Encontros com Daniel Dennett e Woody Allen
Daniel Dennett nem parece que é mundialmente famoso nas áreas da Filosofia da Mente, da Ciência e das Neurociências. É simples, cordial e educado. Já com Woody Allen só consegui dizer: “Estou escrevendo um livro sobre você”, ao que ele retrucou, quase sem me olhar: “Que seja verdadeiro”
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Daniel Dennett
Nem parece que é mundialmente famoso nas áreas da Filosofia da Mente, da Ciência e das Neurociências. É simples, cordial, educadíssimo e sempre preocupado com seus "satélites" (eu, entre os muitos que orbitam em sua volta). Convidava-me para almoçar na cafeteria da universidade (única ocasião em que eu comia salada) com freqüência, sempre querendo se inteirar de meu progresso. Saí dali com ótima impressão.
É um materialista-ateu-evolucionista convicto. De dar gosto. Sua teoria da consciência, que se vale o tempo todo de experimentos em neurofisiologia visual (daí minha escolha), acaba se entrelaçando com sua teoria evolucionista das religiões e seu darwinismo xiita (quando xiita era sinônimo de radical). Oportunamente falarei aqui a respeito, mais aprofundadamente.
Boston
Sou um apaixonado pela cidade. Morei ali quando fiz meu doutorado-sanduíche (não é doutorodado "em" sanduíche, antes que alguém faça a piadinha, mas, sim, um tipo de bolsa do CNPq) em 1994—95 e decidi que, se voltasse, sempre que o fizesse, seria durante o outono, quando toda a região da Nova Inglaterra fica linda com árvores indo do amarelo ao vermelho, passando por diferentes tons de laranja. Além do tempo que é agradável ("agradável" em Boston é algo entre 15 e 20°C). O inverno é gelado demais, a primavera ainda é fria e o verão, por incrível que pareça, é quente demais.
Pelo visto, não sou o único apaixonado pela cidade. Há 14 anos havia uma colônia de brasileiros se formando em Massachusetts. Hoje tem brasileiro que não acaba mais. Como brasileiro é meio como americano, ou seja, nem sempre tem "cara de brasileiro", pode acontecer de você conversar bem uns 5 ou 10 minutos antes de perceber que estavam, você e seu interlocutor, valendo-se de sua segunda língua. Bizarro. (Outra característica de brasileiro é o sotaque indefinido. Um oriental ou hispânico falando inglês você reconhece imediatamente, de olhos fechados, mas, brasileiros, nem sempre).
Boston Symphony Orchestra
Aluguei um apartamento na Mass Ave., ao lado do Boston Symphony. Mas não deu pra ficar indo em tanta coisa assim. Fui à Sexta do Mahler (que nunca tinha ouvido), conduzida por ninguém menos que James Levine (ex-Metropolitan de Nova York) e a uma apresentação do trio do Keith Jarret (ele, Gary Peacock e Jack DeJohnette). Embora eu seja um adorador de ambos (Mahler e Jarret), o segundo superou o primeiro em muito. Não sei se é porque toda vez que ouço uma sinfonia do Mahler eu tendo a comparar com a terceira, que é divina, e a outra acaba perdendo força, ou se é porque o Jarret é mesmo sensacional. Concedeu vários bises (é assim mesmo?), pra desespero de minhas filhas (uma de 9 e outra de 5, como não tinha com quem deixá-las, acompanhavam-nos, a mim e a minha esposa, em tudo. Engraçado, que de minhas esquisitices, elas só não gostam de jazz. Até ópera elas suportam).
Broadway
Em compensação, lá fomos nós ver “Pequena Sereia” e “Rei Leão” na Broadway de Nova York (digo "de Nova York" por que há os shows que viajam — vimos “Chorus Line” em Boston, por exemplo). Embora sejam infantis, são muito ricos e dá pra um adulto gostar. Particularmente o “Rei leão”. Esse é impressionante, riquíssimo. Recomendo, se alguém estiver com planos de visitar a cidade.
Woody Allen no Carlyle
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De toda a banda, Woody é o que toca pior. O cara do banjo é fenomenal. Mas... quem se importa? Está todo mundo ali pra ver Woody (se em vez de tocar ele plantasse bananeira daria na mesma). Jazz de New Orleans (Dixieland Jazz) é meio que nem o nosso chorinho. Bonito, de grande valor histórico, mas se exauriu. Woody passa o tempo olhando pro chão, quando não está tocando, ou de olhos fechados, quando toca. De vez em quando olha pro cara do banjo para conversar. Só olhou pra platéia duas vezes, as duas na direção de minhas filhas, que eram bichos estranhos por ali (estávamos sentados na turma do gargarejo, a menos de 1 metro de distância dele). O lugar é bem pequeno, entendi porque as reservas são restritas. A melhor coisa do mundo foi chegar lá e passar na frente de uma fila de argentinos que não tinha feito reserva e pedia pelamordedeus pro maitre deixá-los entrar. Fiz a minha com meses de antecedência. No dia do show, passei numa livraria de peças de teatro, comprei umas peças dele pra autografar. Comprei também “November”, do David Mamet, mas não levei. Pois quem estava lá naquela noite? Ele mesmo, o David Mamet, que deu uma canja no piano.
Contei pro maitre que estava escrevendo um livro sobre Woody, e pedi sua ajuda para ver se ele autografava o livro (não meu, mas o dele). O maitre prometeu me ajudar. E ajudou mesmo. Só que ajudou mais um bocado de gente. Acabado o show, postei-me onde o maitre me indicou, mas, assim como eu, mais uma dúzia de pessoa. Quando Woody desceu deu de cara comigo e já sacou a caneta para autografar os livros (todo mundo teve a mesma idéia brilhante que eu). Enquanto ele autografava e minha esposa se esforçava por bater uma foto decente (nenhuma!), só consegui dizer: "Estou escrevendo um livro sobre você", ao que ele retrucou, quase sem me olhar: "Que seja verdadeiro". Quando eu ia explicar que não era biografia, que era sobre a filosofia dele, um bando de mulheres começou a beijá-lo na bochecha e gritar "We love you Woody", e... Pronto. Em menos de 30 segundos ela já ia embora.
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Enfim, é uma experiência da qual somente fãs bobocas de Woody (como eu continuo sendo) são capazes de gostar. Se quiser ouvir jazz de New Orleans vá a outro lugar maior e mais barato. Se quiser jantar bem, lá não é o lugar (foi o peixe mais insosso de toda minha vida). Arrependido? De jeito nenhum. Sou fã boboca, se esqueceram?
Boston Ballet
Fomos ver “Cinderella”, do Prokofiev. Confesso que tenho um certo bloqueio com Prokofiev desde que assisti “Love and Death”, do Woody (que usa Prokofiev o tempo todo). Nunca mais consegui levá-lo a sério (mesmo não tendo “Cinderella” fornecido qualquer música ao “Love and Death”). Ainda assim, bonito, rico. Na falta de ópera, vai ballet mesmo (não consegui flagrar nenhuma ópera enquanto estive lá).
Metropolitan ou Fine Arts
Sou suspeito, mas prefiro o Fine Arts de Boston do que o Metropolitan de Nova York. A galeria com os impressionistas do Fine Arts é de fazer perder a respiração. Mas sou suspeito.
Livros
A livraria da Harvard Coop, na Cambridge Square, em Cambridge, é um verdadeiro prazer sexual. Comprei um monte, mas a maioria a respeito do tema de minha pesquisa, não cabe discutir aqui. Mas comprei algumas peças que pretendo discutir aqui sim, oportunamente (“Equus”, “The Trial of God”, “November”, etc, ainda conversaremos a respeito oportunamente). Também uns filmes da BBC Films, de peças do Ibsen, Tchekhov e Becket, que eu namorava há muito tempo na Amazon e que agora tomei coragem pra comprar (quando se importa DVDs é uma aporrinhação, pois você tem de buscar no correio pra pagar o imposto, e a Receita Federal, espertamente, considera o total do recibo, e não o valor do bem. Por exemplo: se você compra uma caixa de DVDs por 50 dólares e paga 20 dólares de correio, a Receita te cobra o imposto dos 70, e não dos 50).
















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