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POR EM 08/12/2008 ÀS 04:13 PM

Dois mundos à revelia

publicado em

A câmera de Cláudio Assis incorpora a face estática da cidade. Ao invés de movimentos rápidos dos filmes de traficantes e favelados, o enquadramento é fixo. Não há zoom, travelings, cortes bruscos, edição de vídeo clip, padrão publicitário. Assis se afasta da “cosmética da fome” dos filmes brasileiros de hoje. A cidade criada por ele não está no sertão longínquo, é pobre e possui telefonia celular 
 


 

“Baixio das Bestas” (2007), de Cláudio Assis, começa com as imagens de uma usina de cana-de-açúcar vazia e em ruínas. Enquanto os quadros se sucedem, uma voz em off (a única dos 117 minutos do filme) faz considerações a respeito da decadência do local e termina a divagação com a frase “o tempo engole a usina”. A seqüência deixa claro que estamos vendo o fim de uma época na zona canavieira de Pernambuco, assim como se esgotou a fase dos engenhos na virada do século XIX a XX.

O declínio do engenho foi cenário, nos anos 1930, para o romance de José Lins do Rego e o ensaio sociológico de Gilberto Freyre. Ambos criaram um olhar nostálgico de um ciclo histórico que terminava com a instalação das então modernas usinas. No filme de Cláudio Assis, ao contrário, não existe espaço para busca do tempo perdido. A modernidade dessa região não se completou e deixou os restos materiais (usina) de um arcaísmo que contraditoriamente persiste intacto nas relações humanas.

A cena seguinte do filme mostra uma mulher nua e iluminada na escuridão de outro lugar em pedaços. Mais um pouco e descobre-se que a personagem também está numa construção em ruínas. A câmera se afasta lentamente e expõe a platéia de homens a observar a cena de nudez. Um senhor velho está sentado ao lado da mulher. No plano final, as lentes se voltam para cima e focalizam uma cruz. Trata-se afinal de uma igreja abandonada que serve de palco a um espetáculo grotesco.

A mulher chama-se Auxiliadora, nome de santa, e saberemos que ela ainda é virgem, numa alusão à narrativa bíblica. Quase todas as noites, o avô Heitor leva a neta Auxiliadora à igreja velha. Os caminhoneiros pagam à dupla somente para observar a adolescente sem roupa e ter o direito de tocá-la rapidamente. A personagem fica de pé numa parte das ruínas que é a antiga sacristia. Ocorre a profanação do corpo de uma virgem no lugar onde deveria estar uma imagem sagrada.        


Em poucos minutos, Cláudio Assis apresenta seu universo muito particular, já visto em “Amarelo Manga” (2003). O novo filme transcorre na cidade onde nada há mais religiosidade e no espaço decadente da cana nordestina. Seria possível pensar que aquela pequena cidade caminha rumo à modernidade ao remover os traços antiquados. O romance regionalista de 1930 e o Cinema Novo focaram a dissolução positiva desse mundo. Mas o movimento negativo é a tônica de “Baixio das Bestas”.


A câmera de Cláudio Assis incorpora a face estática da cidade, que tudo indica se localiza próxima a Recife. Ao invés de movimentos rápidos dos filmes de traficantes e favelados, o enquadramento é fixo. Não há zoom, travelings, cortes bruscos, edição de vídeo clip, padrão publicitário. Assis se afasta da “cosmética da fome” (no conceito de Ivana Bentes) dos filmes brasileiros de hoje. A cidade criada por ele não está no sertão longínquo, é pobre e possui telefonia celular.

O filme avança e apresenta os personagens Cícero e Everardo. É dupla de não-miseráveis e, como o avô que explora a nudez da neta na igreja, igualmente sórdida. Os dois passam o dia num velho cinema em ruínas. Na cena de maior impacto, eles fecham o prostíbulo local para uma festa. Difícil saber se mais violento é a imagem ou o diálogo dessa seqüência. No final das contas, a cidadezinha de “Baixio das bestas” é o oposto do porto seguro sertanejo de “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr.

Numa passagem, Cícero diz o quanto admira a formação educacional, as leituras e a inteligência de Everardo, que é o descendente clássico da casa grande. Este responde ao amigo que ele está enganado e acredita ser apenas um “cínico e arrogante”. Tais falas minúsculas, quase aforismos, marcavam “Amarelo Manga”, ambientado na periferia de Recife, e ganham mais força agora. Imagens e texto se juntam na visão demolidora do Nordeste brasileiro em sua fase pós-moderna e de globalização.


 O que faria um escritor ou cineasta goiano se decidisse focalizar o agronegócio da soja e também da carne bovina? Como representaria personagens que enriquecem com o campo pós-moderno e os que vivem à margem? Por conta da atividade rural, Goiás é uma região amplamente conectada à globalização. Cláudio Assis esmiuçou a sociedade nordestina do litoral (“o sertão vai virar praia”, dizia Antônio Conselheiro) no momento em que a velha cana volta a ser a modernidade.
 

II

A cidade do interior é associada ao Brasil profundo, um país onde as pessoas trabalham muito e sofrem nas mãos de exploradores. Por muito tempo, sobretudo nos anos 1960, acreditou-se na superação dos arcaísmos, na modernização e na manutenção do espírito do homem simples. O romance nordestino de 30 representou justamente uma tomada de “consciência do atraso”, na periodização feita por Antonio Candido. Era um mundo a ser superado pelos valores urbanos e modernos.
 

“O Céu de Suely” (2007), de Karim Aïnouz, é a narrativa do retorno da Hermila ao interior do Ceará. Nas primeiras cenas, ela rememora um encontro com o namorado, que ficou em São Paulo e é pai de seu filho. Mãe e filho estão num ônibus a caminho de “casa”. É lá que espera viver a tranqüilidade interiorana. Como no final de “Central do Brasil”, a personagem busca o paraíso perdido no sertão. A diferença será a mudança de perspectiva ao longo da narrativa que leva a personagem a fugir de novo.

A cidade de “O Céu de Suely” é repleta de motocicletas e motoboys, o que a aproxima do modelo das grandes metrópoles. Essa figura é o trabalhador hiper-flexível e móvel bem ao gosto da globalização. Não existem mais homens que andam a cavalo e cuidam da lavoura e do gado. Estamos num ambiente de símbolos urbanos como a televisão e os telefones. O que caracteriza o local é a estagnação, o girar em falso, o mesmo tempo morto que se vê em “Baixio das Bestas”.
 
 

A solução encontrada por Hermila é ir embora o mais rápido possível daquele marasmo, de preferência para um destino bem distante. Aïnouz aponta a saída positiva que é impossível no cinema de Assis. O ponto chave do filme é a escolha de Hermila: fazer uma rifa na qual o prêmio é uma noite de sexo para o ganhador e usar o dinheiro para a viagem. Nesse ponto, a esperança se vai. Numa leitura alegórica, pode-se notar a alusão ao Brasil que se rifou todo durante a década de 1990.

Recentemente, Lúcia Nagib fez uma análise do cinema brasileiro que descreve a passagem da utopia dos anos 1960 para a distopia atual. Virou lugar comum dizer que vivemos tempos pós-utópicos. Qual é o horizonte vislumbrado por “Baixio dos bestas” e “O Céu de Suely”? O mundo à revelia, como também mostram Luiz Ruffato e Marcelino Freire na literatura. Não se trata de um mundo qualquer, mas brasileiro e com traços históricos bem definidos. 
   


 
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