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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:51 PM

Seria o jequismo, nosso ismo?

publicado em

Nosso parâmetro de qualidade, inclusive nas manifestações artísticas, não é o complexo e o inusitado, mas o simples e óbvio — ou, por outras palavras, o fácil. De regra, demonstramos pouca ou nenhuma vocação para abstrair, daí a reserva quase rancorosa que se percebe em relação à crítica

 

Quando, em 1957, o governo Juscelino Kubitscheck acatou a idéia de se construir uma nova capital para o Brasil, a oposição fez um alvoroço. Um dos motivos contrariava o sítio escolhido, em pleno Centro-Oeste do país. Goiânia tinha já mais de 20 anos, ostentando o honroso título de primeira capital estadual brasileira planejada, no século XX. Seu projeto era realmente moderno, mas quem sabe não fosse suficientemente contemporâneo ou pelo menos modernista, a ponto de impressionar a nação litorânea. Simplesmente ignoraram a existência da gente local e, parece, o fruto visionário de seu líder, Pedro Ludovico. Disseram que isso aqui era, ainda, “um deserto” e “terra de índio”, ferindo o orgulho goiano, que tanto se jacta de suas coisas. Não é de impressionar que tenham feito tal juízo em meados do século passado. Anda hoje – quando nos constituímos numa metrópole regional - nossa cidade é tratada como “roça”. Seríamos mesmo uma reles “província” ? O que isso tem de verdade?
Não estou aqui para responder satisfatoriamente a tal pergunta, pois não fiz e não conheço pesquisas científicas a respeito. Minha intenção é problematizar; dizer de minha impressão pessoal e do que ouço com freqüência sobre o tema – o que não deixa de ter validade heurística. Costuma-se dizer que Goiás – e mesmo Goiânia - é bom porque, mesmo tendo se desenvolvido (sinônimo de crescimento urbano e adensamento populacional), mantém as “características de interior”. Uma das interpretações possíveis dessa afirmação revela algo que não me parece tão positivo: que somos uma sociedade conservadora. Sabemos que a mentalidade rural é lídima expoente daquilo que certa tendência historiográfica chama de “longa duração”, exatamente porque é sedimentada em valores seculares, fechados sobre si mesmos. Nos goianos, o fato de gostar da roça se justifica inconscientemente por essa ligação atávica, mas ainda muito forte entre nós, com um tempo sem pressa, litigado com a velocidade dos mais modernos mecanismos de sociabilidade e intercâmbio.
Paradoxalmente, esse desejo no mundo contemporâneo, onde se impôs o tema do meio ambiente, perde seu caráter retrógrado em favor da idéia, pretensamente avançada, de um retorno à natureza. Entramos aqui em outra discussão, porém, e nosso foco no momento é também outro: os impasses da cultura erudita em face da persistência de clichês tradicionais nesse universo. Daí o sentido crítico do que chamamos de “conservadorismo”.   
 É importante considerar – nós e os de fora que eventualmente lerem este artigo – que há razões históricas que certamente explicam esse ranço conservador que nos abate. O desenvolvimento econômico de Goiás teve várias etapas, segundo os historiadores e os economistas: conhecemos o ciclo do ouro, da pecuária e da agricultura. Mas não ultrapassamos a fase da agroindústria, o que revela o peso da economia primária – isto é, commodities - em nosso modo de vida, até hoje. Alia-se a isso o fato de que nossa capital tem menos de 80 anos de existência. Se o impulso norteador da Revolução de 30, no Brasil, foi a industrialização, para os insurgentes locais a indústria não teve nenhum apelo eleitoral, portanto nenhum peso político. Ainda assim, Goiânia cresceu dramaticamente: é o único centro urbano estadual realmente comparável às grandes cidades brasileiras, onde se supõe haver uma cultura mais aberta, mais “cosmopolita” e irreverente.
Porém, dimensão não conta. O que conta é o elemento humano, em que por exemplo divergimos de Recife ou Curitiba, quando pensamos em ocupação do espaço: a última teve moradores já em 1649, e mesmo Manaus – mais remota que Goiânia, ainda – data de 1669, enquanto somos de 1934. Nenhuma outra capital brasileira, se tem o nosso porte, tem a idade-menina que temos. Goiânia é única no Brasil, nesse aspecto. Não é uma cidade jovem – é adolescente, mesmo, diante das gigantescas escalas históricas.
Isso significa o seguinte: muitos dos pioneiros locais ainda estão vivos, mistura que contribui para explicar o que somos, por força de hábitos e costumes herdados. É provável que a maioria de nós descenda de pais vindos de cidades do interior ou diretamente da roça. É o caso deste colunista, cujo pai cultiva a viola e compreende melhor as lides do campo, tendo ainda uns poucos alqueires de terra, no município de Vianópolis. Sou filho de lavradores. Sendo esta uma tendência marcante, é fácil entender a influência original e avassaladora, de caráter rural, sobre nossas idéias e conceitos. Goiânia estaria, hoje, se tanto, numa fase de transição para uma sociedade efetivamente urbana, nascida na cidade (quadro que jamais se completa, por força dos fluxos migratórios). Por outras palavras, não seríamos ainda frutos de uma cultura, pelo menos hegemonicamente, citadina. Não seria correto exigir que fôssemos como Rio e São Paulo, ou que Porto Alegre e mesmo Belo Horizonte, portanto, em termos de “evolução” mental, seja lá o que isso significa.
O impacto dessa relação entre gerações distintas na produção cultural é tangível: Goiás só se sobressaiu nacionalmente em função da música “sertaneja” – pelo menos na perspectiva midiática. Muitos não gostam. Confesso que acho o ritmo alegre, e não veria graça em me sentar num boteco pra tomar cerveja ouvindo Edith Piaf (tenham a Santa Paciência!). Porém, boa parte dos críticos dessa moda se volta também para as tradições rurais, para as chamadas “raízes”. Ou seja, se mostram também conservadores, ao seu modo. Odeiam a festa da pecuária e seu corolário de atrações, mas cultivam o passado que lhe é circunvizinho, ainda que sob roupagem folclórica e de algum modo pitoresco. O tempo com o qual mais nos identificamos, em conjunto, é o passado e suas coisas, sem concessões à vida moderna e suas características, inclusive estéticas. É difícil, aqui, não entrar no terreno dos valores e não fazer julgamentos dessa natureza, deixando a história de lado e partindo para a crítica.
Nesse sentido, não é à-toa que outro fenômeno marcante daquela herança, na esfera simbólica, é a verdadeira adoração pela Cidade de Goiás, antiga Vila Boa, manifesta em estratos significativos de “nossa elite cultural”. Os filhos não se contentam em preservar e admirar o universo mental dos pais e avós: querem se possível incorporar em ritos aquelas tradições que talvez nem mais lhes pertençam, enquanto elementos novos e de fora. Isto é, não são mais os filhos daquela Goiás que inclusive sediara os governos oligárquicos e autoritários, num passado não muito distante. Nem todos nasceram ou moram ali, entretanto vivem a sua nostalgia, saudosos de uma realidade que não é a de sua geração. Não se diga que temos agora uma realidade melhor, mas a que temos é a realidade presente e isso basta: temos a obrigação de ser outra coisa.
Devíamos imaginar que Cora Coralina não quisesse um altar para si e tivesse mais satisfação em conhecer novidades. Ela é a escola de seu próprio tempo; não precisamos repisá-lo, remoê-lo e assim desmerecê-lo, rico que é em face de nossa virtual pobreza. Não deixar nossa poeta em paz, por outro lado, é sintoma preocupante de que não ultrapassamos seus dotes literários – e será isto positivo?
Se estamos falando de história, então estamos falando de sujeitos – não ligo para Foucault -, daí o tom realmente crítico deste remate. A nova geração deveria ser a cara de outro mundo, bem mais amplo e efervescente – um mundo ávido de novidades. Responsável por criar coisas que dialoguem, porém não se sujeitem servilmente à tradição rural e aos seus estereótipos. Brasigóis Felício cunhou um termo que me parece adequado para classificar esse estado de coisas: “bovinocultura”. Nosso problema, certamente, não é tanto o de cultivar tais estereótipos quanto o de replicá-los e ao-pé-da-letra: não bastava um Geraldinho, autêntico, é preciso uma plêiade artificial e sem-graça deles. Não basta uma dupla que faça o gênero caipira: é preciso clonar a “idéia” ao limite do tédio, da náusea. Não basta que se toque berrante na fazenda: é preciso importar para Goiânia e expor na televisão como – pasmem! - se fosse a coisa mais excepcional do mundo ou, pior, “arte”.
Aliás, nosso parâmetro de qualidade, inclusive nas manifestações artísticas, não é o complexo e o inusitado, mas o simples e óbvio – ou, por outras palavras, o fácil. Daí aquela simpatia ingênua pelos tipos e representações comuns – seria o jequismo, nosso ismo? -, contra as “complicações” de um Zé Celso Martinez Corrêa, tropicalista. Zé Celso foi invenção cerebral. O cérebro e não o espontâneo, a elaboração custosa e não a natureza dada. De regra, demonstramos pouca ou nenhuma vocação para abstrair, daí a reserva quase rancorosa que se percebe em relação à crítica, essa preciosidade inaceitável se extravasa os limites do encômio, não por acaso sem futuro. Diga-se de passagem, o futuro é categoria que nos amedronta.
O que cansa nossa beleza, enfim, é a overdose conservadora e exótica, estimulada por setores influentes da mídia. Valendo-me de uma analogia, é como se os paulistas vivessem ritualizando o bandeirante e não estimulassem o surgimento de Tunga – o extremo que eleva a cultura a novos patamares, e que é também uma necessidade histórica. Uma necessidade do espírito. Afinal de contas, se só vivermos do passado, quem, no futuro, terá referências do presente em que estamos? É um caso seriíssimo a se pensar.  

 

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