POR J. C. GUIMARÃES
EM 01/07/2008 ÀS 05:31 PM
Preto, pobre e genial
publicado em ensaios
Machado de Assis é, seguramente, o sol do nosso sistema literário. Fundamental no romance e provavelmente no conto, é importante também pela crítica que exerceu e talvez pela poesia que nos deixou, inteiramente medíocre para uns, antológica para outros, em certas partes. Seu teatro — ele, que tanto apreciou Shakespeare — é o que menos importa. Sua grandeza é única, em que pese sua escala universal, fato que é confirmado pela melhor crítica. Alfredo Bosi já disse, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, que, com o surgimento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele antecipou — em décadas — as principais “descobertas” de pelo menos dois autores consagrados mundialmente no século XX: “Foi nesse livro surpreendente que Machado descobriu, antes de Pirandello e de Proust, que o estatuto da personagem na ficção não depende, para sustentar-se, da sua fixidez psicológica, nem da sua conversão em tipo; e que o registro das sensações e dos estados de consciência mais díspares veicula de modo exemplar algo que está aquém da persona: o contínuo da psique humana.” (p.180)
Isso parece não ter sido, ainda, reconhecido em outras plagas, embora seu auditório internacional seja cada vez mais amplo e consolidado. Seguindo os passos de Bosi, podemos acreditar que o genial escritor brasileiro foi ainda mais longe, pois suas leituras de Lawrence Sterne levaram-no a antecipar-se a todos os principais nomes da literatura moderna, no séc.XX. O que ele descobriu no sátiro inglês os demais foram buscar, mais tarde, na filosofia de Henri Bérgson: certas noções antimaterialistas do tempo, que culminaram na nação de fluxo de consciência, e que vem a ser este “contínuo” machadiano. É claro que Proust, Virginia Wolf e outros de igual relevo não tiveram contato com a obra de Machado de Assis, e por este motivo foram tão originais quanto ele. Certo, não lhe devem um vintém, ao contrário dele mesmo, que tem dívidas consideráveis com mais estrangeiros, entre os quais Almeida Garret e Poe. Mesmo assim, um dos méritos de Machado foi ter conseguido algo que nenhum outro havia conseguido então, e quem sabe até hoje, no Brasil: desenvolver e consolidar uma técnica narrativa revolucionária — manifesta na Europa contemporânea e nos EUA só depois da Segunda grande Guerra —, tanto quanto coincidir esta antecipação com uma aguda consciência nacional.
Infelizmente, a influência que um escritor exerce sobre outros é decisiva para dimensioná-lo num determinado nível, e Machado de Assis não foi descoberto a tempo por ninguém fora de seu próprio país; sequer a América espanhola, fronteiriça, o conheceu suficientemente bem.
Insista-se, entretanto: alguns dos escritores que revolucionaram a literatura mundial nos últimos 80 anos — além dos citados, Joyce e Faulkner — não chegaram, conclusão lógica, antes de Machado de Assis, talvez o segundo a operar aquela técnica narrativa cujo paroxismo extravagante seria manifesto por Molly, personagem de Ulysses, de James Joyce. Isto nos faz pensar — hipótese inteiramente absurda — que, se o criador de Capitu tivesse nascido na França ou na Inglaterra, e não no Brasil, é possível que seu impacto universal fosse outro, simplesmente porque tínhamos aí os principais centros irradiadores da cultura literária ocidental naquele tempo e ainda hoje. Seria alçado, quiçá, às alturas de Hugo, de Dickens, o que não deveria soar pretensioso de nossa parte. Harold Bloom disse que ele é o maior escritor negro que já existiu; disse pouco: é também maior que a maioria dos escritores brancos, com exceção de duas ou três dezenas que incluem Tolstói e Flaubert.
Não se trata, como adverte Bosi no livro citado, de idolatrar “um autor que fez da literatura uma recusa assídua de todos os mitos”. Trata-se apenas de convirmos com uma verdade sumamente objetiva, que é seu pioneirismo inconfundível, fiado pelo tempo: simplesmente nasceu e produziu antes, e nada pode falar mais alto. Se fôssemos movidos pela emoção neste julgamento, não tergiversaríamos por Guimarães Rosa, em sua companhia no panteão nacional — nem acima nem abaixo —, porque isto corresponde exatamente ao que sentimos. Entretanto, com pesar, temos de admitir que o autor de Grande Sertão: Veredas claramente divide opiniões: gênio realizado para Sérgio Buarque de Holanda e Franklin de Oliveira (que lhe dedicou uma louvação), não convenceu Wilson Martins e parece que nem Carlos Heitor Cony, hipótese que assumiria aspectos de heresia, senão de ignorância pura e simples, em se tratando de Machado de Assis.
Para citar outro que aborda a novidade representada pelo aparecimento de Machado, lembremos de Hélio Pólvora, aqui tendo por matéria analítica o conto moderno, principalmente:“Ele se antecipou à ambigüidade de Joseph Conrad, à ambivalência narrativa de Faulkner, que vem a ser das mais perversas, ao impressionismo de Proust e aos silêncios eloqüentes de Tchekhov”. (46)
Pólvora lembra que os criadores do conto clássico foram Nicolai Gógol, Edgar Alan Poe, Guy de Maupassant e Anton Tchekhov. Machado, contemporâneo deste e tão original quanto ele, sem sequer conhecê-lo, poderia tranqüilamente figurar em tão distinta seleção, não fosse a sorte, outra vez, de ter nascido num país periférico, consagrado à marginal mas honrada língua portuguesa. Consta que uma das contribuições decisivas de Tchekhov à short story foi ter inventado histórias em que o silêncio é que fala mais alto, o que, pela mesma época, fez magistralmente nosso Machado.
Pensemos no erótico “Missa do Galo”. Muito parecido com “Uns Braços”, em seus motivos — neste conto também um forasteiro se delicia com a visão sensual do braço de uma senhora —, é, no entanto, mais denso, talvez melhor. Curioso, este conto não importa pela conclusão vulgar: o protagonista, Nogueira, realmente sai para assistir à missa, conforme o combinado com um amigo. O que o eleva são as entrelinhas, a sugestão, o subentendido já a partir do primeiro diálogo entre a resignada D. Inácia e esse seu hóspede. A atmosfera de sensualidade corre frouxa entre os dois — ela, que se sabe traída pelo marido, e ele, que sabe disto —, entretanto os vence, afinal, a repressão da moral cristã e burguesa ou, quem o saberá?, o relógio. Ninguém pode julgar até onde iriam aquele moço pio, suspenso, porém, pela tentação da carne, e aquela mulher casada, contudo enfastiada do lar, já sentada ao seu lado, quase entregue, em devaneio...quando batem à porta! Um primor.
Dizem, então, que este é um conto “à maneira de Tchekhov”. Isto o subestima; é receio de assumirmos um lugar que deveras nos pertence no concerto literário universal. Se “Missa do Galo” é tchekoviano — a razão de “O Beijo” não ser machadiano explica o caso contrário —, então Dom Casmurro é o esteio deste jogo, ou pelo menos sua versão romanceada, e seu autor deveras um monstro, que terá chegado primeiro a muitos, ou, pelo menos, junto, não na retaguarda. Analisando a estrutura deste romance, Barreto Filho ousa dizer que, com ele, Machado de Assis criou um gênero novo: “O livro é feito de pequenas cenas e incidentes, uma urdidura cerrada, obedecendo muito à estrutura de uma peça teatral, na entrada e saída das personagens, nos diálogos curtos e breves. Mas seria uma peça à qual se incorporaram o trabalho dos bastidores e as indicações e movimentação cênica. Isso lhe dá um aspecto único. É um gênero novo, estritamente machadiano”. (p.165)
Duas coisas: a precaução exige que tal hipótese se deixe confirmar por outros exegetas, além do que tal gênero parece não ter deixado cultores que o consolidassem como aos demais, se fosse realmente o caso. Adverte-se, apenas, que essa opinião nos remete a criadores prodigiosos, do nível de Montaigne e de Cervantes. Acreditamos que é um exagero, mesmo assim não é favor nenhum, de uma vez por todas, reconhecer o lugar de Machado de Assis sem que nos estorve nosso constrangimento habitual e passe da hora. Essa convicção ampara-se no próprio texto machadiano e em conclusões que nos soam exatas, como as do mesmo Barreto Filho, para quem, ao contrário de muitos — dada a homérica tarefa que isso obviamente representa —, Machado de Assis criou também “uma galeria de tipos absolutamente realizados e convincentes.”
Entre os inúmeros acertos de Machado de Assis, está este, sem dúvida. Em seus principais romances, é sabido que o escritor demonstra profundo ceticismo com a natureza humana, fraca e impelida sobretudo por interesses mesquinhos. Nisto é tedioso como qualquer outro que se preze. Mas há obras nas quais atenua este sentimento não com seu humor, mas com a medida, a exemplo de um conto de sabor moralizante, “A Igreja do Diabo”, em que não tanto os protagonistas (afinal mitológicos), mas a natureza humana se nos revela de forma perturbadora.
Aqui a visão maniqueísta é de certa forma posta em xeque pela conclusão de que somos uma terceira coisa: a amálgama insolúvel do bem com o mal. Esta seria nossa verdadeira natureza, que surpreendeu ao próprio Diabo, tentando implantar sua igreja entre nós. A princípio, Machado nos leva a crer que Deus é que está fadado ao fracasso, pois semeia no meio do mal — a alma do homem —, onde as virtudes diabólicas vingam com extrema facilidade, sugerindo que os instintos, e não a consciência, é que nos enformam. Daí a aceitação imediata da nova doutrina pela humanidade, ao se supor que o Diabo restitui sua verdadeira natureza: as virtudes consagradas (a solidariedade, o amor etc.) não seriam mais do que um verniz moralizante, incapaz de conter a manifestação da inveja, da gula, da avareza, da fraude etc., e pensamos que, afinal, o Diabo tem razão. Este aqui é o seu reino. Mas, não é e não tem razão: Machado não acredita que somos apenas maus, e também o Diabo fracassa em seu empreendimento. Põe o rabo entre as pernas e vai-se lamentar com Deus.
A moral da anedota é que o homem é uma contradição, a luta permanente entre as forças do bem e do mal. Por outras palavras, não somos isso “ou” aquilo, mas fatalmente isso “e” aquilo. Eis tudo, a despeito das igrejas e mesmo das ideologias, na sua quimera de tornar o homem perfeito segundo um princípio ou outro da existência. Daí o sentido de outra assertiva de Bosi: “Menos do que “pessimismo” sistemático, melhor seria ver como suma da filosofia machadiana um sentido agudo do relativo: nada valendo como absoluto, nada merece o empenho do ódio ou do amor. Para a antimetafísica do ceticismo, a moral da indiferença”.
Finalmente, Barreto Filho:“Encontramos em sua arte, ao mesmo tempo eqüidistante dos excessos sentimentais do Romantismo e da frieza do Naturalismo, o traço próprio das grandes vocações artísticas: a capacidade de fazer objetos perfeitos, aptos a provocar no espectador aquela suspensão admirativa e essa espécie de sabor particular que o espírito encontra nas obras do espírito”. (p.153)
O que nos propõe aqui, entre outras coisas, é que o segredo da obra machadiana é o equilíbrio, como equilibrada é também a obra poética de um Carlos Drummond de Andrade, segundo sugestão de Gilberto Mendonça Telles. Esse seria, portanto, do ponto de vista da análise crítica, uma qualidade dos autores mais representativos, daí porque, matreiros, não se deixam mergulhar de cabeça em fórmulas de época como seus contemporâneos, às quais opõem a própria personalidade, que finalmente se distingüe das outras e se sobressai. Essas outras, por mais representativas e dignas de canonização, seriam já problematizadas pelo tempo e pelos modismos, com seus naturais desvios, mais fiéis que são às doutrinas que à natureza.
E, entretanto, a representação fiel da natureza constitui inegavelmente um dos maiores atributos do gênio, razão pela qual Machado de Assis não foi apenas realista: foi também moderno à época do Modernismo e continua vivo num mundo pós-moderno, que certamente ultrapassará. Mas este é o seu destino.





