Questionário Proust: Marconi Leal
"Não existe crítica no Brasil de hoje, não apenas a literária. A pouca inteligência que havia desapareceu da vida política, artística, jornalística etc. Você a encontra, esparsa, em blogs. Ironia, por exemplo, é um código que o brasileiro não maneja. Ele gosta de piada de corno ou de tese acadêmica"

Marconi Leal, por Marconi Leal
Nascido em 30/01/1975, no Recife. Caso os paulistas leiam a revista, talvez seja sensato adicionar: capital de Pernambuco. Estudou em colégio Marista quase a vida toda, o que explica uma série de problemas psicológicos e certa tendência ao espancamento de pessoas vestidas em batina. Trocou o catolicismo pelo marxismo aos 13 anos, e o marxismo pelo álcool aos 14. Nessa época, leu "A Náusea", o que abriu caminho para a leitura dos existencialistas franceses, além de explicar os restantes problemas psicológicos que possui. Usou drogas, com filmes de Arnaldo Jabor e livros de Bukowski, mas ficou curado ao entrar em contato com os ingleses.
Formação: Deformado. Apesar de ter feito o máximo para se formar em Letras, Jornalismo, Filosofia e Direito, em períodos diversos, ao longo de mais de doze anos, os cursos não mostraram a menor disposição de se adaptar a ele. Nos últimos quatro anos, fanático por mitologia clássica, resolveu bater Hércules e Sísifo em matéria de esforço, vivendo em São Paulo. Atualmente, desistindo da tarefa, reside no Rio de Janeiro, com o objetivo de se integrar a um estilo de vida mais simples entre os selvagens.
Profissão: Escritor brasileiro (risos) e tradutor. Livros: É autor dos infanto-juvenis: “O Clube dos Sete“, “Perigo no Sertão“, “O País Sem Nome“, "Tumbu", "Os Cavaleiros da Toca", entre outros. Só considera "Tumbu" digno de nota, mas se o governo quiser adotar todos em programas de incentivo à leitura, agradece. Contrato fechado e livro adulto já escrito, promessa de publicação para o ano que vem. Vejamos.
Traduções: Mais de uma dezena. Nenhuma digna de nota. Estado civil: Cativo. Mandem ajuda. Religião: Acredita piamente nos antidepressivos tricíclicos e louva os recaptadores de dopamina todos os dias antes de dormir. Time: Não tem, torce pelo Sport, time que existiu até o ano passado.
Informações adicionais: fui morar em SP em setembro de 2005 a convite de um site de humor, cujo nome me recuso a declinar. Mesmo ano em que me casei, depois de uma "ficada" de 4 dias e um namoro pelo telefone de dois meses. Nos conhecemos no Recife. Ela morava em Porto Alegre e se mudou comigo para SP, assim, do nada, mas já está em tratamento e promete me deixar em breve. Em 2007, deixei o bendito trabalho e fiquei por SP trabalhando como transcritor, revisor e tudo o que pintava pela frente, nada firme. Ela também procurando trabalho e fazendo concursos. Quase passamos fome. Não tínhamos nem livros para comer, já que eu vendera minha biblioteca pouco antes de viajar a SP. Não tínhamos dinheiro para porra nenhuma, por sorte viemos os dois da classe média e possuímos genitores vivos, o que permitia frango aos domingos. Só no começo deste ano me estabilizei como tradutor, voltamos a comer carne. Dois meses atrás, ela foi nomeada em um dos concursos em que fora aprovada e nos mudamos para o Rio. Como meu trabalho pode ser feito em casa e tudo hoje se faz pela internet, não houve alteração para mim, a não ser o fato de que sinto mais calor.
Onde começa sua genealogia?
Marconi — No primeiro macaco que, tendo ficado ereto, achou a posição desconfortável e, tentando achar uma intermediária, pisou no pé do vizinho.
Qual a sua ideia de felicidade perfeita?
Marconi — Enforcar um cantor sertanejo com os próprios pentelhos dele.
Qual o maior filme de todos os tempos?
Marconi — Je "Vous Salue, Marie". Achei genais as partes em que permaneci acordado.
Qual livro importante você leu por obrigação e detestou?
Marconi — Todos os de Proust e Joyce.
Graciliano Ramos, Guimarães Rosa ou Machado de Assis?
Marconi — Entre os três, Machado fica em primeiro, segundo, terceiro e quarto.
Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar ou João Cabral de Melo Neto?
Marconi — Racine.
Existe crítica literária no Brasil? Quem é o grande crítico brasileiro? Como ensinar um crítico a ler?
Marconi — Não existe crítica no Brasil de hoje, não apenas a literária. A pouca inteligência que havia desapareceu da vida política, artística, jornalística etc. Você a encontra, esparsa, em blogs. Ironia, por exemplo, é um código que o brasileiro não maneja. Ele gosta de piada de corno ou de tese acadêmica, não existe alternativa. O que prevalece por aqui é a seriedade burra, quando não empolada, ibérica. O mais próximo da ironia que chegamos é com o insulto simples, sem sal. Agora, se você pede um crítico relativamente recente, cito o Affonso Romano de Sant’Anna de "Desconstruir Duchamp", um livro que ninguém conhece. E para ensinar um crítico literário a ler é fácil: ter fé e invocar o Espírito Santo.
Qual autor merece ser resgatado, sobretudo, pelos leitores?
Marconi — Todos aqueles da Mercearia São Pedro e assemelhados: Marcelino Freire, Mirisola etc. Merecem ser resgatados, mas só depois de terem sido deixados numa ilha deserta, no meio do Pacífico, após duzentos anos.
Pós-modernidade é um termo ultrapassado?
Marconi — É. “Cocô” talvez seja palavra mais adequada ao que vem se fazendo em arte desde inícios do século passado.
Rimbaud escreveu até os vinte anos, acabou a época dos jovens gênios?
Marconi — Acabou a época dos jovens. Ou, pelo menos, já deveria ter acabado.
Lula lembra algum personagem literário?
Marconi — Ele é mezzo Sancho Panza, mezzo Mefistófeles.
É possível responder à pergunta: quem foi pior — Hitler ou Stálin?
Marconi — Não. Mas tenho medo de ir para o paredão se disser.
10 anos a mil ou 1000 anos a dez?
Marconi — 10.000 anos a um.
Um blogueiro genial?
Marconi — Quando deixa a preguiça de lado, Geneton Moraes Neto, apesar da barba e de ser jornalista.
O blog do século?
Marconi — Não vou citar o do Aomirante, porque senão fica uma rasgação de seda vexatória, já que ele me insultou de gênio por aqui. O blog do século se chamava Planeta Diário.
O blogueiro chato do século? Mas não vale desconversar nem citar a si mesmo.
Marconi — Mas aí fica difícil escolher entre Reinaldo Azevedo e Paulo Henrique Amorim.
“Pensar Enlouquece” ou “O Biscoito Fino e a Massa”?
Marconi — Agora você dançou, porque o Biscoito está hibernando, só há uma opção. Uh, uh...
Com quantas metáforas se escreve um livro?
Marconi — Da última vez que contei, eram aproximadamente 327.
Você é da ala dos inspirados (José Paulo Paes) ou dos construtores (João Cabral de Melo Neto)?
Marconi — Sou da ala dos construtores. Já ganhei muita grana em licitações fraudulentas de alexandrinos.
Com qual figura histórica mais se identifica?
Marconi — Luís XVI. Perco a cabeça facilmente.
Quem é o gênio da raça na terra brasilis?
Marconi — A frase só não é um oximoro por conta de Machado de Assis.
Qual personagem literário você tem vontade de matar?
Marconi — Raskolnikov. A gente fica arrancando os pentelhos enquanto ele decide se se entrega ou não.
A tragédia é uma vocação humana? Schopenhauer estava certo?
Marconi — Schopenhauer era um bosta. Nietzsche estava certo. Ao menos quanto a isso...
Deus é cientificamente plausível? Em que ciência ele existe?
Marconi — Eu gostava de Deus quando Ele tinha aquele barbão e andava de sandália de couro. Depois se vendeu ao sistema, virou empresário, negocia felicidade a troco de dízimo. Não tenho fé, nem para ser crente, nem para ser ateu. Se é plausível? Você acha plausível que haja vários universos em diferentes dimensões? Se formos pela lógica clássica, é mais crível a ideia de Deus do que muitas das hipóteses quânticas. Mas eu também não acredito na lógica clássica, então...
Funk pode ser considerado uma espécie de “distribuição de renda”, como o futebol?
Marconi — Como distribuição de renda, o Funk é pior que o Bolsa Família.
Mentir é necessário?
Marconi — Só quando respondemos questionários da "Revista Bula".
O que sobrou dos anos 80?
Marconi — O penteado de Dilma Rousseff, antes ou depois da peruca.
O que lamenta não ter feito?
Marconi — A barba. Sempre quis ter uma barba decente.
Como gostaria de morrer?
Marconi — Respirando.
Complete o versinho: Ninguém me ama, ninguém me quer...?
Marconi — Essa coplinha não quebra o pé.
Qual pergunta falta fazer?
Marconi — Grande Mamá, por que você é tão lindo, inteligente e maravilhoso desse jeito?
E qual seria a resposta?
Marconi — Puxa, grande Mamá, assim você me encabula...
Se existir o céu, o que gostaria que Deus lhe falasse na chegada?
Marconi — Bonito, hein?
Qual epígrafe o acompanha?
Marconi — “Você já matou um artista pós-moderno hoje?”
Abaixo um post antológico retirado do blog:
Pequena História do Futebol
Esporte mais popular do mundo, o futebol é praticado desde a Antiguidade. Sabe-se, por exemplo, que o time capitaneado por Hércules derrotou o selecionado de Lerna e mais outras onze equipes, tornando-se o primeiro campeão da Liga de Delos. Não se pode esquecer tampouco o esquadrão da Grécia vencedor de uma peleja mitológica contra Tróia, terminada aos cinco anos do segundo tempo, quando os gregos conseguiram penetrar a cidadela adversária com um gol de Cavalo.
No Oriente, havia o Campeonato Pan-mesopotâmico, envolvendo potências como Egito, Babilônia, Tiro e Sidon, e sempre vencido pelos fenícios, que escreviam as regras a seu favor. Por esse tempo foi que Davi derrotou Golias com um tirombaço de direita, conquistando a cobiçada Copa de Canaã para os hebreus. O que leva muitos judeus a dizerem até hoje que Deus é israelita.
Entre os romanos, o clássico Cristãos x Leões (o chamado Letão) lotava o Coliseu. Patres familias de toda a península se reuniam nos finais de semana, iam ao estádio, comiam, bebiam e torciam, exatamente como agora. Também como atualmente, a comida nesses ambientes era de péssima qualidade. Sobretudo para os leões.
Na Idade Média, por sua vez, uma pequena modificação foi introduzida no esporte, que passou a ser praticado com bala de canhão. O conceito permanecia o mesmo, com a diferença de que a bola é que chutava os jogadores. Foi, aliás, indignado com isso e desejando um retorno às antigas normas futebolísticas que o escrete composto por Dürer, no gol; Da Vinci, Michelangelo, Shakespeare e Montaigne, na defesa; Rabelais, Rembrandt, Cervantes e Rafael, no meio-campo; e Camões e Cláudio Adão, no ataque, inventou o Renascimento F.C e o chamado “futebol-arte”.
Porém, foi apenas a partir de 1632, quando Galileu descobriu que a bola era redonda e girava em torno do seu eixo que o futebol se estabeleceu como hoje o conhecemos. Até aquele momento, na falta dela, muitas partidas eram disputadas com pepitas de ouro e caixotes de especiarias, o que fazia do esporte uma atividade dolorosa, perdendo apenas, em grau de insalubridade, para outros desportos em voga, como criticar o papa e contrair Peste Negra.
Por conta dessa novidade, a International Inquisition Board, órgão que controla o futebol no mundo, afirmou que Galileu havia ido longe demais e, pior, que só havia um marcador entre ele e a linha de fundo. Galileu rebateu a acusação, dizendo que quem estava na banheira, muito antes dele, era Arquimedes. Uma mentira facilmente contestada, pois àquela altura Arquimedes estava morto em campo.
Não houve argumento, o Tribunal de Santa Justiça Desportiva mandou o cientista para o calabouço mais cedo e ameaçou escalá-lo na lateral para o próximo jogo entre Céu e Inferno. Vendo que lançavam uma bola na fogueira, Galileu voltou atrás e admitiu que a esfera não apenas era quadrada, mas cabeluda e cheia de furinhos.
Seria preciso esperar mais algumas décadas para que o meia-direita Isaac Newton desse novo impulso ao esporte. Impulso que o levaria bem mais longe não fosse a força de atrito. Cheio de conceitos modernos, Newton adita gravidade ao ludopédio, outrora tido como passatempo frívolo, utilizando-se de variáveis como espaço e tempo de partida e determinando que uma bola lançada para cima retornasse ao gramado com a mesma velocidade do chute inicial.
Contudo, apesar de modernamente inventado por um inglês, os bretões não conseguiram desenvolver o futebol a contento, em função de sua pouca habilidade. Você pega o selecionado britânico do século XVIII, por exemplo, e só encontra perna-de-pau, a começar por Barba Negra.
No final do século XIX, Charles Miller trouxe duas bolas e um par de chuteiras para o Brasil e aconteceu o que todos já sabem: elas foram roubadas. Mas isso não fez esmorecer o ânimo desse bravo pioneiro. Setenta e duas bolas, 527 impostos de importação e 126 pagamentos de propina mais tarde, após muito esforço, Miller finalmente conseguiu explicar aos nativos o primeiro fundamento do esporte, ou seja, que a bola não é comestível.
A partir dali, o futebol teve um crescimento vigoroso no país, que conquistou cinco títulos mundiais e causa inveja às demais nações, pois é o único que conseguiu derreter sua própria taça. Esse sucesso faz com que o jogador de futebol, ao lado do dinheiro não declarado, seja atualmente nosso principal produto de exportação.















