Onde andará Vargas Llosa?
Onde andará Vargas Llosa? Quem sabe ajudando o filho a escrever a terceira edição da série do Manual do Perfeito Idiota. Desta vez, será o liberal globalizado que passou anos disseminando dogmas
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Em meados dos anos 1970, o mundo começou a prestar atenção em um grupo de pensadores exóticos. Eles tinham em comum o gosto pelo desmonte do que se chamou nos países ricos de “estado de bem-estar”, com pleno emprego e benefícios para domesticar o capitalismo. Os protestos de Maio de 1968 alertaram os governos para o descontrole dos movimentos sociais à esquerda. Foi nesse ambiente que o exotismo conquistou o centro dos debates e lançou Hayek, Friedman, Oakeshott e Strauss. O ataque ao Estado feito por eles tornou-se um discurso cada vez mais avassalador, entrando para o vocabulário comum dos meios de comunicação e das empresas.
Paul Krugman já notou a importância dos editorialistas do Wall Street Journal na popularização, nos anos 1980, daquelas idéias exóticas. Rezava o novo credo que governos deveriam cobrar menos impostos, as empresas seriam mais eficientes que os governos e os programas de bem-estar social teriam de desaparecer devido ao alto custo. Ronald Reagan e Margaret Thatcher se encarregaram da missão de evangelizar Estados Unidos e Inglaterra nos novos conceitos da revolução liberal – porém conservadora. As mudanças começaram na economia e, por asfixia política, se expandiram por toda a sociedade e por todo o mundo nas décadas seguintes.
As empresas fizeram uma ampla reestruturação produtiva e fecharam as portas no Hemisfério Norte. Velhas unidades sumiam nos Estados Unidos para reaparecer na China, Taiwan e Coréia do Sul. O “lado sujo” do trabalho migrou para os países emergentes, o que reduziu drasticamente a inflação mundial e criou um novo pólo econômico. Essa sujeira incluía o trabalho degradante nos países do Sudeste Asiático. A criação dos produtos (o lado mais valorizado do trabalho) ficou obviamente nas matrizes. Os sindicatos perderam gradativamente a força política e de pressão com a transformação dos Estados Unidos e da Europa em produtores de serviços e não de bens.
Sempre interessante lembrar que o Partido dos Trabalhadores no Brasil nasce justamente no momento de uma crise profunda dos sindicatos e de uma reestruturação econômica que viria a ser conhecida por globalização. É um descompasso histórico importante entre nós e o resto do mundo. No entanto, a América Latina já vinha sendo um laboratório desse ajuste liberal: o Chile em 1973 e a Argentina em 1976. O Brasil ensaiou uns passos nessa direção após o golpe militar de 1964. No plano latino-americano, estava em jogo a destruição do arranjo dos políticos desenvolvimentistas com os industriais “nacionalistas”.
Os anos 1980 foram o período de radicalização do liberalismo vulgar. Os países ricos marcharam além de suas fronteiras com investimentos em países pobres. Numa só tacada, as empresas transnacionais baixaram custos ao produzir na Ásia e enfraqueceram os sindicatos de seus países de origem. A participação do lucro na renda dos países aumenta, e a dos salários cai violentamente. O baque maior causado por tais reformas regressivas ocorreu na periferia do capitalismo. Os latino-americanos quebraram em 1982 após a moratória da dívida mexicana. Resultado: alta inflação, baixo crescimento, aumento da miséria. Os países do bloco comunista vão à lona no final da década.
A queda do muro de Berlim, em 1989, foi analisada como o triunfo do capitalismo em relação ao socialismo. No auge do delírio, falou-se em Fim da História e de uma convergência para o modelo de democracia liberal. Risível, se não fosse o sadismo de quem formulou tais idéias. Robert Kurz tem uma interpretação distinta. A economia mundial sempre funcionou de maneira complementar e integrada. O que ocorreu nos anos 1980, segundo ele, foi o início de uma crise ampla que partiu da periferia na América Latina, derrubou o Leste Europeu e entrou lentamente no eixo Estados Unidos-Europa-Japão. Pareceu mais um delírio, que só ficou mais claro nas décadas seguintes.
O começo dos anos 1990 teve um impasse curioso que se resolveu por meio de um mergulho radical na chamada globalização. Na década anterior, as empresas e os bancos dos países ricos acumularam montanhas de recursos e não tinham onde aplicar. A periferia permanecia na lona: inflação, baixo crescimento e escassez de investimentos. A solução foi um encontro de contas no qual os ricos investiram suas sobras de dinheiro nos pobres. Para isso, entretanto, os países pobres deveriam se abrir ao capital estrangeiro, privatizar suas empresas estatais e afastar qualquer risco de populismo que ameaçasse o “capital”. É um filme que se tornou muito popular na América Latina.
Começou uma festa sem igual: o dinheiro voou pelas redes de computadores ao redor do mundo. Em mais um delírio, Anthony Giddens formulou a idéia de “terceira via” para caracterizar aquele período de prosperidade entre o capitalismo e o socialismo. Os investidores dos países ricos despejaram dinheiro na América Latina, Ásia e Leste Europeu. Virou moda adotar a receita do novo liberalismo, afinal a recompensa era uma enxurrada de moeda estrangeira. Sindicatos continuaram perdendo influência, as empresas transnacionais tornaram-se soberanas, e os especuladores eram cortejados pelo mundo todo como os grandes criadores de riqueza.

Tudo corria bem, até que as ditaduras do Sudeste Asiático exigiram mais e mais dinheiro dos investidores internacionais. Havia uma crença de um fluxo eterno de dinheiro. “Nunca nos deixarão sem crédito”, era o dogma da época. Em julho de 1997, a Tailândia ficou sem crédito. Foi um deus nos acuda, e o pânico correu o mundo. Mas logo passou o susto. Bastou que os países pobres aprofundassem as bases do modelo de gestão econômica para que voltassem os investimentos. Gestão, por sinal, que poderia a mesma na Rússia ou na Bolívia, conforme defendeu Jeffrey Sachs. Os bolivianos se vangloriavam, naquele momento, de ser o primeiro país no mundo a vender todas as empresas estatais.
Tudo voltou ao normal, até que os ensandecidos russos resolveram dar um calote de dívida. Russos nunca foram confiáveis. O mercado norte-americano veio abaixo em outubro de 1998, pois estava entupido de títulos da dívida russa. O fundo de investimento LTCM, em operação nos Estados Unidos, tinha dois economistas premiados com o Nobel entre seus sócios. Geniais até aquele momento. O segredo estava em fórmulas matemáticas para reduzir riscos, exceto de uma decisão política como um calote. Quando o governo Bill Clinton descobriu o rombo do LTCM, o mundo desabou. Um grupo de bancos pegou a conta, e o rombo foi para debaixo do tapete.
A periferia latino-americana resistiu pouco, como sempre. Em janeiro de 1999, o gigante Brasil desmontou e levou juntamente os vizinhos, sobretudo a Argentina, varrida do mapa em definitivo no ano de 2001. Era o terceiro tranco em tão pouco tempo. Mas, a cada tombo, o sistema-mundo encontrava a brecha e dobrava a aposta da globalização. Bárbara Ehrenreich analisou com muita precisão o que significava ser pobre nos Estados Unidos na Era Clinton. Notava-se concretamente a crise da periferia entrando nos países ricos, como Kurz havia analisado e previsto com uma década de antecedência. Surgiam os “sujeitos monetários sem dinheiro” no centro da economia mundial.
Os Estados Unidos mantiveram a cruzada globalizante. O passo seguinte foi a revolução “pontocom”. Bem fácil de entender: os computadores e a internet teriam reduzido os custos, aumentando a produtividade e criando uma Nova Economia. O mundo pôde crescer mais, a juros baixos e inflação pequena. Um estudante abria um site de serviços e lançava ações na bolsa de valores. Houve uma corrida de investidores em direção a essa revolução. A quebra ocorreu de forma igualmente espetacular em maio de 2000, mas não mudou o rumo das coisas. Desde 1973, a economia mundial vinha radicalizando o fluxo de dinheiro no mundo e derrubou as regras de controle de mercado.
Cada crise trouxe nesses anos uma oportunidade, para utilizar o provérbio chinês repetido à exaustão nos meios de comunicação, políticos e empresariais. Se o sistema-mundo falhava, a saída era aprofundar ainda mais os mecanismos de desregulamentação. A quebra das “pontocom” acabou empurrando os investidores para um mercado complexo: os derivativos. Estes apareceram para diminuir riscos e proteger os investidores das possíveis instabilidades. Alan Greenspan, o comandante da festa, dizia que os mercados poderiam usar os derivativos e cuidar por si só de eventuais crises. O “risco moral” permitiria um equilíbrio natural e uma punição para quem fizesse algo de errado.
O mercado financeiro e a globalização têm coisas sensacionais, principalmente a desfaçatez. Em 2002, empresas norte-americanas fraudaram suas demonstrações contábeis. Levaram uma multidão à falência, mas o sistema se regenerou e começou um ciclo de prosperidade inédito no final daquele ano. Nunca se viu algo parecido. Sorte até do operário que se elegeu presidente de um país periférico e surfou uma onda jamais vista na História. Seis anos de crescimento econômico sem igual, com preços altíssimos de matérias-primas – algo mais do que desejado pela periferia do capitalismo. Os pobres viraram fazendeiros do agribusiness, e o atraso virou modernidade.
Um pouco antes, os ataques terroristas abalaram os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 – a mesma data do golpe de estado no Chile patrocinando pelos norte-americanos em 1973. O presidente George W. Bush iniciou um movimento duplo: a caça sem trégua aos terroristas e uma liberalização geral da economia para combater os efeitos negativos dos atentados. No clima de boate de subúrbio, os investidores mergulharam no “liberou geral” e “ninguém é de ninguém”. Foi um gozo lacaniano.
Explodiram os preços do petróleo, minério de ferro, soja, imóveis, ações. Seis anos que ficarão para a História, em todos os sentidos.
A atual crise financeira nos Estados Unidos representa o fim de um ciclo iniciado lá nos anos 1970. Não se trata da morte do capitalismo – ainda que Alan Greenspan tenha caprichado no desastre. Na verdade, é o fim dos dogmas e da pregação liberal. Hayek e Friedman tornam-se lembranças. Como justificar uma conta de US$ 850 bilhões entregue pelo mercado financeiro ao governo norte-americano? Haja retórica e argumentação do liberalismo vulgar para sustentar isso. Onde andará Vargas Llosa? Quem sabe ajudando o filho a escrever a terceira edição da série do Manual do Perfeito Idiota. Desta vez, será o liberal globalizado que passou anos disseminando dogmas.






