POR TÚLIO MOREIRA ROCHA
EM 09/10/2009 ÀS 02:15 PM
Febre de juventude
publicado em filmes

Universitários fritos têm muito a dizer. “Apenas o Fim”, roteiro e direção de Matheus Souza, comprova a aptidão dos jovens para a inventividade e a capacidade de encontrar soluções simples. Primeiro filme do estudante de 20 anos, feito com a ajuda de amigos do curso de cinema da PUC-Rio, o longa se estrutura basicamente no diálogo entre dois namorados em vias de separação. Ela vai abandonar a vida no Rio de Janeiro e partir para algum lugar secreto. Ele teve de abrir mão de uma prova da faculdade para desfrutar a última hora com sua garota. O cenário é um só: o câmpus da universidade.
Esse estilo de narrativa não é novo. Filmes como “Eu Sei Que Vou Te Amar” (Arnaldo Jabor, 1986) e “Antes do Amanhecer” (Richard Linklater, 1995) são inteiramente sustentados pela conversação entre dois personagens, mas “Apenas o Fim” se diferencia desses exemplos quando analisado pelo viés da espontaneidade do diretor de primeira viagem. É intensamente percebido como resultado da constatação de que é possível finalizar um longa-metragem quando se tem uma boa história, amigos que sabem atuar e um câmpus imenso com infinitas possibilidades de locação.
Pontuados por temáticas nerds e cults, como os filmes da saga “Star Wars” ou os personagens da série “Power Rangers”, os diálogos causam empatia imediata no espectador. São simples e objetivos, como é a linguagem cotidiana dos jovens. Nomes como McDonald's e Kinder Ovo são pronunciados sem qualquer constrangimento ou preocupação com marketing involuntário. A naturalidade pulula na tela. Diante desse conjunto altamente favorável e convidativo, a identificação com os personagens, a câmera e os cenários de “Apenas o Fim” é automática.
Ao acompanhar o casal numa conversa marcada pelas lembranças e confissões, o filme remete à capacidade do cinema de nos envolver em situações que estamos cansados de presenciar, sem maior interesse, no dia-a-dia. É comum ver namorados alheios discutindo pelos corredores da faculdade, no meio da rua ou dentro do ônibus. O que o cinema faz é dar textura e sabor a essas histórias ordinárias. Isso é evidenciado pelos figurantes que passam na frente da câmera de “Apenas o Fim” enquanto os namorados conversam. O tempo todo passamos na frente de cenas assim e não nos retemos. O cinema tem o poder de despertar nosso instinto de voyeur, adormecido pelo corre-corre das grandes cidades. Os personagens de Erika Mader e Gregório Duvivier se tornam tão íntimos do espectador que logo nos vemos torcendo por algum desfecho feliz.
O final feliz é uma possibilidade remota aqui, praticamente descartada já nos primeiros acontecimentos do filme. Trata-se de um relacionamento que, assim como algumas sequências distorcidas ao longo da projeção, está se tornando uma imagem mal sintonizada de TV. E o fim só precisa ser o fim, mas é muito difícil apenas dizer que o amor acabou. A melancolia dos minutos finais provoca uma série de “últimos”: o último filme que assistiram juntos, o último presente, o último beijo, o último adeus. São muitos, mas que não garantem a durabilidade dessas lembranças na memória dos dois.
“Apenas o Fim” é, a partir daí, sobre as incertezas que se seguem ao término e o medo dos protagonistas de se tornarem, alguns anos adiante, dois desconhecidos, envolvidos com outras pessoas e com novas preocupações e problemas. É como se fosse mais cômodo nunca chegar ao fim: pouparia o esforço de tentar manter as memórias dos melhores momentos acesas, e é isso que todo mundo pondera antes de tomar uma decisão como essa. Talvez por isso poucas vezes predomina no filme a “atmosfera” do fim. Eles preferem conversar sobre banalidades, jogos de videogame ou canções preferidas, como se no dia seguinte fossem se encontrar novamente, no mesmo bat-horário e bat-local. E é exatamente por essa aparente descontração que o espectador sente um desconforto gritante quando a ficha cai e os personagens desabam.
A música que encerra o longa é justamente sobre a insegurança desse(s) futuro(s), e é impossível não tentar imaginá-lo(s) durante as melancólicas cenas de flashback em split screen (tela dividida), técnica muito bem empregada por Matheus. A fuga, os desencontros, os clichês do começo-meio-fim, deixam tanto personagens quanto espectador um pouco tontos, como se a câmera rodasse sem parar na busca de algum sentido para o substantivo fim (termo, cabo, remate, conclusão). Morre o amor e segue a vida. Esse pode ser o tema de um filme que está sendo gravado no pátio da faculdade ou de uma conversa entre duas pessoas num banco de praça. É o destino de amores sintonizados em alguma frequência prestes a desaparecer.





