carinho especial por Portugal, onde é sócio de uma boate. Fã confesso do cinema de Manoel de Oliveira, o ator trabalhou com o mestre por três vezes (as outras duas parcerias aconteceram nos filmes “O Convento”, de 1995, e “Vou Para Casa”, de 2001). Nomes que projetam Portugal para o mundo, caso de Manoel de Oliveira, do escritor José Saramago e da atriz e cineasta Maria de Medeiros, diminuem as barreiras culturais estabelecidas pelos países “dominantes” e proporcionam a grata oportunidade de fugir do esquemão americano. Na aldeia global, também há lugar para os pequenos.






