A Alemanha morta-viva de Murnau
Murnau fez de seu protagonista uma criatura abominável, sem nenhum apelo erótico tradicional. Altíssimo, esquálido, com dentes, orelhas e nariz pontiagudos, mãos como garras e gestos duros, esgueirando-se pelos cantos. Suas imagens mais icônicas são sombras alongadas, desfigurando seu já monstruoso corpo. Longe do glamour de seus sucessores, da sofisticação de Bela Lugosi, do charme sinistro de Christopher Lee ou do ar trágico e principesco de Gary Oldman. Schreck é um roedor-humano

Se “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene, lançado em 1920, é considerado o marco inicial do cinema expressionista alemão, “Nosferatu”, de F. W. Murnau, é sua obra-prima máxima. É impossível separar esse movimento artístico do ambiente sócio-político da época. A Alemanha vivia tempos difíceis. A Primeira Guerra Mundial havia sido perdida, instalava-se a frágil República de Weimar, o país estava em ruínas, humilhado pelo Tratado de Versalhes, sofrendo uma inflação gigantesca. Dura realidade que levou os cineasta a voltarem-se ao onírico.
Esteticamente, o Expressionismo alemão caracterizou-se pela distorção voluntária dos cenários e dos gestos dos personagens, por meio de recursos de maquiagem e fotografia. Propunha um retorno ao gótico e ao sobrenatural, em discordância ao racionalismo moderno. Promovia a priorização do “eu”, a desconstrução da realidade sensorial, um mergulho no inconsciente, ainda que fosse para revelar medos e distorcidas visões de mundo. A influência da pintura de Van Gogh é reconhecida em sua arquitetura e direção de arte. Pretendia-se expressar os sentimentos dicotômicos do povo alemão naqueles tempos de crise. Não surpreende que suas principais obras foram filmes de horror.
“Nosferatu, eine symphonie des garuens” é uma adaptação não-autorizada do romance epistolar “Drácula”, lançado pelo escritor irlandês Bram Stoker em 1897. Para evitar embargos legais, o produtor Albin Grau ordenou a modificação dos nomes dos personagens, a data (1838) e o local da ação. O conde Drácula tornou-se conde Orlock, Londres converteu-se em Bremen e Transilvânia, na Romênia, passou a ser indicada como “algum lugar dos montes Cárpatos”. A manobra desonesta foi mal-sucedida. Quando o filme entrou em cartaz, Florence Stoker, viúva do autor, acionou a justiça, exigindo a proibição de exibições públicas do filme. Venceu a contenda e, em 1925, a maioria das cópias foi recolhida e destruída pelo fogo; como, aliás, convém a um filme de vampiro. Censurado, pouco visto e muito comentado, “Nosferatu” tornou-se uma lenda.
Diversos mitos, entre absurdos e curiosos, foram criados sobre a produção. O mais radical deles sugere que o protagonista, Max Schreck, era um vampiro verdadeiro encontrado por Murnau, que trabalhava em troca de sangue fresco. Schreck, em alemão, significa “visão assustadora”. Em 2000 foi realizado “A Sombra do Vampiro”, um interessante longa-metragem contando os bastidores de “Nosferatu”, com John Malkovich fazendo Murnau e Willem Dafoe como o vampiro real interpretando a si mesmo no cinema. Puro delírio, é claro. Na verdade, Schreck era um dos mais requisitados atores germânicos da época. O nome do vilão de “Batman, o Retorno” (1992), de Tim Burton, um notório admirador do Expressionismo, é uma homenagem direta ao ator. Mas o fato é que sua agenda lotada alimentou outra lenda, na qual o Orlock da maioria das cenas não foi feito por Schreck, mas por um não-creditado Hans Ramo, roteirista amigo do diretor. Um dublê de corpo. Quem sabe?!
Apenas na década de 1960, o filme foi liberado para o grande público, com os títulos de “Dracula” ou “Terror of Dracula”. Suas legendas foram reescritas de modo a identificar os personagens com seus respectivos nomes determinados pelo romance de Stoker. O relançamento de “Nosferatu” inspirou o cineasta alemão Werner Herzog, numa experiência pouco comum, a refilmar quase quadro a quadro o original. O resultado foi o igualmente brilhante “Nosferatu - phanton der nacht”, de 1979, com Klaus Kinsky no papel principal.
A psicanálise influenciou fortemente os expressionistas. O próprio Sigmund Freud analisou a mitologia vampirica, uma obsessão européia na virada do século XIX para o XX. Se na Idade Média o vampiro era temido como um anjo da morte, na recatada Era Vitoriana representava, sobretudo, uma ameaça à moralidade pública. Um incubu, um demônio erótico, sobrevivendo da energia sexual de suas vítimas. Segundo Freud, as histórias de vampiro refletem o universo inconsciente da sexualidade infantil perversa. Um típico caso de Complexo de Édipo. Drácula assume a posição de uma figura paterna de grande poder que castra os outros personagens, dominando-os por meio de atos de incesto, necrofilia e sadismo, caracterizados por fixações orais. Pivô de um heptágono amoroso com Mina, Jonathan, Lucy e seus três pretendentes nas outras pontas, a união final de todos contra o vampiro representa a reação do senso burguês de sexualidade saudável, baseado na submissão feminina e no casamento monogâmico, contra o caos provocado pela luxúria libertina do aristocrata morto-vivo. Jung, principal discípulo de Freud, indicou o interesse universal pelas lendas de vampiro como sinal de sua natureza arquetípica. O vampiro encarna o que Jung chamou de “sombra”, aspectos de nossa personalidade que o ego se recusa a reconhecer.
A relação entre vampirismo e sexualidade, sedução e violência, é evidente. Sangue, mordidas na jugular, sífilis, HIV etc. Nesse sentido, é fundamental destacar que Murnau fez de seu protagonista uma criatura abominável, sem nenhum apelo erótico tradicional. Altíssimo, esquálido, com dentes, orelhas e nariz pontiagudos, mãos como garras e gestos duros, esgueirando-se pelos cantos. Suas imagens mais icônicas são sombras alongadas, desfigurando seu já monstruoso corpo. Longe do glamour de seus sucessores, da sofisticação de Bela Lugosi, do charme sinistro de Christopher Lee ou do ar trágico e principesco de Gary Oldman. Schreck é um roedor-humano. A palavra “nosferatu” deriva do grego “nosohoros”, ou “portador de pragas”. Sua chegada em Bremen é anunciada por uma praga de ratos e, conseqüentemente, uma epidemia da Peste. Notadamente, em 1838 realmente ocorreu um surto da doença nos principados alemães. Um desalentador sopro de Idade Média na terra que lutava para modernizar-se, no rastro da Europa industrializada do oeste.
O confronto entre tradição e modernidade é o principal tema de “Nosferatu” e do Expressionismo como um todo. Orlock / Drácula é um nobre decadente que vive sozinho em seu castelo, aterrorizando os camponeses da região. No condado que comanda sua autoridade é absoluta. Quando se muda para cidade vai habitar no que existe de mais próximo de seu mundo original: Carfax, um antigo mosteiro abandonado. Lugar escuro, em ruínas, onde esconde caixões cheios de terra dos Cárpatos. Precisa do solo onde seus antepassados pisaram para assegurar seu poder. O sangue plebeu apenas o mantêm vivo, o que lhe dá forças é o passado de sua linhagem. Seu sangue azul e a propriedade legal de vastas extensões de terra. Terra é riqueza, riqueza é poder. Um poder que a libertária burguesia urbana despreza por não conseguir reproduzir. Ao mesmo tempo, sua imortalidade em estado decadente de morto-vivo é uma metáfora da imortalidade precária de sua linhagem. Ser nobre não faz mais sentido em tempos de evolucionismo, marxismo, relatividade e psicanálise.
Seu mimesis é o professor Bulwar, o Abrahan Van Helsing de Stoker, um cientista. Representante dos novos tempos, onde o conhecimento substitui a superstição. Trata-o pragmaticamente, comparando sua espécie com uma planta carnívora, que deve ser estudada em laboratório. Não é o que acontece devido ao auto-sacrifício da mocinha do filme (Ellen Hunter / Mina Murray) que se entrega ao vampiro como forma de expiar o mal. Atraído pela falsa inocência de sua vítima, o vampiro vê-se encurralado e se deixa matar. Destruído pelo sol, pela época das luzes, pela modernidade, onde só poderia sobreviver na condição de excentricidade.
Não há registro no folclore vampirico europeu dessa tão popularizada vulnerabilidade ao sol. Aparentemente, foi uma invenção de Murnau. Quando uma idéia original se transforma em clichê é difícil determinar suas intenções iniciais, sobretudo no contexto do Expressionismo. É possível que tenha sido apenas uma forma rápida e eficaz de resolver o enredo, ou pode ser que expresse o desejo do cineasta de ver a Alemanha novamente iluminada, após a longa noite da Primeira Grande Guerra. Não há certezas. O certo é que o ciclo expressionista alemão, ocorrido no período entre guerras, prenunciou a hegemonia nazista. Hitler considerava o Expressionismo como arte decadente em seu desejo de enfrentamento das autoridades. A arte nazista era solar, simétrica, apolínea, neoclássica, exaltando o valor da coletividade. O pesadelo iria continuar em plena luz do dia.















