Entrevista Juan Carlos Onetti
Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau

A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em 'sonhos diurnos', através de um 'impulso onírico'. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do boom era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação. Republicamos nesta edição uma entrevista rara: a entrevista das entrevistas, uma reunião de trechos de entrevistas de Juan Carlos Onetti publicadas entre 1960 e 1973. Onetti morreu em 30 de Maio de 1994.
Qual a função que desempenha o intelectual em nossa sociedade e quais são as atividades que segundo você lhe correspondem?
Não desempenha nenhuma tarefa de importância social. Corresponde-lhe ter talento.
Que medidas concretas pensa o senhor serem necessárias para manter viva a comunicação escritor-público?
Prazer reiterar: que o escritor tenha talento.
Como, em sua opinião, deve expressar-se o chamado “compromisso dos escritores”?
Trata-se de responder a um interrogatório organizado por um jornal comunista. Diverte-me pensar que talvez não tenham encontrado melhor subscrito apresentar os achaques de um pequeno escritor burguês e decadente. Alguém inventou o termo e o destino do escritor comprometido. Sou inocente. O único compromisso que aceito é a persistência de tratar de escrever bem e melhor e de encontrar com sinceridade como é a vida que me coube conhecer e como são as pessoas condenadas a converter-se em personagens de meus livros..
É vigente a solidão do escritor ou haveria de modificar-se o conceito na atualidade?
Se a solidão significa o que eu entendo, respondo “vigentísima”. Para todo ser humano, seja escritor ou não. Em caso contrário, ligo-me espiritualmente aos círculos, às mesas redondas e aos torneios com flores naturais.
Se você estivesse em meu lugar reportando-se a Onetti, o que perguntaria sobre a literatura uruguaia?
Uma monstruosidade.
E o que você responderia?
Que não é elegante falar dos colegas.
Não me imagino o protagonista de uma lenda negra respondendo a isso.
Aí está o erro, não tenho nada a ver com essa lenda.
Como? Então você não é o laboratorista que toma a gente como porquinha das Índias? Uma espécie de experimentador sem escrúpulos, um corcunda a quem imputam as piores maldades?
Não, não o sou. Nem sequer sou o alcoólatra mulherengo do qual fala o capítulo segundo da lenda.
No entanto, casou-se quatro vezes e, desde que cheguei, tomou seus bons quatro copos de vinho.
Somente com vinho se pode agüentar as reportagens.
Relativamente à minha paixão por experimentar, não passa da quota normal. Você mesma tem querido me enfrentar ou outro autor nacional para divertir-se.
Parece-lhe comparável? Eu o tenho visto reunir ex-amantes cada um com seus novos amores para observar suas reações. Tudo com a expressão mais inocente.
Tenho eu a culpa de ser um mestre? Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Não sou culpado, senhora, não sou. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau..
Você não acredita que a lenda tem um bom pé em sua literatura?
Não, minha literatura é uma literatura de bondade. Quem não o vê é um burro..
Por que escreve?
Escrevo para mim. Para meu prazer. Para meu vício. Para minha doce condenação.
Como escreve?
Estupendamente.
Fale com sinceridade.
Sim, senhora. Não entendi a pergunta..
Bem, quero dizer se escreve com um plano elaborado previamente. Se sabe, exatamente, onde vai chegar?
Sei o que se vai passar. Não sei como vai acontecer. Se soubesse, não escreveria.
Quer dizer que verdadeiramente escreve para você? Que em uma ilha deserta escreveria?
Escreveria.
Considera que seus críticos não o interpretam corretamente?
Se por “interpretação correta” você entende “interpretação total”, digo-lhe que isso não pode acontecer nunca. Nem sequer no amor. Além disso, os críticos que me importam sabem muito mais de literatura do que eu.
Havia pensado em perguntar-lhe algo tão pouco íntimo como sua posição frente à literatura comprometida.
A isso, acaba de inventar..
Assim vale a pena que me responda.
Acredito que não haja maior compromisso que o que se aceita tacitamente quando se põe a trabalhar ou a brincar. É um compromisso consigo próprio. Trata-se sempre de escrever o melhor que seja possível; com total sinceridade, sem pensar nunca nos hipotéticos fulanos que vão nos ler.
Se é assim, por que no prólogo da primeira edição de “Para Esta Noite” você fala de “participar”, “participar em dores e angústias”, como se nesse livro em particular, não nos outros, você estivesse tomando posição frente a um conflito exterior, como se estivesse aceitando um compromisso, buscando deliberadamente uma participação?
O feito de que fale expressamente de compromisso nesse prólogo não modifica as coisas. Em tudo o que escrevi tenho participado. Somente os escritores ruins crêem que tal compromisso deve ser expressamente político.
Sartre, por exemplo….?
Qual é o compromisso político de Sartre na melhor de suas novelas, “A Náusea”?
Bom, eu creio que você se nega ao mundo. E sua literatura é um reflexo muito claro de sua forma de vida... suas personagens desconectadas da realidade, movendo-se num mundo distorcido...
Primeiro teria que perguntar-lhe por que crê que “sua realidade” é “a realidade”. Meus personagens estão desconectados da realidade de você, não da realidade deles. Quanto ao mundo distorcido, concordo. Porém… ou alguém distorce o mundo para poder expressar-se ou faz jornalismo, reportagens....más novelas fotográficas.
Identifica-se com o protagonista de "El pozo" quando este dizia: "Sou um homem solitário que fuma num lugar qualquer da cidade”?
Sim, com este e com muitos outros protagonistas. Já não lhe contaram que a arte é uma eterna confissão?
Continua sendo esse solitário?
Como todo mundo. A diferença está em que alguns se dão conta e outros se distraem.
Tem alguma idéia de por que seus atos são tão pouco compreendidos ou aceitos pelas outras pessoas?
A chave pode estar em que sempre digo o que penso e faço o que quero… Não falemos do resto. Conheço pessoas que me aceita e me compreendem. Com elas vivo.
Suas novelas são sempre impecáveis, laboriosas crônicas do fracasso. Quer aventurar uma explicação?
Em mim, acredito que se trata de um pessimismo natural; natural e radical. No fundo, creio que sou uma das poucas pessoas que crêem na mortalidade. Isso influi muito. Sei que tudo vai se acabar em fracasso. Eu mesmo. Vocês também. De todos os escritores do boom se há dito que são pessimistas, que neles os personagens sempre se frustram. Talvez. Porém em García Márquez ou em Vargas Llosa, eu não percebo uma grande alegria de viver. Sinceramente, não creio que vejam a morte como um problema. E não se trata de que agora eu tenha 64 anos e que possa morrer esta noite. Não. É algo que tenho sentido desde a adolescência. Assim como se descobre que eu sou eu, assim se descobre a morte, marcam-se os limites. Um dos descobrimentos mais terríveis, o mais terrível, que tive ainda adolescente, foi que todas as pessoas que eu amava iam morrer algum dia. Isso me parecia absurdo, e dessa impressão não me refiz ainda.
E o suicídio, Onetti?
Em todas minhas novelas está subjacente a idéia do suicídio. Uma vez me perguntaram isto que você acaba de perguntar, por que havia abandonado a idéia do suicídio. Eu lhe disse que fizesse primeiro a prova, e depois me contasse. Quero saber antes se é melhor que tudo isto.
Nunca se perdeu em Santa Maria? Nunca fez planos nem genealogias?
Uma vez fiz um plano de Santa Maria com um amigo, porém era só para movimentar melhor os personagens. Eu o perdi quando me mudei de Buenos Aires. A mim, se me ocorre escrever um livro, já tem seu lugar em Santa Maria. Porém nunca me propus desenvolver um plano. Ou seja: nunca quis escrever uma saga. Esse é já um propósito, e eu não poderia escrever com propósitos.
E por que escreve?
Porque sim, porque gosto de contar histórias.
Quando nasceu essa vocação?
Não sei. Talvez na infância ou na adolescência, seguramente uma reação ao mundo dos adultos. Por exemplo: aqui ouço falar várias horas diárias sobre futebol. Então escrevendo me divorcio dessa realidade. Mais que sofrê-la eu, sofrem-na as personagens.
Sofrem-na por você..
Quiçá.
Você foi valorizado pelo surgimento do “boom”, ao qual se incorporou um pouco tardiamente, pois seu primeiro livro é de 1939. Durante esse tempo, quase sem leitores, para quem escreveu? Dito de outra maneira: necessita de leitores? Para quem escreve?
Respondo-lhe com o que uma vez Joyce respondeu a alguém que o entrevistava. Sento-me no extremo de uma mesa, dizia, e escrevo à pessoa que está no outro extremo. No outro extremo está James Joyce.
Viveria em Santa Maria, se pudesse?
Santa Maria não existe além de meus livros. Se existisse realmente, se pudesse viver ou vivesse lá, inventaria uma cidade que se chamasse Montevidéu.
Fonte: http://www.clubcultura.com
Traduzido especialmente para Revista Bula por Jádson Barros Neves















