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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:32 PM

Clube do (para) imperador (es)

publicado em

Ser aceito em St. Benedict´s é uma honra e, não raramente, um valor familiar. Seus alunos são dedicados, respeitadores e estudiosos. Não existem problemas sérios no mundo de “O Clube do Imperador”. Nem mesmo racismo ou violência estudantil típica. Há negros, orientais e latinos em St. Benedict´s e todos se dão bem. Um paraíso na Terra

O longa-metragem “O Clube do Imperador”, dirigido por Michael Hoffman e estrelado por Kevin Kline, faz parte de um conhecido subgênero hollywoodiano: os filmes para ou sobre professores. O clássico maior é “Ao Mestre Com Carinho”, seguido imediatamente por “Sociedade Dos Poetas Mortos”. Existem outros de menor importância como “O Preço do Desafio”, “Escritores da Liberdade”, “Meu Querido Professor”, “Curso de Verão”, “Um Diretor Contra Todos”, “Mentes Perigosas” etc, etc, etc. De modo geral, essas obras apresentam similaridades: quase sempre mostram um professor dedicado, porém vivendo uma crise pessoal ou profissional, lecionando para uma turma de algum modo problemática. Ou por serem desordeiros, como em “Ao Mestre Com Carinho”, ou por estarem intelectualmente engessados no tradicionalismo intrínseco de suas escolas, como em “Sociedade Dos Poetas Mortos”. Via de regra o tal professor, sempre um colosso de erudição e carisma, conquista a sala e, mostrando o valor do conhecimento, ajuda a transformar seus alunos em pessoas melhores, ao mesmo tempo em que conhece mais sobre si mesmo.

Em “O Clube do Imperador” não existe nada disso. Para começar, o protagonista do filme, o professor Willian Hundert, vivido por Kline, está no topo da carreira. Leciona no internato para rapazes St. Benedict´s, uma escola não apenas de elite, mas uma escola para a elite da elite da elite norte-americana. De seus bancos saem os futuros homens de negócios e políticos que comandarão a vida pública e a economia do país e do mundo. Alguns presidentes estudaram lá. Ser aceito em St. Benedict´s é uma honra e, não raramente, um valor familiar. Seus alunos são dedicados, respeitadores e estudiosos. Não existem problemas sérios no mundo de “O Clube do Imperador”. Nem mesmo racismo ou violência estudantil típica. Há negros, orientais e latinos em St. Benedict´s e todos se dão bem. Um paraíso na Terra.

O elemento que vai impulsionar o enredo do filme, a luta de egos entre Hundert e Sedgewick Bell, um de seus alunos, é um caso isolado, meramente pessoal. Chega a ser pueril. O final moralizante, quando Hundert conclui que “o valor de uma vida não é determinado por um único fracasso ou sucesso solitário”, não vai muito além de filosofia de almanaque. Justamente por isso, diferentemente da maioria dos “filmes de professor”, o marco temporal representado pelos acontecimentos do filme não representam mudanças especificas para a pedagogia existente em St. Benedict´s. Se no final do filme vemos meninas sentadas nos bancos ao lado de meninos é simplesmente porque o mundo evoluiu e a escola acompanhou, modernizou-se.

Modernizou-se, mas não mudou seus métodos. Em certa cena, gracejando acerca dos tipos de governos existentes na Roma Antiga, Hundert define sua visão de ensino: “Tirania é o que temos nessa sala, é funciona”. Diferente da imensa maioria dos mestres histriônicos e revolucionários comumente retratados na maioria dos “filmes de professor”, o modelo pedagógico de Hundert é conservador. Um modelo velho e seguro, como as fichas que utiliza nas duas versões da gincana de perguntas que comanda ao longo do filme. 25 anos depois as mesmas fichas são usadas. Estão amareladas pelo tempo. O que não significa que ele seja um mau professor. Pelo contrário, é ótimo naquilo que se propõe. Se for um tirano é também um rei sábio, segundo o modelo de Platão. Permite-se teatralidade, mas de maneira sóbria. Hundert jamais subiria em cima da mesa, como fez seu colega John Keating, interpretado por Robin Williams em “Sociedade Dos Poetas Mortos”. Prefere vestir-se e vestir seus alunos com uma toga, para poder ensinar o valor simbólico da estranha vestimenta romana. Hundert não aprova o hedonismo individualista contido no “carpe dien” (aproveite o dia) de Keating. Os lemas latinos de St. Benedict´s são outros. “Finis origine pendet” (o fim depende do início) e “non sibi” (não para si). O dia deve ser aproveitado para estudar, aprender para o futuro. Seu futuro e de sua comunidade. Hundert não pretende fazer de seus alunos cidadãos críticos ou livres pensadores. Essas categorias são fenômenos da classe média. Não é o público da escola. Seu objetivo é formar uma elite consciente de sua condição de elite e ciosa de suas responsabilidades. Por isso é obcecado por ordem, disciplina, senso cívico. A educação que transmite inspira-se no conceito de “Paidéia” grega, a doutrinação pelo exemplo do mais velho aos mais jovens. Por isso permite-se ser também um sujeito legal que joga bola com os alunos. Mas mesmo por trás da brincadeira existe uma lição: “corpo são em mente sã”.

Chama atenção a fato de que em suas aulas os alunos já sabem a matéria. Todos já leram o capítulo referente. Eles apenas repassam, ordenam o conteúdo conhecido. Ao corpo discente de St. Benedict´s interessa adquirir erudição que os faça ser aceitos em Harvard ou Yale. Essas universidades representam o atalho que os ajudarão a seguir os passos dos pais. “Caminhe onde caminharam os grandes”, ensina Hundert. Ganhar o título de Senhor Júlio César ajuda, é claro. Fica bem no histórico, além de ser bom para auto-estima. Afinal, “O Clube do Imperador” trata de meninos que serão “imperadores”.

A disciplina que Hundert leciona é Antigüidade Clássica. Para ele pouco importa se seus alunos problematizam o que ensina, basta que decorem, que tenham na ponta da língua centenas de datas, fatos e nomes da História grega e romana. Reflexão não consta no currículo básico de St. Benedict´s. Pode até eventualmente surgir, mas não é prioridade. Isso fica claro na cena em que Hundert critica o semi-esquecido rei Shutruk-nahunte por ter acumulado poder, vencido batalhas, sem ter feito nenhuma contribuição mais duradoura. Logo em seguida cita Júlio César como um exemplo de “homem de profundo caráter”. Caráter que o transformou em um gigante da História. Não é preciso ser um erudito para saber que César, sem questionar sua importância histórica, foi um demagogo ambicioso e populista, assassinado em nome da democracia. Os alunos de Hundert sabem tudo sobre César, quando nasceu, quando morreu, quantos golpes de punhal recebeu, quais cargos ocupou, quem e quando venceu etc, etc, etc. Sabem tudo isso e mesmo assim não seriam capazes de responder verdadeiramente a pergunta: “quem foi Júlio César?”. Mas enfim, quem pode?

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Comentários (1)

  • Ademir,boa tarde,

    Recentemente assisti a esse filme. Confesso que não fui tão longe em minha leitura de mais um filme sobre alunos e mestres, em uma escola tradicional e que tenha a responsabilidade de manter o status quo por gerações. Mas, sim o questionamento sobre como as sociedades pós -modernas estão carentes de valores universais que foram tão bem apresentadas pelo professor Hundert.

    Mais simples,nem por isso menos complexo. Como educar nossos jovens?. Na época do jeitinho,onde tudo é mais ou menos certo , com tanta tolerância a homens no poder sem nenhuma descencia?.Na decadência das Instituições.

    A Filosofia é o estudo do pensamento e abre espaço para uma análise critíca e debates.

    A História é baseada em fatos e datas.


    Um abraço
    Luciana Castro

    2 anos atrás por Luciana Castro


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