Os Nazistas estão de volta
Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana

No dia 20 de julho de 1944 uma tentativa de matar Hitler é levada a cabo numa conspiração de oficiais do exército alemão – assunto de que trata a mais recente produção cinematográfica do astro Tom Cruise, “Operação Valquíria”. Suponhamos que naquele momento a Wehrmacht estivesse em ofensiva vitoriosa contra as forças aliadas. Apenas suponhamos, porque, como é sabido, não era o que estava acontecendo.
Primeira cronologia
Uma rápida cronologia de fatos militares e políticos mostra que: em junho de 1944, os Aliados haviam desembarcado na costa da Normandia; seis meses antes, em dezembro de 1943, Roosevelt, Churchill e Stalin já acordavam sobre a divisão da Alemanha no pós-guerra; no ano anterior (pouco mais de dois meses após o desembarque Aliado na Sicília) Mussolini fora apeado do poder na Itália. O ano de 1943 se iniciara, na verdade, com claros sinais dos rumos desfavoráveis que a guerra havia tomado para os alemães: em meados de janeiro, americanos e ingleses já se imaginam capazes de exigirem a rendição incondicional da Alemanha e o fazem (Conferência de Casablanca). Dias depois, o Sexto Exército alemão (duzentos e cinqüenta mil soldados) capitula em Stalingrado.
Recuando ainda mais no tempo, os prenúncios da derrota militar já são visíveis nas crises no interior do corpo militar alemão e, em setembro de 1942, após discordâncias graves com o Estado Maior do Exército, Hitler se vê obrigado a destituir seu Chefe, Franz Halder, substituindo-o pelo general Kurt Zeitzler. Em meados de 1941, portanto três anos antes da fatídica data que inicia este artigo, com o fracasso da blitzkrieg alemã no Leste, a unidade do exército hitlerista já não era a mesma de quando invadiu a Techcoslováquia e meses depois a vizinha Polônia, dando início à expansão “manu militari” do domínio alemão da Europa e à II Grande Guerra.
Portanto, a questão inicial é: se ao invés da profunda crise relatada acima estivesse a Wehrmacht em ofensiva e somando conquistas haveria entre os seus descontentamento suficiente para produzir o atentado daquela data contra a vida do líder nazista? DUVI-DÊ-Ó-DÓ!
Ou, parafraseando Tadeusz Borowski (citado por Imre Kertész), que perguntava “o que o mundo vai saber de nós (os judeus) se os alemães vencerem?”: o que a Wehrmacht estaria pensando de Hitler se sua estratégia expansionista estivesse apresentando resultados positivos?
Segunda cronologia
Na eleição presidencial de 13 de março de 1932, Hitler obtém 30,1% dos votos dos seus concidadãos. Em finais de julho, os Nacional-Socialistas conseguem o apoio de 37,3% dos eleitores e, com duzentas e trinta cadeiras, se torna o maior partido do Reichstag. Seis meses depois Hitler é nomeado Chanceler do Reich.
Mais alguns dias e suspende os direitos civis, promove “prisões em massa de comunistas e outros oposicionistas de esquerda”. Em março os Nazistas aumentam sua votação, comemoram o seu crescimento no Reichstag para duzentas e oitenta e oito cadeiras – e Himmler anuncia a criação do primeiro campo de concentração (não se trata ainda de campo de extermínio), em Dachau. O início do mês seguinte é coroado pelo “boicote nacional às lojas judaicas”. Em maio, os sindicatos são compulsoriamente dissolvidos, os livros de autores “não-alemães” são queimados nas ruas e nos pátios das universidades, o Partido Social-Democrata (SPD) é banido, o Partido Comunista já o fora sem nenhuma formalidade, e nas próximas semanas os demais partidos são dissolvidos. Em 14 de julho de 1933, uma lei proíbe a formação de outros partidos além do Nacional-Socialista e “estabelece o Estado unipartidário” – na eleição que se segue (12 de novembro) os nazistas conquistam 92,2% dos votos dos alemães.
Está implantada a ditadura nazista – ditaduras são aqueles regimes que rasgam as Constituições em vigor e, amparados na força das armas (nas forças armadas do país e, como na Alemanha dos anos trinta, em outros agrupamentos armados), passam a exercer o poder de acordo com as determinações de um indivíduo e seus asseclas, na qual se encontram, evidentemente, seus camaradas de armas.
O Estado nazista, portanto, é resultado da livre escolha do povo alemão, manifesta por meio das tradicionais eleições democráticas onde, de nenhuma maneira, os nazistas escamotearam suas intenções e métodos, que logo em seguida se transforma numa ditadura com significativo apoio popular, não apenas da indústria e dos grandes proprietários rurais, e decidido amparo nas FFAA – sem o qual, evidentemente, não poderia fazê-lo. Esses militares, na verdade, estão prenhes de orgulho nacional pelo reerguimento da máquina de guerra da velha Prússia.
Portanto, apesar de eventuais e convenientes sugestões em contrário, o nazismo não é uma aberração. Seu vínculo com as FFAA, assim como o suporte que ali encontra, é expressão de uma relação aguda com a realidade alemã. Seus tentáculos estão bem fincados no corpo social e é dali que extrai a seiva da qual se alimenta.
Seja como for, desde a chegada ao poder uma longa década cheia de acontecimentos notáveis ainda está por vir antes que um grupo de bravos oficiais prussianos resolvam liquidar o repugnante ditador.
A data do estabelecimento do primeiro campo de concentração está fixada nos anais em 20 de março de 1933 – espécie de ato de abertura da ditadura nazista. A partir dali estava institucionalizada a perseguição (a caça) a todos aqueles que à esquerda se opunham ao regime hitlerista e, logo adiante, aos judeus, ciganos, etc. Ainda serão necessários mais cinco anos antes que uma desarmonia surja no seio das forças armadas. E, apesar das inúmeras atrocidades que vinham sendo cometidas – prisões em massa, tortura, espancamento, assassinato “de incontáveis oponentes políticos”, queima de livros, criação de campos de concentração, liquidação na prática do sistema legal do Estado com a submissão radical do corpo judiciário à vontade do ditador e “às exigências do poder executivo policial”, etc, etc – não serão elas a causa da cizânia. Na realidade, em 18 de agosto de 1938, o Chefe do Estado-Maior, Ludwig Beck (interpretado no filme de Cruise por Terence Stamp), “apresenta sua demissão, em virtude da intenção de Hitler” invadir a Tchecoslováquia (o que acaba fazendo, em março do ano seguinte).
A Wehrmacht
É claro que desde o princípio Hitler dedicará especial atenção aos militares, tentando cativá-los. Assim, logo após sua consagração como chanceler inicia uma agressiva ofensiva em direção às instituições republicanas, mas o exército, este, ele manterá intacto. Nenhum “expurgo, nenhum assalto, nenhuma interferência” é tentado ali. Pelo contrário, desde antes da chegada ao poder, o contato com os militares é aprofundado em cima do “compromisso com o rearmamento maciço..., (e o) esmagamento da esquerda”.
Por outra parte, como diz Ian Kershaw em seu estudo sobre o ditador, “não é de surpreender... que, quando a liderança militar começou a se preocupar com a possível subordinação do exército a uma futura milícia dominante, formada pela SA (que contava com 2,5 milhões de homens no começo de 1934), Hitler tenha-se mostrado disposto, em julho de 1934, a agir com extrema desumanidade contra parte de seu próprio Movimento”.
Submetida (brutalmente – e esta é uma característica do regime desde as primeiras horas, aliás, jamais escamoteada) a SA, praticamente todas as rusgas entre o chefe nazista e o oficialato alemão estarão resumidas a desentendimentos técnicos (referentes a táticas e estratégias militares), nunca a questões de princípio. Inclusive quando, iniciada a campanha contra a Rússia stalinista, compromete diretamente todo o corpo do exército na participação em assassinatos e execuções que nada têm a ver com as operações militares, o que encontra de resistência é inteiramente residual.
Portanto, é inteiramente falsa a perspectiva apresentada pelo filme de Tom Cruise. Nada há de heróico na tentativa de assassinar Hitler levada a cabo pelo coronel von Stauffenberg e seus camaradas, senão que o mais puro oportunismo típico daqueles que escolhem o lado de acordo apenas com as boas chances da vitória.
Nota
Frente ao horror do extermínio parece que nos tornamos condescendentes com todas as outras vilanias, todas as outras formas de humilhação e terror levadas a cabo pelo regime nazista. Não deveria ser assim. A ditadura hitlerista e sua ideologia fundada no ódio, no medo e na discriminação, muito antes de iniciar a matança já era um ataque infame contra a espécie humana. E desse ataque aqueles militares foram protagonistas e amparo.
Abominações do homem comum (ou: a propósito de “O Leitor”)
Considerar monstros àqueles seres abomináveis envolvidos nas operações nazistas, sujeitos que como nós foram deixando para trás a própria humanidade, como uma serpente trocando de pele (em brutais processos de alienação fartamente recompensados do ponto de vista material ou por ridículas prendas no campo do imaginário), e tratá-los como se fossem aberrações, considerando-os alheios à espécie, é uma trapalhada já exaustivamente comentada e condenada.
De outra natureza é a operação de transformá-los em inocentes homens (e mulheres) comuns, semelhantes a cada um de nós, seres falíveis, não imunes a graves deslizes de comportamento. Isso implica no reconhecimento de que ali estava o mal e a perversidade e que, portanto, essas marcas estão inscritas também nas nossas próprias feições – claro que não as enxergamos quando nos olhamos pela manhã no reservado espelho dos nossos banheiros.
A face que ali está estampada é, rotineiramente, a mais imaculada das faces humanas: a nossa. Qualquer mácula que nela vislumbremos vai nos provocar uma imediata onda de auto-compaixão. E, então, no movimento reverso, quando olharmos para aquele sujeito que tendo encarnado o mal numa determinada circunstância se parece tanto conosco, trataremos de nos compadecermos dele (como se sabe, somos extremamente ágeis quando se trata de nos desculparmos, sobretudo quanto às nossas covardias morais). Tenderemos, portanto, a justificar os mais desprezíveis dos seus gestos e a perdoá-los (porque, ademais, padecemos todos dessa lastimável psique judaico-cristã marcada pela autocomiseração). Mas esta não será uma trapalhada tão ou mais nefasta que aquela de considerá-lo uma aberração?
Quando, na verdade, aquele abominável homem comum, e da mesma forma cada um de nós todas as vezes em que formos capazes de ser como ele, não merece nenhuma compaixão. É preciso derrotá-lo. E é, sobretudo preciso, muito mais que encarcerar, matar e, só então, soterrar este ser abominável que habita nossa alma. Provavelmente, a condescendência que em nós permite sua sobrevivência seja mesmo parte dessa praga psíquica que se apresenta sob a forma da covardia moral. Talvez seja exatamente aqui onde esteja inserida a permanente atualidade do foco sobre a Alemanha Nazista. Talvez por isso o nazismo não possa nunca parar de ser lembrado e espicaçado e hostilizado. Porque não se trata de uma aberração, nem muito menos de um regime excepcional definitivamente varrido para fora da história e, embora como poder de Estado tenha se constituído apenas naquele momento e naquele território, na verdade tinha (e tem) bases psíquicas presentes e prontas para se manifestarem em tudo quanto é canto do mundo capitalista desenvolvido, a qualquer momento.
É muito pouco nos contentarmos quando aquele ser desprezível é levado aos tribunais e submetido aos eventuais rigores da lei (do sistema legal em vigor num determinado lugar e numa determinada época). E, no entanto, tem sido suficiente isso para que nos sintamos apaziguados. Assim, podemos continuar livres para, eventualmente, aceitar/digerir o inominável, desde que imputável. Mas, ao inominável não deveria caber apenas penas ou pelo menos não outra pena que não a da extinção.
(Mesmo as sentenças capitais, morte por enforcamento, quando executadas, o que faziam era dar àqueles crimes o estatuto de um crime de morte como todos os outros crimes de morte, previsto nos mais diversos códigos penais, quando aqueles crimes nada tinham de ordinário. Assim, os juízes de Nuremberg, limitados pelos sistemas jurídicos sob os quais operavam, se viram obrigados a forjar a sui generis denominação “crimes contra a humanidade”, sem que, no entanto, ousassem criar um apenamento correspondente àquele status. Que pena, afinal, poderia ser essa?)
Curiosamente, em “O Leitor”, Hanna, a mulher da classe trabalhadora que ao invés de se empregar na Siemens é recrutada para a polícia política do nazismo (a SS), é quem carrega ao menos sobrevivências do ser moral que deveríamos todos abrigar e que, por isso mesmo, durante o seu julgamento não tenta evadir da culpabilidade pelos crimes cometidos e dos quais participou, como outros, mais ou menos diretamente – de natureza inteiramente diversa é a assunção de responsabilidade (ou culpa) de Albert Speer, o aristocrático arquiteto de Hitler, durante os julgamentos de Nuremberg, pois, ali do que se tratava era de uma planejada e racionalíssima estratégia para escapar da forca (a par de assumir uma responsabilidade geral pelos crimes cometidos negar qualquer envolvimento direto, e mesmo qualquer conhecimento (sic!) do que se passava nos campos).
PS: Duas dúvidas de mal-assombro sobre a crise atual
Do ponto de vista econômico: até onde vai a capacidade dos Estados cobrirem o rombo do sistema financeiro? Quanto tempo até que explodam crises sociais avassaladoras? (Manchete do El Pais em 6/02/09: “Taxa de Desemprego na UE Dispara para 8,1%, a maior em 25 anos – Mais de 650 mil pessoas perderam seu trabalho em fevereiro, o pior dado mensal desde 1949” – as manchetes ao redor do mundo repetem dia após dia dados semelhantes.)
Do ponto de vista político: até quando os consumidores (as massas) vão ter acesso às dosagens crescentes da droga (o consumo de mercadorias) que os mantém apaziguados? Quanto tempo restará antes da fúria? – porque ela, evidentemente, está ao nosso redor e por todos os lados, é só nêgo não poder mais comprar e ela virá à superfície.
Se não existem (ainda) as condições políticas, já estão em campo, no entanto, os grupos, partidos, associações e lideranças carismáticas de extrema direita dispostas a ocupar o palco tão logo aquelas condições se apresentem (se se apresentarem, é claro). Pelo lado contrário, na longa ressaca da queda do muro e da derrocada retumbante das ditaduras burocráticas stalinistas, na esquerda impera a mais completa dispersão e/ou desencanto. Não há no horizonte uma única centelha de imaginação política que aponte de qualquer modo para a superação do capitalismo – coisa que, evidentemente, àquelas organizações da direita não interessa de nenhuma maneira. O que restaria, então?















