Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

  • Chega ser desonesto articular a situação ambiental degradante atual à religião, como se doutrinas religiosas fossem reponsáveis pelo buraco na camada de ozônio, por exemplo ou quem sabe pelas tonelada ...

    10 horas atrás por Carlos Rio sobre Pode detonar que Deus recupera
  • Compartilho da mesma angústia. ...

    15 horas atrás por Elizabeth sobre Garrafa ao mar
  • Euler e Elder, obrigado pelos comentários. ...

    16 horas atrás por eberth vencio
  • Caro, lei sempre seus textos. Gosto sempre. Entretanto, quando exagera na conversão de estrangeirismos para a língua portuguesa, fica bobo. Uma sugestão: não deixe de fazê-lo, mas faça com cautela, d ...

    16 horas atrás por Elder sobre A pior coisa que já escrevi na vida

últimas no twitter

  • Respire: 'Summertime' (George Benson e Jill Scott): http://t.co/CFRBWEat
    6 horas atrás
  • Numa carta escrita um ano antes de sua morte, Marilyn Monroe já se despedia: http://t.co/aQGLv7T0
    6 horas atrás
  • Busque um lugar para se hospedar, diretamente com os proprietários, em 19 mil cidades de 192 países: http://t.co/E28pOJhQ
    6 horas atrás
  • Navegue pelo corpo humano em 3D (é mais detalhado do que o aplicativo do Google): http://t.co/vHI5k5gi
    7 horas atrás
  • @myriamkazue Normalmente, não?
    9 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 15/12/2008 ÀS 04:36 PM

James Bond hooligan

publicado em

O suposto oitavo James Bond, interpretado pelo inglês Daniel Craig, não é o mesmo personagem vivido por Connery, Niven, Lazemby, Moore, Dalton, Brosnan ou mesmo Nelson. A culpa não é de Craig, reconhecidamente um bom ator. Foi mal escalado. Não por ser loiro, como muitos apontaram, uma vez que Moore também era, mas devido à junção de sua postura deselegante, charme tosco, altura apenas mediana e beleza questionável 



 Nem todos os homens gostariam de ser James Bond, mas todos os meninos sim.
Roger Ebert 

007 está morto. Quem o matou? Goldfinger? Largo? Jaws? Scaramanga? Oddjob? Seu arquiinimigo Blofeld? Não, nenhum dos vilões clássicos. James Bond foi vítima do “zeitgeist”, o espírito de porco de nosso tempo. O atestado de óbito foi emitido na versão 2006 de “Cassino Royale” e a última pá de terra foi lançada com o recente “Quantum Of Solace”. 

O objetivo declarado das produções era revigorar a franquia, apresentá-la a um novo público. Financeiramente a empreitada foi um sucesso. “Cassino Royale” tornou-se uma das maiores bilheterias da série. Contudo, apesar do sucesso, e apesar de ser um bom filme de ação, “Cassino Royale” não é um filme de 007. “Quantum Of Solace “ é pior: além de não ser um filme de 007 não é um bom filme de ação. Nos dois casos, o dono da festa, simplesmente, não apareceu. 

Não se trata de um engano. Bond, James Bond, não é um homem difícil de ser reconhecido. Na verdade, é reconhecível até demais, considerando que é um espião do MI6, o serviço secreto britânico. Gerado no mundo perfeito das idéias, na literatura “pulp” de Ian Fleming, tornada famosa quando John Kennedy declarou que era sua leitura de cabeceira, a primeira encarnação audiovisual de James Bond ocorreu em 1954, em um obscuro telefilme adaptando “Cassino Royale”, atendendo pelo nome de Jimmy Bond, no corpo de um ator chamado Barry Nelson. A encarnação canônica surgiu em 1962, com o escocês Sean Connery, no filme “007 Contra o Satânico Dr. No”. Seguiram-se mais quatro aventuras, até 1967, ano de “Com 007 Só se Vive Duas Vezes”.

Mesmo ano em que foi lançada uma lamentável versão satírica de “Cassino Royale”, com o britânico David Niven como James Bond e, acreditem, Woody Allen como vilão. O australiano canastrão George Lazemby tentou assumir a coroa em 1969, com “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade”. Um bom filme com um protagonista fraco. A peso de ouro, Connery voltou gordo e envelhecido em 1971, com “007 Os Diamantes São Eternos”. 
 
Seu legitimo sucessor, o inglês Roger Moore, apareceu em 1973, estrelando “007 Viva e Deixe Morrer”. Entre pérolas, como “007 O Espião Que Me Amava”, e lixo, como “007 Contra o Foguete da Morte”, que contou com risíveis cenas gravadas no Brasil, foram mais seis filmes até 1985, quando Moore se aposentou definitivamente, com “007 Na Mira Dos Assassinos”. Em 1984, Connery retornou, ainda mais velho e gordo, para uma despedida melancólica do papel, no bastardo “007 Nunca Mais Outra Vez”, uma dispensável refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica”, de 1965, produzida fora da franquia oficial, devido a problemas jurídicos com direitos autorais. Em 1987, o ator galês com formação shakespereana Timothy Dalton encarnou Bond no ótimo “007 Marcado Para a Morte”. Infelizmente, seu reinado durou pouco. Seu filme seguinte, “007 Permissão Para Matar”, de 1989, não foi bem recebido por público e crítica. A série ficaria suspensa até 1995, quando o irlandês Pierce Brosnan, assumiu o smoking no mediano “007 Contra Goldneye”. Com mais três filmes, Brosnan, apesar da qualidade duvidosa dos roteiros, revelou-se o campeão de bilheteria da dinastia. Sua derradeira aparição, o exagerado e artificial “007 Um Novo Dia Para Morrer”, de 2003, é uma espécie de fechamento simbólico da série. 
 
O suposto oitavo James Bond, interpretado pelo inglês Daniel Craig, não é o mesmo personagem vivido por Connery, Niven, Lazemby, Moore, Dalton, Brosnan ou mesmo Nelson. A culpa não é de Craig, reconhecidamente um bom ator. Foi mal escalado. Não por ser loiro, como muitos apontaram, uma vez que Moore também era, mas devido à junção de sua postura deselegante, charme tosco, altura apenas mediana e beleza questionável. Com esse perfil, em outros tempos, Craig faria no máximo o capanga de algum vilão milionário e megalomaníaco com planos de dominação mundial. Em todo caso, todos esses senões poderiam ter sido minimizado se Craig contasse com scripts melhor elaborados. Os roteiros de “Cassino Royale” e “Quantum Of Solace” ignoram quase que completamente longa tradição da dinastia Bond.  
 
Não que James Bond seja um Hamlet. Não se trata de um personagem sério. É um super-herói patriota tão bidimensional quanto o Capitão América. Mas existem premissas básicas que precisam ser respeitadas. Se por um lado, a continuidade nunca foi uma grande preocupação de seus roteiristas, por outro sempre houve uma linha mestra para ser seguida. Se o Bond de Moore visitou o túmulo da esposa no início de “007 Somente Para Seus Olhos” é porque, anos antes, o Bond de Lazemby casou-se e enviuvou em “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade”. Em “007 Contra Goldneye”, a M de Judy Dench deixou claro que é a substituta do antigo M, interpretado por Bernard Lee. Nada mais natural, considerando que a chefia do MI6 é apenas mais um cargo burocrático do governo britânico. O momento em que a nova M joga na cara de Bond que ele é apenas uma relíquia da Guerra Fria não apenas rendeu um dos melhores diálogos da franquia como lembrou que 007 é um veterano, com muita história para contar. 
 
A base dos enredos da maioria dos filmes foram retirados dos livros de Fleming: treze romances e duas coletâneas de contos. Trata-se de literatura de segunda classe. Incomparável, por exemplo, com as obras de Grahan Greene ou John Le Carré, autores respectivamente de “O Terceiro Homem” e “O Espião Que Saiu do Frio”. Não fossem suas adaptações para o cinema, o Bond literário não teria sobrevivido. 
 
O grande responsável por sua transformação em ícone popular foi, sem dúvida, Sean Connery. Ele, com alguma ajuda do diretor Terence Young, criou a persona cinematográfica de 007: um agente cínico, sofisticado, mulherengo e implacável. Dr. No estabeleceu um padrão que geraria frutos. Curiosamente, Connery, até então um ator de pouca expressão, não era a escolha inicial. Fleming sonhou com James Stewart, depois com Richard Burton, David Niven e James Mason. Os produtores Albert R. Brocolli e Harry Saltzman, com os pés no chão, sondaram Roger Moore, então um popular ator de séries televisivas, como “Ivanhoé e o Santo”. Posteriormente, Moore fez um bom trabalho, mas não é Connery. Ninguém é. 
 
Mas o fato é que o 007 de Connery não é o 007 de Fleming. O escritor imaginou um espião abnegado, altamente profissional, com traços anti-sociais mas atraído pelo mundo do luxo e do jogo. De todos os atores que encarnaram Bond, apenas Dalton foi fiel à perspectiva de seu criador. Ao mesmo tempo, a partir dos elementos inicialmente estabelecidos por Connery, o 007 do cinema sempre foi reconhecível em suas variações. Lazemby tentou, sem muito sucesso, manter o tom de seu antecessor. Niven se esforçou para manter a classe em uma comédia maluca. Moore substituiu ironia por deboche. Brosnan foi uma espécie de amalgama das características de Connery e Moore. 
 
E quanto a Daniel Craig? Qual bond tomou Craig? Aparentemente, um coquetel de Jack Bauer, da série “24 Horas”, Jason Bourne. Dos dois herdou os métodos ultraviolentos, o sentimentalismo e o desleixo. Existe mais de Bourne e Bauer do que de Connery no personagem interpretado por Craig. Sai o lorde, entra o hooligan. A prova definitiva dessa afirmação está em uma cena de “Cassino Royale”, onde o espião é confundido com um manobrista de estacionamento. Em hipótese alguma isso aconteceria com qualquer um de seus aristocráticos antecessores.  

 “Cassino Royale” procurou recontar a trajetória de James Bond, partindo do zero. Narrou suas missões iniciais, incluindo o primeiro assassinato que lhe valeu o duplo zero em seu código, sua licença para matar. Em suma, uma espécie de “Batman Begins” bondiano. Contudo, ao contrário de “Batman Begins” que estabeleceu uma narrativa coerente a partir de episódios isolados da mitologia do homem-morcego, “Cassino Royale” inventou um passado. A história pessoal de James Bond é amplamente conhecida. Existe até uma biografia autorizada do personagem, escrita por John Pearson. Em “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” ficamos sabendo que Bond descende da pequena nobreza escocesa. Órfão, estudou em Oxford na juventude e tornou-se comandante da marinha britânica. Seu histórico de missões durante a Segunda Guerra Mundial fez com que fosse recrutado pelo serviço secreto, atuando durante a Guerra Fria.  
 
Praticamente nada disso existe mais. Sendo um personagem atemporal, é natural que Bond se adapte a cada ciclo histórico. Obviamente o Bond de Connery não viveu na mesma época que o Bond de Brosnan, um agente do mundo pós-queda do Muro de Berlim e, depois, pós-11 de setembro. Contudo, essa é a primeira vez que a adaptação significou recriação. O proto-Bond de Craig é apenas um sujeito forte, inteligente e egocêntrico que o MI6 recrutou, justamente por ele não dar muito valor à vida, sendo propenso a aceitar as mais perigosas missões. Esse Bond-bizarro mastiga de boca aberta, é incapaz de escolher um smoking, tem paladar de hiena, não difere um martíni com vodca batido de um mexido, e é extremamente antiprofissional, chegando ao absurdo de invadir a residência de sua chefa, só para mostrar que é capaz de fazer. Em suma, um menino mimado, metido a rebelde. Depois ainda dizem que essa “reinvenção” prima pelo realismo. Se um agente como ele existisse no mundo real, seria rapidamente afastado. Aqui ocorre o contrário: M, novamente vivida por Judy Dench, trata Bond como se fosse uma mamãezinha preocupada com o filhinho peralta, perguntando-se se ele levou o casaquinho em sua última missão suicida. Lamentável! 

 A justificativa oficial para tamanho despreparo seria o fato de tratar-se de um Bond em formação. Que ele vai assumir as características clássicas ao longo dos próximos episódios. Absurdo! Que tipo de incompetente ainda está em formação próximo dos quarenta anos de idade? Craig tinha 38 anos quando assumiu o papel. Vale lembrar que Connery contava apenas 32 em sua estréia. Moore tinha 46, Dalton 45 e Brosnan 42. Niven, aos 58, interpretou um Bond aposentado. 
 
Se o personagem de Craig se modificar tanto nos próximos filmes, a ponto de lentamente metamorfosear-se de hooligan à lorde, vai significar que sua sofisticação não é natural. É apenas um disfarce com o qual procura se mesclar na alta sociedade. O que implica em deduzir que seu Bond não passa de um novo-rico deslumbrado.
 Claro que nem tudo é ruim. A abertura em preto e branco de “Cassino Royale”, mostrando os primeiros assassinatos do espião é muito boa e convincente. Até o efeito “gun barrel” fora do usual foi justificável. Da mesma forma, algumas modificações são irrelevantes, como jogarem pôquer e não bacará no cassino. Porém, é injustificável a falta de alguns dos coadjuvantes tradicionais, como o gênio inventor Q e Moneypenny, a secretária particular de M, celebrizados por Desmond Llewelyn e Lois Maxwell. Não existe justificativa para suas ausências. Judy Dench está sempre acompanhada de um cortejo, Moneypenny não apenas poderia como deveria estar ali.

Provavelmente, Q foi o criador do celular multifuncional que Bond carrega, além do aparelho que usa para reverter um ataque cardíaco, em “Cassino Royale”. Por que não é ele o agente que ajuda o espião operar a máquina? Não ocorreu algo tão obvio aos roteiristas? Depois ainda ganham milhões para escrever os scripts! 
 
Pelo menos tiveram o bom-senso de manter Felix Leiter, o agente da CIA que eventualmente colabora com Bond. Como manda o figurino, 007 dirigi um Aston Martin e a arma que usa é a boa e velha walther ppk (nos livros Bond carrega uma beretta calibre 22). Aberturas bregas e animadas, músicas temas feitas sob encomenda para tocar no rádio. Diante do fiasco criativo reinante, podemos ficar felizes com a inclusão desses detalhes. 
 
Por outro lado, privaram esse estranho Bond do século XXI de uma de suas maiores características: sua obsessão por mulheres. É praticamente assexuado. Apesar de estar sempre fazendo biquinho, raramente é visto em ação. Não que não apareçam bond girls. Elas existem, mas são quase ignoradas. Quando 007, finalmente, parece interessar-se por uma delas, embarca em uma paixonite adolescente a Romeu. Cogita abandonar a espionagem para viver as custas do trabalho de contadora de sua Julieta, Vesper Lynd.  Das duas uma: trata-se de uma concessão às feministas, que sempre protestaram contra a misógina do personagem, ou o novo Bond é tão novo, tão diferente, que é um homossexual enrustido. A cena em que sai da água no melhor estilo “fortão de São Francisco”, numa citação obvia à lendária primeira aparição de Ursula Andress em “Dr. No”, não deixa de ser uma chave interpretativa. Susan Sontag observou argutamente, no ensaio “Fascinante Fascismo”, parte integrante da ótima coletânea “Sob o Signo de Saturno”, que manifestações deliberadas de hiper-masculinidade quase sempre produzem a sensação de seu inverso. Parece estranho, mas não é impossível, considerando que, em uma entrevista de divulgação, Craig afirmou que mudanças são sempre bem-vindas é que já está na hora de termos um Bond gay. Será que falava dele mesmo? Se for, deixemos os preconceitos arcaicos de lado e gritemos a uma só voz: sai do armário James!  

Bookmark and Share

Comentários (1)

  • Excelente artigo esse, mas contém alguns erros: ↓

    01) Connery já não estava tão velho em Os Diamantes São Eternos, e aliás, mais velho do que Roger Moore em seus últimos filmes de 007 (com todo o respeito!), creio já ser impossível...

    02) Roger Moore é ruivo, não loiro (apesar disso, o mesmo tingiu seu cabelo)!

    03) Nunca Mais Outra Vez é de 1983, agora, se vocês sabem que foi um filme feito por jurídicas batalhas, porque dizem ter sido dispensável?

    04) Permissão Para Matar foi um filme de mediana bilheteria, mas a crítica falou dele bem o bastante em sua época...

    05) Quando vocês dizem que foram mais 06 filmes depois de Viva e Deixe Morrer, logo após mencionarem mais 02 filmes, dá a impressão de que Moore fez mais do que 07 filmes como 007, expliquem melhor que foram mais 06 filmes após Viva e Deixe Morrer...

    06) "GoldenEye" foi escrito como "Goldneye", vocês erraram a grafia do nome do filme!

    Bom, por hora, é apenas isso, podem crer?

    10 meses atrás por Sávio.


*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio