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POR EM 05/12/2008 ÀS 09:09 PM

Entrevista William Faulkner

publicado em
William Cuthbert Faulkner é considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. Em 1949, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Posteriormente, ganhou o National Book Awards de 1951 com Collected Stories e o prêmio Pulitzer em 1955 por A Fable. Utilizando a técnica de "fluxo de consciência" consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos EUA, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha.


 
A entrevista foi traduzida de El Oficio Del Escritor, 1965, publicação contendo as entrevistas da The Paris Review, uma versão em português foi também foi publicada no Brasil pela companhia das letras em 1998.


Jean Stein Vanden Heuvel, Nova York, início de 1956

Tradução: Delermando Vieira

 

Existe alguma fórmula, que seja possível seguir, para ser um bom romancista?
 
William Faulkner - Noventa por cento de talento, noventa por cento de disciplina, noventa por cento de trabalho. Um romancista nunca deve sentir-se satisfeito com o que faz. O que se faz nunca é tão bom como poderia ser. Sempre há que sonhar e dirigir-se mais alto que alguém possa sonhar. Não se preocupar em ser melhor que seus contemporâneos ou seus predecessores. Buscar, apenas, ser melhor que a si mesmo. Um artista é uma criatura impulsionada por demônios. Não sabe, jamais, por que eles o escolhem e, geralmente, está muito ocupado para perguntá-los. É completamente amoral no sentido de que será capaz de roubar, tomar emprestado, mendigar ou despojar a qualquer um e a todo mundo, com o fito de realizar sua obra.
 
Você quer dizer que o artista deve ser completamente inumano?  
 
William Faulkner - O artista é responsável somente ante sua Obra. Será completamente inumano se, realmente, é um bom artista. Tem um sonho, e este sonho o angustia tanto que deve livrar-se dele. Até então, não tem paz. Coloca-o à margem: a honra, o orgulho, a decência, a segurança, a felicidade, tudo, sob o fito de escrever seu livro. Se um artista verdadeiro, necessita roubar de sua mãe, para realizar sua Obra, não hesitará em fazer tal coisa.
 
Então, a falta de segurança, de felicidade, honra, etcétera, seria um fator importante na capacidade criadora do artista?
 
William Faulkner - Não. Essas coisas somente são importantes para sua paz e seu contentamento. A arte nada tem a ver com a paz e o contentamento.
 
Então, qual seria o melhor ambiente para um escritor?
 
William Faulkner - A arte nada tem a ver com o ambiente, não lhe importa onde esteja. Se você se refere a mim, o melhor emprego que jamais me ofereceram foi o de administrador de um bordel. Em minha opinião, esse é o melhor ambiente em que um artista pode trabalhar. Goza de uma perfeita liberdade econômica, está livre do temor e da fome, dispõe de um teto sobre sua cabeça e nada tem que fazer senão levar umas poucas contas simples e ir pagá-las, uma vez ao mês, à polícia local. O lugar está tranqüilo durante a manhã, que é a melhor parte do dia para se trabalhar. Nas noites existe a suficiente atividade social, para que o artista não se aborreça, se não lhe importa participar dela, o trabalho dá certa posição social, nada tem ele que fazer porque a encarregada leva os livros, todas as empregadas da casa são mulheres, que, certamente, o tratarão com respeito e lhe dirão “senhor”. Todos os contrabandistas de licores da localidade também lhe dirão “senhor”.  Um mal ambiente somente o fará subir a pressão sangüínea, ao fazer-lhe passar mais tempo se sentindo frustrado ou indignado. Minha própria experiência me ensinou que os instrumentos que necessito , para um ofício, são papel, tabaco, comida e um pouco de whiski..
 
Bourbon?
 
William Faulkner - Não, não sou tão melindroso. Entre escocês e nada, fico com o escocês.
 
Você mencionou a liberdade econômica. O escritor necessita dela?
 
William Faulkner - Não. O escritor não necessita de liberdade econômica. Tudo que ele necessita é de um lápis e um pouco de papel. Que eu saiba, nunca se escreveu nada de bom com o objetivo de aceitar dinheiro como presente. O bom escritor nunca recorre a uma fundação. Está sempre muito ocupado escrevendo algo. Se não é bom de verdade, se engana dizendo que necessita de tempo ou de liberdade econômica. A boa arte pode ser produzida por ladrões, contrabandista de licores ou bandoleiros. A gente realmente teme descobrir, exatamente, quantas penúrias e pobrezas é capaz de suportar. E a todos é o susto de saber quão duro isso pode ser. Nada pode destruir um bom escritor. Somente a morte pode alterar um bom escritor. Os que são bons não se preocupam em ter êxito ou fazer-se ricos. 
 
Trabalhar para o cinema é prejudicial para a própria obra do escritor?
 
William Faulkner - Nada pode prejudicar a obra de um homem, se este é um escritor de primeira, nada pode ajudá-lo muito. O problema não existe, se o escritor não é de primeira, porque, certamente, já terá vendido sua alma por uma piscina. 
 
Você disse que o escritor deve transigir quando trabalha para o cinema. E quanto `a sua própria obra, tem alguma obrigação para com o leitor?
 
William Faulkner - Sua obrigação é fazer sua obra, ao melhor que possa fazê-la. Qualquer obrigação que lhe fique depois disso, pode gastá-la segundo sua vontade. Eu, da minha parte, estou muito ocupado para me preocupar com o público. Não tenho tempo para pensar em quem me lê. Não me interessa a opinião de João Leitor sobre minha obra nem sobre a de qualquer outro escritor.  A norma que tenho que cumprir é a minha, e essa é a que me faz sentir como me sinto quando leio A Tentação de Santo Antônio ou o Antigo Testamento, do mesmo modo que observar um pássaro me faz sentir bem. Se eu reencarnasse, sabe você que eu gostaria de voltar a viver como um zopilote. Ninguém o odeia, nem o repudia, nem o quer, nem o necessita. Ninguém se mete com ele, nunca está em perigo e pode comer qualquer coisa
 
Que técnica utiliza para cumprir sua norma?
 
William Faulkner - Se o escritor está interessado na técnica, mais lhe vale dedicar-se à cirurgia ou assentar tijolos. Para escrever uma obra não tem nenhum recurso mecânico, nenhum atalho. O escritor jovem que segue uma teoria é um tonto. Ele tem que ensinar-se por meio de seus próprios erros; é somente através do erro que a gente aprende. O bom artista acredita que ninguém sabe o bastante para lhe dar conselhos. Tem uma vaidade suprema. Não importa o quanto admira o escritor velho; quer, na verdade, superá-lo.
 
Então, você nega a eficiência da técnica?
 
William Faulkner - De nenhuma maneira. Algumas vezes, a técnica arremete e se apodera do sonho, antes que o próprio escritor possa apreendê-lo. Isso é giro de força e a obra terminada é simplesmente questão de juntar bem os tijolos, posto que o escritor provavelmente conhece cada uma das palavras que vai usar até o fim da obra, antes de escrever a primeira. Isso aconteceu com Mientras Agonizo. Não foi fácil. Nenhum trabalho honrado o é. Foi simples enquanto todo o material estava já na mão. A composição da obra me custou somente umas seis semanas, ao tempo livre em que me colocava ao emprego de doze horas ao dia, trabalhando manualmente. Simplesmente imaginei um grupo de pessoas e as submeti às catástrofes naturais universais, que são a inundação e o fogo, com uma motivação natural simples que lhe desse direção ao seu desenvolvimento. Mas quando a técnica não intervem, escrever é também mais fácil em outro sentido. Por que em meu caso sempre há um ponto no livro em que os próprios personagens se levantam e tomam o mando e completam o trabalho. Isso sucede, digamos, no correr da página 275. Claro está que eu não sei o que sucederia, se terminasse o livro na página 274. A qualidade que um artista deve possuir é a objetividade ao julgar sua obra, mais honradez e o valor de não se enganar a respeito. Posto que nenhuma de minhas obras tem satisfeito minhas normas, devo julgá-las sobre a base daquela que me causou a maior aflição e angústia, do mesmo modo que a mãe ama ao filho que se converteu em ladrão ou assassino mais que ao que se converteu em sacerdote.
 
Como começou O Som e a Fúria ?
 
William Faulkner - Começou com uma imagem mental. Eu não compreendi naquele momento que era simbólica. A imagem era a dos fundilhos enlodados das calcinhas de uma menina, que subia a uma pereira, de onde ela podia ver, através de uma janela, o lugar em que estava sendo efetuado o funeral de sua avó, e ela relatava a cena aos irmãos, então ao pé da árvore. Quando cheguei a explicar quem era eles e o que estavam fazendo e como haviam enlodado as calcinhas da menina, compreendi que seria impossível colocar tudo em um conto e que o relato teria que ser, com certeza, um livro. E então compreendi o simbolismo das calcinhas enlodadas e essa imagem foi trocada pela a da menina órfã de pai e mãe, que se evade pelo tubo de deságua do teto para escapar-se de casa, onde nunca tivera amor, nem afeto, nem compreensão. Já havia começado a contar a história através dos olhos do menino idiota, porque pensava que seria mais eficaz. Não deu certo. Tratei de voltar a contá-la, agora através dos olhos de outro irmão. Tampouco, deu resultado. Contei-a pela terceira vez através dos olhos do terceiro irmão. Novamente, não deu resultado. Tratei de reunir os fragmentos e de encher as lacunas, fazendo eu mesmo as vezes do narrador. No entanto, não ficou completa, até quinze anos depois da publicação do livro, quando escrevi, como apêndice de outro livro, o esforço final para acabar de contar a história final e tirá-la da cabeça de modo que eu mesmo pudesse me sentir em paz. Esse é o livro pelo qual sinto mais ternura. Nunca pude deixá-lo de lado e nunca pude contar bem a história, ainda quando a intentei com afinco. Eu gostaria de voltar a intentar novamente, ainda que, provavelmente, fracassando outra vez. 
 
Há vantagem artística ao compor o romance em forma de alegoria, como, por exemplo, a alegoria cristã que você utilizou em Uma Fábula?
 
William Faulkner - A mesma vantagem que representa para o carpinteiro construir esquinas quadradas ao construir uma casa quadrada. Em Uma Fábula , a alegoria cristã era a alegoria indicada para aquela história.
 
Quer dizer que um artista pode usar o cristianismo simplesmente, como qualquer outra ferramenta, da mesma maneira que um carpinteiro tomaria emprestado um martelo?
 
William Faulkner - Ao carpinteiro, do qual estamos falando, nunca falta esse martelo. A ninguém falta cristianismo, se nos colocamos de acordo enquanto ao significado que damos à palavra. Trata-se do código de conduta individual de cada pessoa, por meio do qual esta se faz um ser humano superior ao que sua natureza quer que seja. Qualquer que seja seu símbolo – a cruz ou a meia lua ou o que fosse -, esse símbolo é para o homem a recordação de seu dever como membro da raça humana. Suas diversas alegorias são os modelos com os quais se mede a si mesmo e aprende a conhecer-se. A alegoria não pode ensinar o homem a ser bom, do mesmo modo que o livro de texto lhe ensina matemática. Ensina-lhe como descobrir-se a si mesmo.
 
Foram reunidos, em um só volume, os dois temas, não selecionados, de As Palmeiras Selvagens com algum propósito simbólico? Trata-se, como sugerem alguns críticos, de uma espécie de contraponto estético ou de uma simples causalidade?
 
William Faulkner - Não, não. Aquilo era a história de Charlotte y Harry Wilbourne, que sacrificaram tudo pelo amor e depois perderam isso. Eu não sabia que iam ser duas histórias separadas senão depois de haver começado o livro. Quando cheguei ao final do que agora é a primeira parte de As Palmeiras Selvagens , compreendi, subitamente, que faltava algo, que a história necessitava de ênfase, algo que a levantasse como o contraponto na música. Então, voltei a dar-lhe intensidade com outra parte de sua antítese, que é a história de um homem que conquistou seu amor e passou o resto do livro fugindo dele, até ao grau de voltar, voluntariamente, ao cárcere em que estaria a salvo. São duas histórias somente por causalidade, talvez  por necessidade. A história é a de Charlotte e Wilborune.
 
Que parte de sua obra se baseia em experiência pessoal?
 
William Faulkner - Não lhe saberia dizer. Nunca fiz a conta porque a particularidade não tem importância. Um escritor necessita de três coisas: experiência, observação e imaginação. Em meu caso, uma história geralmente começa com uma só idéia, uma só recordação ou uma só imagem mental. A composição da história é simplesmente questão de trabalho até o momento de explicar por que ocorreu a história ou que outras coisas fizeram ocorrer a sua continuação. Um escritor trata de criar personagens verdadeiras em situações comovedoras verdadeiras da maneira mais comovedora que possa. Obviamente, deve utilizar como um de seus instrumentos o ambiente que conhece. Eu diria que a música é o meio mais fácil de se expressar, posto que foi a primeira que se produziu na experiência e na história do homem. Mas, posto que meu talento reside nas palavras, devo tratar de expressar de maneira torpe, em palavras, o que na música pura havia expressado melhor. É dizer que a música o expressaria melhor e mais simplesmente, mas eu prefiro usar palavras, do mesmo modo que prefiro ler e escutar. Prefiro o silêncio ao som, e a imagem produzida pelas palavras ocorre no silêncio. 
 
Você disse que a experiência, a observação e a imaginação são importantes para o escritor. Incluiria você, também, a inspiração?
 
William Faulkner - Eu não sei nada sobre a inspiração, porque não sei o que é isso. Já ouvi mencionar acerca dela, mas nunca a vi.  

 
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