POR CARLOS WILLIAN LEITE
EM 27/06/2009 ÀS 09:12 AM
O homem é maior do que toda a técnica
publicado em entrevistas
O poeta Carlos Nejar lança livro por editora goiana e afirma que quando um país começa a se importar com um poeta é porque ele morreu

Poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário, Carlos Nejar é um dos grandes nomes de sua geração. Também chamado de "o poeta do pampa brasileiro", é autor de obras importantes como “Casa Dos Arreios”, “O Poço do Calabouço”, Um País o Coração”, “Memórias do Porão”, “Carta Aos Loucos”. Nejar traduziu obras de Jorge Luis Borges e Pablo Neruda. É membro da Academia Brasileira de Letras desde 1988. No mês de abril foi uma das atrações da 2ª Bienal do Livro de Goiás, na qual lançou “O Derradeiro Jó”, editado pela RF Editora, de Goiânia. Em entrevista ao Jornal Opção, republicada nesta edição da Bula, Carlos Nejar falou sobre o novo livro e sobre o fato de ter escolhido uma editora goiana para lançá-lo: “À medida que eu valorizo o Estado de Goiás, estou valorizando o Brasil”. Também falou sobre ficção: “O problema da ficção brasileira contemporânea é a falta de pensamento. São mágicos, mas não pensam”. Tradução: “Traduzir é hospedar”. E poesia: “A poesia está acima de contingências sociais. A verdadeira poesia é aquela que sabe voar”. Ao final, sintetizou em uma frase: "Eu estou com 70 anos e essa foi a melhor entrevista que dei. Vocês me bateram e me forçaram a dar a minha melhor entrevista”. Participaram os escritores Edival Lourenço, Valdivino Braz, Delermando Vieira, Brasigóis Felício e Gabriel Nascente.
Edival Lourenço — Sendo um autor consagrado no Brasil e no exterior, com oportunidades de publicar seus livros nos grandes centros, por que o sr. publicou “O Derradeiro Jó” por uma editora goiana?
Carlos Nejar — Porque Goiás é um dos centros culturais do país. O Brasil é um continente e cada Estado é um país. Publicar aqui é tão importante quanto se eu publicasse no exterior. É muito mais importante ser reconhecido no seu próprio país do que ser reconhecido lá fora. E às vezes, infelizmente, eu sou mais reconhecido lá fora do que aqui. Então a gente tem que ter a humildade de reconhecer que os Estados, as ditas províncias, são os grandes lugares da cultura brasileira contemporânea. Aparentemente os grandes centros são Rio-São Paulo, mas a melhor criação, com alguma exceção, está sendo feita nas províncias deste país. À medida que eu valorizo o Estado de Goiás, eu estou valorizando o Brasil. Essa é a questão e tem que se ver longe. Penso que Izaura Franco (RF Editora) é uma editora de visão e que tem que ser apoiada. Eu estou publicando o livro por meio de sua editora não porque não tenha editores, que os tenho, e muitos nunca me faltaram, mas porque acho que o trabalho dela é corajoso, que deve ser valorizado, porque é naturalmente uma editora. Sabe aquilo que é instinto? Assim como o instinto do poeta, ela tem o instinto da editora.
Valdivino Braz — Permita-me prolongar um pouco. Com “O Derradeiro Jó”, personagem do qual já falava em outros livros seus, o sr. nos lembra Cassiano Ricardo, que criou personagens como João Torto, um ser deformado, sobrevivente da bomba atômica, e criou também o Jeremias Sem-Chorar, personagem bíblico, proibido de chorar. Uma das sete razões que o impedem de chorar é que ele tem um olho de vidro, pois perdeu o olho verdadeiro num comício, ao ser escoiceado por um cavalo montado por um militar. Nesse Jeremias, Cassiano entrelaça as tradições bíblicas, a tecnologia, a cibernética e a falta de liberdade política. Há nessa obra uma preocupação humanística, que relaciona o homem com a máquina. O que o Jó poetizado por Carlos Nejar traz de importante para o homem de hoje?
Tu falaste em Cassiano. Eu, inclusive, na minha história literária, tento revalorizar Cassiano. Tenho cartas dele maravilhosas a mim dedicadas e que não vieram à luz. Era um dos maiores críticos de poesia que conheci. Ele cantou Jeremias, o profeta chorão. Eu canto Jó, que não é forte, é um profeta sim, provado, sofrido, mas transformador. Quando o homem vê o seu limite, ele lembra de Deus, porque o poder de Deus começa onde termina o homem. Jó sofreu até a última gota. Mas ele não se entregou, não se rendeu, nem diante do infortúnio, nem diante da palavra dos amigos ou da esposa. Ele tinha fé, eu também tenho fé, e só podia escrever sobre o derradeiro Jó. Cassiano Ricardo falou muito do homem cibernético, do homem planetário, isso, contudo, não me preocupa, porque na técnica pela técnica, como dizia Fernando Pessoa, sou um louco como qualquer outro louco, e não estou preocupado com as técnicas do homem. Eu estou preocupado com o homem de todas as idades, com o homem de antes e com o homem de depois. Não estou preocupado que a máquina faça isso, faça aquilo. Aliás, Cassiano diz: “Máquina, orai por nós”, e isso é de uma ironia brutal. Ele escreveu contra a máquina. Escreveu, em “João Torto”, contra todas as maquinações da técnica, mas isso é da natureza dele, Cassiano Ricardo. Eu sou poeta ligado à pessoa humana, ao infortúnio e à vitória do homem. É isso que me preocupa, e o meu tom épico é porque eu tenho consciência. E vou além de Drummond, porque Drummond encontrou a pedra no meio do caminho mas não tirou a pedra. Nós temos que tirar a pedra do meio do caminho, nós não temos só que ver o problema, temos que resolver o problema poeticamente, e isso só pode ser resolvido com uma nova consciência da realidade. A técnica é mágica, mas não basta, não satisfaz ao homem. O homem é maior do que toda a técnica.
Gabriel Nascente — Qual a gênese da sua poesia? Qual foi o seu primeiro encontro corporal com a palavra?
Eu comecei a ter uma ideia da poesia quando eu era adolescente. Meu pai tinha uma biblioteca muito grande. Havia algo dentro de mim ancestral que chamava a palavra. Eu percebi que a palavra tinha som, cor, aroma e que havia um mistério dentro daquele mundo. De repente eu descobri que eu sabia fazer poemas, que aqueles poemas que eu lia eu sabia fazê-los, porque o primeiro processo dentro da criação é o imitativo. Eu disse para mim mesmo: “eu sou poeta, que coisa estranha”, porque na minha família não havia nenhuma tradição, eram apenas comerciantes, todos preocupados com o comércio. Mas não fui eu que descobri as palavras, foram elas que me descobriram, não fui eu que amei as palavras, foram elas que me amaram primeiro. Porque eu sentia que elas se ligavam a mim, rimavam sem que eu procurasse, tinham ritmo sem que eu quisesse, eu vi que havia uma criação maior do que eu, então, houve na minha vida um momento difícil. Eu namorava uma vizinha que se chamava Selena. Um dia ela me disse: “eu não consigo gostar de você porque você é muito gordo”. Fiquei doido, emagreci, mas não quis mais a menina. Foi aí que escrevi meu primeiro livro, “Sélesis”, que é uma mistura de Selena e Celeste. “Sélesis” é um livro adolescente, mas mesmo assim permanece de pé. Eu estou publicando toda minha poesia em dois volumes, o primeiro volume chama-se “Amizade do Mundo” e o segundo volume “Jovem Eternidade”. “Sélesis” está lá quase intacto, só mudei a parte final. No tempo, algumas coisas não resistem e o que não resiste à gente corta, porque o trabalho da poesia é mais cortar do que colocar.
Edival Lourenço — Nejar, sou seu admirador e li quase toda a sua obra, inclusive a prosa, como “Túnel Perfeito”. Nesta condição de leitor, eu vejo que “Casa Dos Arreios” é um poema da maturidade, do homem físico, do homem do mundo. Seria “O Derradeiro Jó” a transcendência do homem?
O ficcionista tem uma visão um pouco diferente, cada livro é cada livro. Não posso dizer que a laranja é continuação da maçã e nem que a maçã é continuação da banana. Acho que cada livro tem a sua forma, tem a sua existência. Quando o livro nasce, nós sabemos pela fé, porque a fé não é só espiritual, que ele vai ser publicado, porque nada que ocorre no invisível deixa de atuar depois do visível. O que nós sonhamos dizer, você transforma no visível. O livro quando nasce ele pode ficar na gaveta, a gente pode até desaparecer, mas o livro vai exigir o direito de tomar um rosto, de tomar vida, porque ele nasceu. Eu digo num poema isso: até um soluço de uma criança pode transtornar o universo inteiro. Então, “Casa Dos Arreios” é um livro que tem lembrança de Dom Quixote, porque no fundo eu sou um Dom Quixote, que diz assim: “meu descanso são as armas, meu repouso é pelejar”. “Casa Dos Arreios” é o lugar que se coloca ao lado da instância grande da fazenda, onde estão os utensílios da luta, os utensílios do campo, então eu tinha que inventar uma pousada para mim, uma pousada para o homem. Depois de vários livros que criei, pensei: “preciso descansar, preciso criar uma casa”, que é a “Casa Dos Arreios”, em que o tempo não entra, os meses e anos, como eu digo no poema, são palmos de nada. Então, esse livro é um resumo da minha poética e também uma espécie de paragem medieval, uma paragem para a eternidade, uma paragem da criação, mas lógico que é um momento maduro, porque é um momento em que o poeta pensa sobre a sua própria criação e para um pouco, porque nós temos que aprender a deixar as coisas existirem dentro de nós, para que depois possam tomar nascimento e corpo.
Brasigóis Felício — “O Derradeiro Jó” é um tema bíblico que parece fazer parte do arquétipo da efêmera indagação humana, muitos foram os poetas que escreveram sobre ele. Jó é um personagem que irá sempre peregrinar na angústia humana, na busca da transcendência?
Sem dúvida, porque o “Livro de Jó” que está na Bíblia não é só o mais belo, é um dos mais verdadeiros, porque fala do sofrimento humano. Observe que Jó tem três fases: a primeira é uma fase próspera. Jó era um homem que amealhou muitos bens, tinha uma grande família e era feliz. Na segunda fase ele é provado por Deus. Então, ele perde a saúde, os filhos, a fortuna. Sua mulher diz: “Abandona esse teu Deus”, no que ele responde: “Nu nasci, nu morrerei, bendito seja o nome do Senhor”. Os amigos observam e dizem: “Jó, veja o que aconteceu contigo: Deus te feriu duramente, amaldiçoa esse Deus”, e Jó responde a eles: “Mesmo que Deus me mate, ainda terei esperança”. Então, a fé de Jó supera toda adversidade. Na terceira fase, apesar de tudo, ele começa a orar pelos amigos, aqueles que o abandonaram quando ele estava em desgraça. E a palavra bíblica diz: “E Deus mudou a sorte de Jó quando orava pelos seus amigos, e deu-lhe em dobro tudo aquilo que ele tinha”. Essa é a minha perspectiva. O Jó que supera a desgraça. Elias Canetti disse, muito bem, que o poeta não pode ser apenas arauto de derrota. O tempo é de vitória e o poeta tem que ser um arauto da transformação.
Carlos Willian Leite — Qual sua opinião sobre a ideia do poeta Gabriel Nascente de pleitear uma vaga na Academia Brasileira de Letras?
Uma escritora importante, Nélida Piñon, esteve aqui antes de mim, eu soube que ela disse que a Academia tem seus mistérios, os quais eu não vou discutir. Eu não vou discutir a vontade dos acadêmicos, pois cada acadêmico tem sua cabeça. Não sei se respondi, mas é isso, há um mistério na academia que vem desde Machado de Assis. Às vezes é uma casa assombrada. Eu só sei que eu entrei na Academia, como disse Tristão de Ataíde, mas eu não deixei a Academia entrar na minha vida, na minha poesia, na minha ficção e mesmo a minha história literária. Eu gosto da coisa nova, eu caminho contra as margens naquilo que Guimarães Rosa dizia: “Terçando as margens do rio, eu sou contra corrente”, eu não escrevo de acordo com a corrente, nem poesia, nem ficção, nem crítica literária, eu não sei se é diferente, mas eu não quero ir de acordo com a corrente.
Delermando Vieira — Da década de 1980 para cá existe algum poeta que o senhor possa definir como diferente, que tenha contribuído para o processo de inovação da poesia brasileira?
Eu sou um poeta que está começando a ser criança, porque a gente só consegue ser criança depois de muitos anos, depois de ficar velho, então, é lógico que conheço a poesia contemporânea. Eu conheço os novos poetas, eu respeito o trabalho de muito deles, eu não vou citar o nome para não cometer injustiças. Mas há poetas que estão fazendo trabalhos importantes, porque a poesia não é apenas a modernagem. A poesia tem que ser aquilo que Drummond diz: “Eu não quero ser moderno, eu quero ser eterno”. Há uma eternidade na poesia que passa todas as gerações. Há uma eternidade que está na poesia de Cecília [Meirelles], está na poesia de Manuel [Bandeira], está na poesia de Castro Alves, mesmo romântico. Há uma permanência na criação que passa as escolas, que passa os tempos, passa os novos e os velhos. Há novo que faz uma poesia durável, há novo que faz uma poesia consumista que não tem duração nenhuma, que apenas visa o mercado. No Brasil, nós fomos modernos sem passar pela modernidade. O nosso modernismo teve características muito mais estrangeiras do que brasileiras. A geração de 45 foi tão formal que voltou a uma espécie de parnasianismo. Então o que nós verificamos que mais do que as escolas são os estados de alma de poesia, há um estado de alma que é o clássico, que pode existir no contemporâneo, há o estado de alma do romântico que pode subsistir na contemporaneidade. Há um estado de alma do simbolismo, do simbólico, exemplo, Jorge de Lima, que existe no contemporâneo. Mas o que importa mesmo é aquilo que é a essência da linguagem poética, que está acima de escola. Os verdadeiros poetas existem além das escolas. Quando o arcabouço de lataria verbal cai, fica o que é essencial. E o que é essencial? É o canto da natureza do homem, que é o homem de todas as épocas.
Carlos Willian Leite — Qual sua avaliação da ficção brasileira atual e quais autores lhe agradam?
A ficção atual brasileira tem se desviado por um tom escatológico, em que parece que a droga, o tráfico, o crime são elementos fundamentais do homem. Isso vem a partir de Nelson Rodrigues. Só que o pessoal esquece a genialidade de Nelson Rodrigues. Ele é um tratadista ou ele é um moralista? Ele transforma o que é nefasto em algo virtuoso, em linguagem. Atualmente o grande tema é a ficção da Mooca: crime, tráfico, droga. É um erro, é mais que um erro de estratégia, mais que um erro de visão, porque a condição humana tem valores que não podem morrer, porque se os valores de grandeza do homem morrem, nós todos desaparecemos, fica só lixo. E eu não tenho nenhuma ambição de lixo. O problema da ficção brasileira contemporânea é a falta de pensamento. São mágicos, mas não pensam. Há exceções, claro, aqui mesmo em Goiás tem um grande ficcionista chamado Edival Lourenço, e eu já tive a oportunidade de premiá-lo, é um dos nomes importantes da ficção brasileira atual. Deixo isso marcado, mas sem entrar em detalhes, afinal ele está aqui, e eu já o premiei. Mas enfatizo: é, sem dúvida, um dos grandes nomes do Brasil.
Delermando Vieira — Nos dias atuais fala-se muito em concisão. Para o senhor a ficção de hoje deve ser concisa?
“Cem Anos de Solidão” é um livro único, mas ele não é conciso — é barroco. A palavra barroco significa diamante irregular. Mas o trabalho de imaginação supre todos os esquemas. O estilo de Gabriel García Márquez é longo, mas ele consegue dizer as coisas sendo longo. Proust é longo, é monótono. “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo, é um dos maiores livros da américa latina, é um livro pesado como uma pedra, mas é conciso, com períodos curtos. Então cada autor é cada autor, tem a sua personalidade. O Italo Calvino escreveu as regras que seriam determinantes para a escrita no milênio e uma delas é a leveza. Um autor pode ser leve, tendo estilo longo, porque no estilo longo ele vai responder as necessidades do seu romance. O que vale mesmo é o misterioso embate da imaginação.
Valdivino Braz — Voltando à sua fala sobre Deus, recordo um interessante poema seu, que diz o seguinte: “Deus não é a palavra Deus / e andorinha, / a palavra andorinha. / Há um poço / que não entra na palavra poço. / O amor na palavra amor. / E Deus é tudo isso.” Pode nos falar um pouquinho mais desse Deus-andorinha e esse Deus-poço?
Se eu conseguisse conceituar Deus, eu seria Deus. Mas Ele é meu amigo. Um dia eu quero na minha tumba, num epitáfio, deixar isso por escrito: “Carlos Nejar, poeta, amigo de Deus”. Uma coisa que me honra é ser amigo de Deus, porque eu o conheço, ele me conhece. Agora, como eu vou conceituá-lo? Eu não posso. Deus é aquele que concilia água e fogo, é aquele que está acima das oposições, porque Deus é de uma outra dimensão, não está na dimensão do nosso pensamento. O que é loucura para o mundo, é sabedoria para Deus, ou vice-versa, dizia Paulo, e é verdade. A dimensão de Deus é superior. E o Ser Deus não pode ser medido pelo homem, senão não seria Deus.
Brasigóis Felício — Poeta tem que ter compromisso de participação social ou ele só tem que ter talento e ser fiel a si mesmo?
Brasigóis, tu és um poeta social, tu tens um caminho social. Nós estamos ligados ao nosso povo. Agora, para podermos cantar o nosso povo, nós temos que ter uma percepção muito mais ampla. A poesia está acima de contingências sociais. O poeta pode cantar o homem, pode cantar o programa social, mas não pode ficar preso nisso, ele tem que voar. O poeta é aquele que faz as palavras voarem, se as palavras não voarem ele não é poeta. A verdadeira poesia é aquela que sabe voar.
Brasigóis Felício — É necessário ao poeta ser também prosador?
Como é necessário ao prosador ser poeta. Os grandes prosadores da língua alemã, como Goethe e Nietzsche, foram poetas. Não há grande prosador sem que ele seja poeta. Se não a prosa é árida.
Delermando Vieira — Qual sua opinião sobre a literatura de auto-ajuda?
Auto-ajuda não é literatura, é auto-ajuda. E não sei até que ponto ajuda ou desajuda.
Edival Lourenço — O Senhor citou há pouco García Márquez, Rulfo, Calvino, que apesar de italiano nasceu em Cuba, que são escritores do realismo fantástico. Como foi traduzir Borges, que também é dessa linha do fantástico? Eu percebo que há reverberações suas no texto de Borges, como que é isso?
Há reverberações de Borges no meu texto também, porque eu entrei como tradutor numa casa mal assombrada. Lógico que vi fantasmas. Eu não gosto de traduzir, eu traduzi como uma oportunidade que me foi dada. E como poeta eu até penso que melhorei a poesia de Borges, mas como ficcionista não. Acho que a ficção de Borges é uma das coisas geniais do nosso tempo. Eu tentei ser o mais fiel possível, usando aquilo que eu acho que é a tradução, não apenas uma recriação. Nós não traduzimos igual ao autor nunca, porque cada língua tem a sua estrutura. Daí as reverberações, mas de quem? Minhas ou dele?
Carlos Willian Leite — Traduzir é trair?
Nem sempre é trair, traduzir é trazer o autor para outra língua, é hospedar.
Carlos Willian Leite — José Paulo Paes falava que a poesia é inspiração, João Cabral dizia que é trabalho, e para o sr.?
Cabral negava a inspiração. Foi um amigo. O engraçado é que o melhor livro dele, “Morte e Vida Severina”, é produto de inspiração. É a grande luta entre teórico e o criador. O criador sempre ultrapassa o teórico. Cinzentas são as teorias, mas verde é água da vida. Lógico que existe inspiração, é aquilo que faz o copo da criação transbordar. Há momentos que algo nasce que a gente jamais pensou que nasceria. Alguém disse que a poesia vem do ar... Eu escrevo a mão. As palavras me vêm e eu vou pegando como se elas viessem no ar. Depois eu ponho no computador, então começo a aperfeiçoar. Todos os meus textos são escritos a mão, não sei escrever de outra maneira. Eu não sei escrever no computador, embora eu trabalhe no computador. Não me nasce nada quando eu escrevo no computador, porque eu preciso do papel, eu preciso sentir a palavra. Então, lógico que existe inspiração.
Valdivino Braz — Fala-se de Manoel de Barros como poeta do Pantanal, e de Carlos Nejar como poeta do pampa brasileiro. Os epítetos meio que soam como rótulos, como marcas de produtos que demarcam território e circunscrevem o poeta à sua aldeia. Mas a sua temática é múltipla e ampla, a partir das titulações de seus livros, como “Miguel Pampa”, “Campeador do Tempo”, “Casa Dos Arreios”, “Canga”, e o senhor vai também do “Poço do Calabouço” a “Um País o Coração”. Quando é que a poesia deixa de ser universal, como se quer que seja?
A poesia nunca deixa ser universal. Se não é universal, não é poesia. O que é universal? É uma fala geral do coração humano. Eu digo que a terra do coração não pode ser violada. A terra do coração é a terra da poesia, é a terra da imaginação, e não pode ser violada. Então, se a poesia é universal, tu serás universal à medida que tu cantares a tua aldeia... Mas isso não é um princípio geral. Eu quando estou cantando, escrevendo, posso até falar de mim, mas canto a minha aldeia, a terra da minha aldeia, porque eu sou a terra da minha aldeia. E tem outra coisa: todos os homens estão ligados por uma natureza e ao inconsciente coletivo. Quando eu lido com as palavras, entro no inconsciente coletivo; é como uma pedra que atiro num lago e começa a formar círculos concêntricos. A linguagem é feita de círculos concêntricos que são a consciência humana, e esta não é apenas do indivíduo, mas de todos os indivíduos. Quando escrevo sobre a consciência minha, individual, eu falo sobre a consciência geral. Então o que é poesia? É universal. É aquela língua que é da alma humana, é o idioma da alma humana.
Brasigóis Felício — O senhor falou que a prosa de um modo curto é um silêncio povoado de vozes. O senhor acha que a escrita, às vezes, se parece com o escritor ou vice-versa?
O escritor e a escrita, em regra, se parecem. Nossas palavras têm identidade. Há um tipo de criador que mesmo optando pelo silêncio tem uma escrita com muitas vozes. Outros, são barrocos quando escrevem. Há uma diferença entre o que nós achamos e o que o escritor realmente é. Pound foi fascista, mas foi Pound. Eliot era monarquista, mas foi Eliot. Nós temos que ultrapassar os preconceitos e os rótulos. O autor não é um negócio que põe nas prateleiras pra descansar. Há uma frase de Neruda que eu gosto muito “que a nenhum país importa os seus poetas vivos”. Quando um país começa a se importar com um poeta, é porque ele morreu, ou já está morto na criação. Então, eles o colocam numa posição de honra.
Valdivino Braz — Em relação ao que o sr. dizia há pouco, sobre o que o poeta não deve fazer, cito Mario Quintana, que diz: “Os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar”. O senhor concorda com Quintana?
Concordo. O poeta é aquele que vem para perturbar, alguém já disse isso, se não me engano um poeta francês. Se eu não conseguir perturbar, não sou um poeta. João Cabral diz que ele não embala a rede, derruba da rede. Então o poeta é aquele que faz até as palavras e até as pedras voarem.
Edival Lourenço — O sr. disse que gosta de ir sempre contra a corrente, como foi escrever livros de sonetos e gazeis, que são formas fixas de poema, nestes tempos em que a forma livre é quase uma religião estética. Isso não teria soado como um sacrilégio?
Não são as formas tão fixas assim como o dizem, o poeta é aquele que faz todas as formas sobreviverem. Então isso aí é um preconceito. Por exemplo, soneto. Não se escreve mais soneto, porque já se escreveu muito soneto. O poeta vira o soneto de perna para o ar e faz um novo de uma maneira que só ele pode fazer. Quando se é poeta as coisas voam, quando não se é, não adianta forçar. O grande problema é a lataria verbal. Faz um ruído desesperador.















