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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:48 PM

Crise de paradigmas em Itaguay

publicado em

Itaguay está se desmanchando, cheia de pessoas enlouquecidas. Em busca de soluções concretas e não de utopias, o apresentador Simão recebe em seu talk show semanal convidados para apontar a saída racional e científica da crise. Os telespectadores poderão conhecer: o cineasta em seu trabalho contínuo de desmoralização do pensamento crítico, o mega-empresário lutando contra os movimentos sociais, o político-sociólogo que coopta intelectuais para o business, o dito maior filósofo nacional vilanizando a universidade, os dois cafajestes que se denominam grandes pensadores e o mago da publicidade a profetizar o consumo como salvação. O programa desta semana está imperdível. Assista aqui.


 

O apresentador Simão entra no auditório de televisão. A platéia grita, e ele pede silêncio para falar. 
 
Simão: Meus caros, boa noite, o mundo está fora dos eixos. Há muita gente louca à solta por aí. No programa de hoje, receberemos alguns convidados que dizem ser contra a loucura nacional. São as nossas cabeças mais admiradas. No primeiro bloco, o grande cineasta e palestrante de sucesso conta como trabalha diariamente pela desmoralização do pensamento crítico. Em seguida, o presidente da grande multinacional brasileira vai criminalizar os movimentos sociais, sobretudo os sem-terra. Amigos, o programa está mesmo imperdível.

Olhem só: o político-sociólogo falará da cooptação dos intelectuais para os negócios e a política partidária. Trouxemos ainda o filósofo que se considera o maior do país e que detona a universidade brasileira. No rol das surpresas, apresentamos os dois cronistas mais brilhantes da imprensa brasileira que mostram como os cafajestes promovem a si mesmos à categoria de grandes pensadores. Por fim: o mago da publicidade que criou a “ditadura baiana da felicidade” defende o consumo contra a cidadania. Não está demais, gente? Beijo do Simão e voltamos já.
  
1o Bloco



Simão: Estamos aqui com o grande diretor de filmes pornô chique dos anos 80 e que virou um dos principais colunistas multimídia no Brasil. Após anos de crítica à sociedade, ele é um dos mais ilustres representantes da “rebelião a favor”. Cineasta, por que tanto ressentimento?

Cineasta: Poxa Simão, não é isso. O problema é a falta de complexidade de quem pensa. O progressismo virou um ensopadinho de desenvolvimentismo, getulismo, leninismo, estatismo e sindicalismo.
 
Simão: A saída está do outro lado?
 
Cineasta: O ensopadinho é a utopia irrealizável e impede a agenda modernizadora, de mudanças óbvias, mas áridas para o gosto da velha esquerda: reforma tributária, reforma da Previdência, enxugamento do Estado. O monstro do Mesmo insiste em barrar a Razão.
 
Simão: Quem é a Razão?

Cineasta: É o nosso grande Político-sociólogo, o equilibrista, complexo, que você entrevistará daqui a pouco.
 
Simão: A Razão é óbvia como a lei da gravidade?

Cineasta: Sabe, o ideologismo me dá medo porque prescinde do estudo, da técnica, da análise. Falta ciência.
 
Simão: É o apocalipse globalizado que você vende a empresários em palestras de R$ 20 mil a hora?

Cineasta: A esquerda moderna não é feita de fé, é feita de lógica. O verdadeiro homem de esquerda está sempre se adaptando às mudanças históricas em busca do bem da sociedade, da qualidade de vida das pessoas, da justiça.
 
Simão: Os empresários acreditam nisso?
 
Cineasta: Falo com voz grave que as mudanças que têm de ser feitas no Brasil estão catalogadas cientificamente. Uso palavras meio complicadas, umas sacações, que nem mesmo eu entendo. Eles adoram e me pagam mais. Aprendi isso com uns amigos professores de economia, hoje banqueiros, que ganham uma grana boa para explicar por que quebraram o país e hoje estão ricos.
 
Simão: Bem, acabamos de ouvir as palavras brilhantes do Cineasta. No próximo bloco, receberemos o mega-financista que comprou estatais na privatização pagando tudo com dinheiro de bancos públicos.

Cineasta: Simão, se você me permite... Talk shows são o que há de mais avançado na maneira de refletir e debater a atualidade. David Letterman e você, claro, são muito superiores a Fredric Jameson.
 
2o Bloco




 
Simão: É uma honra receber o presidente da grande multinacional brasileira. Ele vem batendo de frente com os broncos dos movimentos sociais. Boa noite, o que você acha dos sem-terra?
 
Presidente: Totalmente criminosos e bandidos, que não respeitam a lei e não respeitam a democracia. Fazem um discurso dizendo que respeitam e querem a democracia, mas não respeitam a democracia.
 
Simão: É uma luta de classes?

Presidente: Não, não. Luta de classes já era, estamos num mundo globalizado. O que essa gente precisa é cumprir a lei.
 
Simão: Lei de mercado ou criminal?

Presidente: Os sem-terra estão batendo na porta errada. Eles deviam bater na porta dos bancos ou do governo estadual ou federal, e não aqui na minha empresa. Não temos nada com isso. Nós temos alguma coisa a ver com reforma agrária? Não.
 
Simão: O que você recomenda aos sem-terra?
 
Presidente: Vão trabalhar.
 
Simão: Com ou sem carteira assinada?
 
Presidente: Carteira assinada vai contra a flexibilidade necessária do mercado de trabalho global. Aumenta os custos da economia local. Como bem disse o brilhante cineasta, de quem assisti a uma palestra recentemente, precisamos de reformas que foram catalogadas cientificamente. 
 
Simão: É verdade. A Ciência é a saída. Muito obrigado. No próximo bloco, temos a honra de receber o grande Político-sociólogo. Fique aí nos esperando.
  
3o Bloco




 
Simão: Que honra, Político-sociólogo. Nos diga, conhecimento é dinheiro?
 
Político-sociólogo: Mais do que nunca. Quando se financia a pesquisa acadêmica, ela deve gerar tecnologia e patentes industriais. Os intelectuais devem se tornar empresários. Imagine um pesquisador improdutivo.
 
Simão: Por isso, os professores de economia estão virando donos de banco e criando uma nova classe?
 
Político-sociólogo: Esqueça a história de classes sociais. Voltando ao que interessa. O sujeito ganha uma bolsa de doutorado da CAPES, vai para os Estados Unidos aprender a mais sofisticada econometria, e depois você quer que ele vá trabalhar para diminuir a pobreza. Isso é antieconômico. Ele precisa tornar o país eficiente.
 
Simão: Bolsa de estudos é válida, mas não as bolsas de renda mínima?
 
Político-sociólogo: Há bolsas e bolsas. Uma vai alimentar o conhecimento que deve virar patente, licenças, royalties. É o futuro. Outras são para administrar a miséria, é olhar o mundo pelo retrovisor. Não vamos deixar o cara morrer de fome, precisamos gerenciar a escassez. Digo que governar o Brasil é gerir o atraso.
 
Simão: Você é um político consagrado e sociólogo. Onde entra a sociologia em seu pensamento político?
 
Político-sociólogo: O que ocorre é que mudei de ramo. Virei político profissional. Deixei de ser acadêmico. Eu não traí o meu passado. Eu o abandonei, mas continuei usando adereços da formação acadêmica, como as citações em língua estrangeira. Eu instrumentalizei o meu passado intelectual para turbinar a minha imagem, pois existe um mercado da política no qual devemos nos diferenciar.
 
Simão: Muito elucidativo. Você e o Cineasta são a mesma pessoa? Não importa. A seguir, conheceremos as idéias de outro intelectual moderno. Na verdade, teremos aqui no palco o filósofo que se diz o maior do país. Não percam.
  
4o Bloco

 


 
Simão: Gente, o nosso convidado é uma sumidade, segundo ele mesmo se define. É um combatente das misérias intelectuais do Brasil e um crítico da universidade que estaria infestada de progressistas. Boa noite...
 
Filósofo maior: Boa noite.
 
Simão: Filósofo maior, você é frustrado por não ter conseguido terminar um curso superior?
 
Filósofo maior: Veja bem, só completei o clássico, como diziam na minha época. Se for preso, pego cela comum. Infelizmente. Por mais de dez anos, fiquei isolado e estudei as religiões. Vi então que havia algo de muito errado com o ensino superior. O Brasil tem a pior escola do mundo. Para mim, no entanto, tanto faz dar aulas na faculdade ou embaixo da ponte.
 
Simão: Com que autoridade você opina sobre temas tão diversificados?
 
Filósofo maior: Se eu opino é por absoluta necessidade. O que mais me surpreende é que só eu percebo as coisas. A universidade só tem analfabetos, uns esquerdistas que não viram que o futuro está no pré-Iluminismo.
 
Simão: A verdade no pré-Iluminismo?
 
Filósofo maior: A Revolução Francesa foi um erro. Qualquer revolução é uma deformação provocada pela idéia de práxis. Existe uma democracia que resulta em mediocridade cultural. Precisamos voltar à época dos intelectuais como clérigos. As missas, por exemplo, deveriam ser rezadas novamente em latim.
 
Simão: Os jacobinos estavam errados?
 
Filósofo maior: Completamente. Qualquer revolução é uma merda. Perdão pela franqueza. A esquerda inventou essa loucura de igualdade. O que é isso, meu Deus? O povo brasileiro é maciçamente de direita em cultura, moral, costumes. O verdadeiro homem não tem de defender apenas o livre mercado, mas um estilo de vida a ser seguido: anticomunismo, livre empresa, respeito à propriedade, moral judaico-cristã, educação clássica.
 
Simão: Devemos nos preocupar apenas com a liberdade?

Filósofo maior: Vamos falar às claras. Se cada brasileiro fosse reclamar seu direito à propriedade, aonde iríamos chegar? O Brasil inteiro seria retalhado. Se cada filho de uma doméstica exigisse direito à igualdade, aos estudos e a comer mais, o que iríamos fazer? O que está a nosso alcance é garantir um alimento mais vital do que o pão, uma riqueza mais fértil que a terra. Eu falo do direito à liberdade.
 
Simão: Ao vencedor, as batatas?

Filósofo maior: Evidente.
 
Simão: Que iluminação! Vamos para um intervalo, antes de receber os dois maiores cafajestes intelectuais do Brasil. Aguardem.
  
5o Bloco


 
Simão: Dois cronistas que iluminam nossa visão da atualidade. Como virou moda admirar Nelson Rodrigues, eles são assumidos cafajestes. Escrevem seus textos na imprensa, na internet, e depois juntam tudo num livro. Fazem propaganda de si mesmos e sobem na lista dos mais vendidos. Boa noite, como vocês dois conseguem ser tão, tão cafajestes?

Cafajeste-cronista: Meu amigo aqui é o melhor articulista do país, comprovado por uma empresa de consultoria dos Estados Unidos, a mesma que fazia as auditorias da Enron. Sou uma das centenas de milhares de macacas-de-auditório dele e o leio várias vezes ao dia.
 
Simão: De onde vem o sucesso tão retumbante?

Cronista-cafajeste: Acho que de minha ironia fina, sofisticada, quase machadiana. Chamo crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido, esquerdistas de assassinos, gays de degenerados morais, de ignorante quem discorda de mim. No auge de minha esquizofrenia, sustento que a lei deve ser cumprida.
 
Simão: Curioso. Vocês falam em cumprir a lei, mas vivem praticando a calúnia, a injúria e a difamação em suas crônicas.

Ambos os cafajestes: No Brasil, o assombroso é ficar do lado da lei. Insistimos nas leis e regras da democracia, da gramática, da lógica e dos bons costumes. Isso é um escândalo aqui. Transgredimos as regras, é verdade, mas é por uma boa Razão e porque temos bons advogados, claro.
 
Simão: Qual Razão?

Cronista-cafajeste: No próximo bloco, acho que o amigo Publicitário pode ter a melhor resposta para a nossa grande causa.
 
Simão: Qual de vocês é o mais brilhante?

Cronista-cafajeste: O meu amigo aqui...

Cafajeste-cronista: Que nada, você é o maior.

Cronista-cafajeste: Não, não, você passeia brilhantemente por diversos assuntos.

Cafajeste-cronista: Está bem, fico com o título, por humildade e camaradagem.
 
Simão: Que figuras incríveis, eles parecem lordes ingleses do século XIX, em pleno Rio de Janeiro Imperial e escravista. Obrigado... No último bloco do programa, vem aí o Publicitário, o gênio brasileiro de hoje.
 
6o Bloco

 
  
 
Simão: Ele é imbatível. Com uma frase feita e óbvia, elege presidentes e vende diversos produtos. Ele dirá o que é o novo conceito de cidadão. Publicitário, você é um fetichista?

Publicitário: Isso é coisa de Brecht, que foi um stalinista nojento. Ele queria expor as relações sociais embutidas naturalmente nas coisas. Veja só, um empresário põe seus empregados para trabalhar 14 horas dia e faz um programa de responsabilidade social, com ginástica laboral, para compensar. Isso é o que há de mais moderno. Se fosse na época do Brecht, seria acumulação primitiva. Tem muito empregado que lesa os patrões nas empresas.
 
Simão: A publicidade tenta vender o que não precisamos comprar?

Publicitário: Não insista no tom brechtiano, meu caro. Não vendemos produtos, vendemos a necessidade de comprar produtos. Não existe mais consumo de massa, agora é tudo personalizado, feito para um consumidor único.
 
Simão: A economia de mercado traz a felicidade?

Publicitário: Se fossemos entregar a felicidade, ninguém consumiria. O segredo é a promessa de felicidade. A vida está sempre mais ou menos, aquela pasmaceira, mas o consumidor precisa acreditar que tudo vai melhorar.
 
Simão: Mesmo que as pessoas se matem para isso?

Publicitário: Outro dia, li uma entrevista que não entendi bem. O sujeito, que é um notório atrasado, disse: “O problema é a maneira pela qual a sociedade é regulada pela noção de consumo como condição de acesso à plenitude da vida. Se você não tem acesso àqueles bens, você é um nada. E é a única coisa de que você dispõe. Trocam-se direitos por consumo”. Onde já se viu? É contra consumir.
 
Simão: Devemos ser consumidores ou cidadãos?

Publicitário: O Brasil somente será uma grande nação quando tiver um mercado consumidor do tipo norte-americano. Junk-food, gordura trans, carrões, mulheres com os seios grandes de silicone. Esse discurso de cidadania, dos direitos humanos, cheira a mofo. O máximo que todos deveriam reivindicar é liberdade.
 
 
Encerramento



Simão fica diante da platéia, baixa o olhar, comprime os lábios e começa a falar.

Simão: Foi uma noite e tanto. É a prova de como ficou estúpido ser inteligente. Se você quer ser grande, repita as lições ditas ao longo do nosso programa. Lembrem-se do meu velho irmão Janjão, o medalhão. Estamos diante da crise de paradigmas em Itaguay, e os convidados de hoje têm a saída. 

 
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