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POR EM 15/05/2009 ÀS 09:27 PM

Questionário Proust: Nelson Moraes

publicado em

“Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores.  Há os que lutam muitos anos e são muito bons. O problema é que o juiz é comprado e o ringue é em Las Vegas”

Nelson Moraes 
                                                                                        
Nelson Moraes, 45 anos, é uma lenda entre os blogueiros brasileiros. Foi um dos pioneiros no Brasil. Bacharel em direito, ex-bancário, ex-professor, criou em 2002 o blog “Praia do Nelson”, que mais tarde se tornaria Ao Mirante, Nelson, em uma época em que os blogs eram apenas espaços confessionais, onde pessoas mantinham informações sobre suas vidas pessoais. Nelson Moraes fez o caminho contrário: escrevia (e continua) sátiras, paródias e ficção. Ganhou fãs, adeptos seguidores, e, sobretudo, um capítulo definitivo na história dos blogs brasileiros. Embora seu blog esteja hospedado em um grande portal — InterNey Blogs — ele é editado a partir de Goiânia, cidade em que mora desde 1968.


CW —  Onde começa sua genealogia?
 
Nelson — Em termos navais, começa com a linhagem de sir Horatio Nelson, no século XVIII, e as escapadinhas que ele dava entre um porto e outro. Agora falando sério, as origens terrestres incluem Bahia, Minas e Mato Grosso. Estou tentando traçar a árvore até hoje, mas botânica não é meu forte...
 
 
Qual a melhor definição de Nelson Moraes: um homem feliz, angustiado, mal-humorado, cheio de amor e compaixão, ou tudo isso ao mesmo tempo?
 
Nelson — Tudo isso ao mesmo tempo agora. Mas só até sábado.
 
 
Como foi sua vinda para Goiás?
 
Nelson — Em 68, o ano que — segundo o Zuenir Ventura — não acabou. Deve ser até por isso que vivo com a eterna sensação de recém-chegado. Um dia eu me aclimato de vez.
 
 
Como nasceu o “Ao Mirante”?
 
Nelson — Nasceu em 2002, como “Praia do Nelson”. Quando vi que isso parecia nome de resort de terceira em Trancoso, mudei o nome.
 
 
Qual ou quais os livros fazem ou fizeram sua cabeça?
 
Nelson — Todos os do Melville, alguns do Kafka, três do Camus, dois do Machado e um do Proust, mas não lembro qual.
 
 
Quais músicas compõem a sua trilha?
 
Nelson — Ella Fitzgerald cantando Cole Porter. O resto é o que couber no MP3.
 
 
Você mora em Goiás, exportamos pequi e música sertaneja. Pequi é comida? Música sertaneja é música?
 
Nelson — Pequi é comida para quem sabe mastigar. Música sertaneja é música para quem não sabe o que é música. E ei, não nos menospreze assim. Temos referências que já ganharam o país, como a Monstro Discos e a Revista Bula. Conhece?
 
 
Na internet, o que é pior do que o plágio?
 
Nelson — É não ser plagiado nunca.
 
 
A blogosfera é composta de muitas igrejas. Em qual delas você reza?
 
Nelson — Na que aceitar o dízimo pago via MasterCard. Pelo Itaú Bankline.
 
 
Um blogueiro genial?
 
Nelson Marconi Leal.
 
 
Um blogueiro chato?
 
Nelson — Nelson Moraes.
 
 
O blog do século?
 
Nelson —  O Manual do Minotauro, do Laerte.
 
 
 
Você é um grande leitor. Pergunto: quem é o escritor brasileiro? Quais suas qualidades e seus defeitos? Há uma crise criativa?
 
Nelson — Os bons escritores só aparecem quando há a crise criativa, pois é nela que ele se destaca do panorama desolador. Como nenhum escritor atual anda me entusiasmando, pela lógica então não estamos em uma crise criativa. Isso deve ter seu lado bom.
 
 
Artesanato é arte?
 
Nelson — Não. É comércio. Como você acha que o hippies comem?
 
 
O pior cego é o que nasce cego ou o que vira cego?
 
Nelson — É o que não se enxerga.
 
 
O que anda escutando? Música? Cds de auto-ajuda? O canto dos sabiás?
 
Nelson — “O trabalho era pra ontem, então por que ainda está em sua mesa?” Um megahit de autoria de meu patrão.
 
 
O que anda lendo?
 
Nelson — Bula. Tanto a revista quanto a do ansiolítico que o psiquiatra receitou.
 
 
Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
 
Nelson — Um blogueiro milionário.
 
 
Existe artista injustiçado? Há alguém insubstituível?
 
Nelson — Certos artistas são tão, mas tão ruins que precisam ser é justiçados. E a única pessoa insubstituível é sujeito que assina o cheque do meu salário.
 
 
A tragédia é uma vocação humana? Schopenhauer estava certo?
 
Nelson — Acho que Schopenhauer estava era fazendo tragédia.
 
 
Quais são os personagens históricos que você mais despreza?
 
Nelson — O rei Agamenon, Robespierre e Sérgio Mallandro.
 
 
Quem são seus heróis?
 
Nelson — Ainda não vi "Watchmen", mas acho a Espectral uma coisinha de louco.
 
 
Você concorda que "Ulisses" é livro do século?
 
Nelson — Os leitores do Paulo Coelho concordam que livros como “Ulisses” são o mal do século.
 
 
Se o que sobra da literatura é literatice. O que sobra dos blogs é bloguice, tolice ou bobice?
 
Nelson — Mesmice.
 
 
É possível ganhar dinheiro com blogs sem o suporte de um grande jornal como apregoam os gurus da blogosfera?
 
Nelson — Se você publicar seu blog em uma lan house e der um jeito de sair sem pagar, aí dá para ganhar dinheiro, sim. Ou pelo menos economizar.
 
 
O que a Internet fez com nossas vidas foi benéfico?
 
Nelson — Se você olhar pela ótica do Bill Gates, do Steve Jobs, do Sergei Brin e do Larry Page, foi extremamente benéfico para a conta bancária.
 
 
 O sol é para todos. A sombra só para alguns. E o subsolo?
 
Nelson — Para quem deixa o alarme do carro disparar durante toda a noite, para spammers de toda ordem e para o diretor do Big Brother Brasil. Não necessariamente nessa ordem.
 
 
Quem você mandaria para outro planeta?
 
Nelson — Qualquer extraterrestre que aparecesse por aqui. Eles não tinham lugar melhor pra freqüentar?
 
 
Qual epígrafe te acompanha?
 
Nelson — “Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores.  Há os que lutam muitos anos e são muito bons. O problema é que o juiz é comprado e o ringue é em Las Vegas”. 
 
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