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POR EM 20/11/2009 ÀS 08:17 PM

Corpos debaixo do tapete

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A história oficialEm 17 de outubro de 1979, a ditadura argentina sequestrou o casal Guillermo Amarilla e MarcelaMolfino, que estava grávida. O filho acabou nascendo no ano seguinte nos porões dos militares, onde os pais desapareceram de qualquer registro e engrossaram a lista de corpos ausentes. A identidade da criança foi revelada no começo deste mês, e descobriu-se que Martin é a 98ª criança que nasceu e teve a mãe assassinada pela ditadura argentina.

Luiz Puenzo revelou as situações de crianças como Martin no filme “A História Oficial”, em 1985. A repercussão mundial foi enorme. O filme conta o drama de uma mãe e professora de História que, certo dia, começa a perguntar ao marido o local de nascimento de sua filha adotiva. Começa então uma busca pela história daquela criança. O horror está na descoberta de que se trata de uma dos bebês de militantes de esquerda e desaparecidas.

A cena que fecha “A História Oficial” é uma síntese de como os países da América Latina evitam fazer o acerto de contas com o passado. Chile e Argentina possuem uma briga ferranha sobre o tema. Já o Brasil tenta apagar e esconder tudo debaixo do tapete. Torna-se um o país do eterno “não me lembro”. O filme de Puenzo termina com a criança sem passado cantando: "En el pais de no me acuerdo, doy tres pasitos y me pierdo".

O tema dos desaparecidos é um tabu político no Brasil – principalmente nos meios de comunicação que criam infâmias na linha de "ditabranda". Também coube à literatura e ao cinema tocar no assunto. O filme “Zuzu Angel” (2006), de Sergio Rezende, conta a história da famosa estilista de moda que perdeu o filho nos porões brasileiros. Acabou ela mesma sendo assassinada, num episódio em que se reconheceu a responsabilidade dos “oficiais” .

O documentário “Perdão, mister fiel” (2009), de Jorge Oliveira, traz um depoimento de um ex-agente da ditadura que fala do destino dado ao deputado Rubens Paiva, um dos mais conhecidos desaparecidos políticos. Para sumir com o corpo dele, os militares o esquartejaram numa prática próxima da violência urbana de hoje. A ditadura militar brasileira deixou duas heranças: a tortura dos porões e a gestão de violência nas grandes cidades. No país do “não me lembro”, os comunistas (antes) e os pobres (hoje) são o alvo preferencial das armas dos policiais.

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