Senhores das letras
Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres

O escritor dá forma à memória desordenada: uma brincadeira de criança, a alegria na fazenda, a passagem para a vida adulta, o rito de passagem intelectual, o desgosto pela convivência em meio à gente ignorante, a situação então incompreensível e agora entendida do país. O que são ruínas pequenas das lembranças serve de matéria para narrativas longas. Nada garante que tudo não vai continuar arruinado. O desconforto inicial torna-se prazer, e o autor dana a escrever, falar, interpretar. Quem fala é o indivíduo que não se considera parte de um extrato da sociedade. Ele decide qual o seu lugar diante dos outros.
O letrado brasileiro mantém uma relação tensa com os iletrados. Não abre mão do que tem, rejeita a compartilhar – ou melhor, evita comunicar com. Escrever significa ter o controle das representações, visões, interpretações disseminadas em toda sociedade. Quem escreve, manda. Contra isso, segundo Willi Bolle, surge a novidade do romance “Grande Sertão: Veredas”, que é um diálogo realizado na forma de um monólogo imenso. Já velho e latifundiário, o personagem Riobaldo conversa com um sujeito citadino – a cidade seria o espaço para a modernidade, as letras, a civilização. Cria-se finalmente um diálogo.
A literatura brasileira é feita por escritores que falam muito de si e assumem a missão de representar o outro iletrado. É um fardo para quem acha que nasceu para guiar a nação. O outro fala muito pouco, quase nada escreve. Em seus melhores momentos, esse narrador à brasileira problematiza a relação dos poucos que possuem todas as letras com os muitos que tiveram escassas palavras. Quando atingem momentos mais altos, os letrados desvendam suas próprias baixezas, que é a própria má-formação do país e dão voz aos iletrados para expor outra visão de mundo. Mas pouco espaço existe para o sem-letra escrever e exibir sua representação da vida.
Senhores perversos
A inovação de Machado de Assis foi criar um narrador diferente em seus romances de segunda fase, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. As primeiras obras já traziam o realismo e o quadro histórico de uma sociedade escravista baseada no favor, conforme assinala Roberto Schwarz. O novo narrador machadiano é o sujeito que escreve, se posiciona socialmente e sente um gozo imenso ao contar suas perversões. Brás Cubas fala de tudo, se contradiz. A cada capítulo, acha que pode mudar de opinião. O tom jocoso é sucedido, na mesma página, pelo ar solene e grave.
O narrador machadiano atinge um refinamento em “Dom Casmurro”. A atitude perversa continua a mesma de Brás Cubas, mas o personagem Bentinho traz a novidade da dissimulação. Desaparece o sujeito grotesco e espalhafatoso. Agora, tem o controle do mundo o indivíduo que sabe jogar com a teatralização da vida. O primeiro capítulo mostra os objetivos de Bentinho ao escrever: “Vou deitar ao papel as reminiscências que me vieram vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo”. Em plena época do realismo/naturalismo, Machado de Assis lança a “a ficção de si mesmo” de um personagem que conta suas memórias.
Emile Zola defendia que a escrita realista deveria ter os métodos do cientista que observa as coisas e cria um espelho da realidade. Machado vai contra essa orientação e tem consciência de que a escrita é uma construção, algo manuseado, sobretudo numa narrativa memorialística. No capítulo “Uma ponta de Iago”, de “Dom Casmurro”, o narrador apresenta seu estilo de filtrar o mundo pelas palavras: “O discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória, chegaremos à exata verdade”.
As memórias de Bentinho podem se dar o luxo de relatar assim o desfecho do motivo maior de sua escrita: “A mãe — creio ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça”. A “mãe” é Capitu, por quem o narrador se apaixonara, casara e sentira ciúmes intermináveis. No entanto, o narrador a trata com desdém, que é um traço dos letrados brasileiros em relação aos iletrados. Meio abobalhado no início do livro, o velho e silencioso Bentinho vai sofisticando as técnicas de dissimulação que, segundo ele, seria a principal característica negativa de Capitu.
A perversidade machadiana reaparece em Graciliano Ramos, um autor que, a princípio, trata apenas do mundo rural e está longe dos jogos de sobrevivência nas cidades. O personagem Paulo Honório, de “S. Bernardo”, dá continuidade a Bentinho ao escrever obsessivamente a respeito do ciúme e da propriedade. Já no início do romance, ele fala de sua divisão social da escrita. Mas logo desiste e assume ele mesmo a tarefa. O controle das letras é completo: “Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo com está no papel. Houve suspensões, repetições, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras”.
O “pio da coruja” ativa a memória de Paulo Honório, que passa a relatar a vida de fazendeiro e de marido de Madalena. “É o processo que adoto; extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto é bagaço”, diz ele. Esse narrador transforma justamente os outros em bagaços. O ciúme pela esposa (uma letrada, em um meio rústico e tradicional) provoca o descontrole. Capitu e Madalena são mulheres esclarecidas que desagradam os senhores de todas as letras. Eles não conseguem controlá-las e usam a violência da escrita para impor uma versão dos acontecimentos. A elas, cabe o desfecho da extinção, da morte por tristeza, para que se mantenha a situação obscura e estagnada na sociedade.
Diálogo difícil
Guimarães Rosa traz a novidade dos narradores letrados que problematizam a difícil relação com os iletrados. Não há mais o sujeito isolado em casa, escrevendo suas memórias do tempo perdido. O que surge é um diálogo entre grupos sociais que foi interditado e, agora, pode finalmente se realizar. Os conhecidos neologismos do autor fundem as palavras de várias línguas estrangeiras com as expressões do interior de Minas Gerais. A escrita rosiana é uma reinvenção da fala do interior do país, uma recriação que mistura a oralidade dos iletrados à erudição dos letrados. Rosa não espelha o linguajar sertanejo, como seria de esperar numa narrativa realista. Ele a transfigura.
“O problema da falta de diálogo social é trabalhado nessa obra [Grande Sertão: Veredas] em todos os níveis: desde a situação narrativa, que confronta um narrador sertanejo e um ouvinte letrado, passando pela história contada, com a fala de chefes políticos e de pessoas do povo, até a representação de uma nação dilacerada e a utopia da invenção de uma nova linguagem”, nota Willi Bolle. Esse diálogo complexo dentro da sociedade brasileira é também o ponto central de outros contos de Guimarães Rosa, como “Famigerado” e “Meu tio o Iauaretê”. Tais narrativas indicam uma possibilidade de mudança social. Outra forma de dialogar poderia existir na cultura brasileira.
O otimismo dos anos 1950 vai se desfazendo na medida em que os anos avançam no Brasil. O papo fértil entre as diversas classes foi a utopia anterior ao Golpe de 1964, com os intelectuais se aproximando do povo, do “homem simples”. Os primeiros anos da ditadura militar se concentraram justamente na tentativa de rompimento do laço que se fortalecera desde os Centros Populares de Cultura (CPC) até a “câmera na mão” do Cinema Novo. Só partir de 1969 é que, sob a fantasia de ameaça comunista, os militares adotaram a política de encerrar, de uma vez por todas, o diálogo dos letrados com os iletrados.
A conversa impossível do intelectual com o outro aparece de maneira formidável em “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector. O livro não é a história da nordestina pobre. É a narrativa da dificuldade do escritor em construir a personagem que vive na mais absoluta pobreza. O narrador Rodrigo SM pode exercer todas as perversidades para criar Macabéa: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”. Ele quer aparentar o controle total: “É um relato que desejo frio. Mas tenho o direito de ser dolorosamente frio, e não vós”.
Em alguns trechos, o criador se identifica com a criatura, afinal ele é um escritor e ela, uma datilógrafa. Ambos trabalham com a escrita. “Quero neste instante falar da nordestina. É o seguinte: ela como uma cadela vadia era teleguiada exclusivamente por si mesma. Pois reduzira-se a si. Também eu, de fracasso em fracasso, me reduzi a mim mas pelo menos quero encontrar o mundo e seu Deus”. No fim, de desgraça em desgraça, o narrador condena o destino de Macabéa. Ela morre atropelada, e ele lembra que chegou o tempo de morangos. Não tem mais conversa, e tudo se acaba.
Eu, o supremo
O novo milênio é a continuação dos 30 anos anteriores, do final do século XX. Valoriza-se o individualismo. O consumo orienta os desejos. O conhecimento (as letras?) vira insumo para a criação de produtos. O dinheiro volátil viaja por computadores, em redes mundiais que conectam sujeitos ilhados.
Em ambiente de tamanha desagregação, dois memorialistas foram as duas melhores novidades da literatura brasileira recente. Bem ajustados à tradição cultural do país, seus narradores escrevem, contam suas memórias à beira da morte e desvendam as artimanhas dos letrados para controlar a sociedade. Estamos em casa com esses velhinhos perversos, herdeiros de Bentinho e Paulo Honório.
Em “Heranças”, Silviano Santiago dá voz a Walter, um senhor que se muda de Belo Horizonte para Rio de Janeiro de hoje para viver os últimos dias de vida. As memórias jorram: “Não importa se tenha de me valer de recursos artificiais na recordação e na descrição do tempo presente. Aceite, pois, que eu busque apoio na muleta da memória voluntária. Sairemos ganhando Garanto-lhe”. Seguem daí as desventuras de um homem com mulheres virgens, prostitutas, abortos preventivos, negócios com imóveis e na bolsa de valores. A quem deixar tanto dinheiro? Não importa; afinal o dinheiro só serve para ser acumulado no Brasil, sem destino. A herança, na verdade, é o próprio relato do livro.
O legado de outro memorialista recente difere da abundância de dinheiro de Walter. Em “Leite Derramado”, de Chico Buarque, o personagem Eulálio está num hospital, aos 100 anos, sem um tostão dos recursos e sem a glória do passado. Só lhe resta narrar a história desde os ancestrais portugueses ao atual tataraneto traficante de drogas. É a rememoração do lento declínio de como ele e o Brasil deixaram o leite derramar. “Eulálio Montenegro d´Assumpção, 16 de junho de 1907, viúvo. Pai, Eulálio Ribas d´Assumpção, como aquela rua atrás da estação do metrô. Se bem que durante dois anos ele foi uma praça arborizada no centro da cidade, depois os liberais tomaram o poder e trocaram seu nome pelo de um caudilho gaúcho”, destaca o narrador, sobre o passado importante de sua família.
O senhor exemplar do passado, no entanto, vai parar num subúrbio carioca, pouco antes de agonizar no hospital no ano de 2007. Numa das melhores passagens, ele e a filha Maria Eulália chegam ao bairro longínquo, que havia sido um local de “clubes campestres e chácaras aprazíveis”. Mas hoje: “Perplexa, Maria Eulália olhava aqueles homens de calção à beira da estrada, as meninas grávidas ostentando as panças, os moleques que atravessavam a pista correndo atrás de uma bola. São os pobres, expliquei, mas para minha filha eles podiam ao menor se dar o trabalho de caiar suas casas, plantar umas orquídeas”.
Das perversidades machadianas à perplexidade buarqueana, o escritor brasileiro vive enredado nas memórias. Há uma dificuldade enorme dos letrados em entender quem são aqueles outros que vivem nas ruas, sobrevivem de favores, trabalham na informalidade e moram em locais insalubres. Os melhores momentos da literatura brasileira estão justamente nos mergulhos pelos baixos instintos dos endinheirados e pelas vidas degradadas dos empobrecidos.





