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POR EM 15/05/2009 ÀS 05:19 PM

O olhar perplexo de Chico Buarque

publicado em

O campo literário rechaça o compositor. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”

Chico Buarque 

Anos atrás, Roberto Schwarz notou o resultado pouco animador da eleição de um intelectual com boa formação marxista e, depois, de um sindicalista moderno à Presidência da República. Ambos nasceram politicamente na resistência à ditadura militar (1964-1985), mas, ao assumir o comando do país, sucumbiram à razão prática que criticaram no passado. As pessoas vindas dos movimentos de esquerda tiveram um êxito na disputa pelos cargos mais importantes na política brasileira, sem que houvesse a correspondente vitória de um pensamento de esquerda.

“O êxito da esquerda foi pessoal e geracional, mas não de suas idéias, das quais ela se foi separando, configurando algo como um fracasso dentro do triunfo, ou melhor, um triunfo dentro do fracasso. Talvez se pudesse dizer também que parte do ideário de esquerda se mostrou surpreendentemente adequado às necessidades do capital. O respeito marxista pela objetividade das leis econômicas não deixa de ser uma boa escola”, disse Schwarz, num discurso em homenagem ao arquiteto Sérgio Ferro, que foi um militante da luta armada dos anos 1970.

Sérgio Ferro é um dos intelectuais de esquerda que lutaram contra a ditadura e, passados os anos, se mantiveram ligados aos princípios de esquerda. Não foi mais um a se ajustar aos tempos modernos por pragmatismo ou oportunismo. Não houve aquela atração pelo mercado, pelas facilidades do capital, que diluíram as ambições intelectuais e até mesmo reformistas (dizer revolucionárias virou termo pejorativo) dos arquitetos contemporâneos. Ele se preocupa com as relações sociais nos canteiros de obras e não com a decoração de interiores de casa e apartamentos.

A trajetória de Sérgio Ferro e a análise de Schwarz são relevantes para entender o caminho tomado por Chico Buarque ao longo de sua carreira. Aliás, o compositor de “Construção” fora aluno de Ferro na Universidade de São Paulo, lá no começo dos anos 1960. Há um sentimento comum dos três (Ferro, Schwarz e Buarque) sobre o quanto é difícil e complexo se manter íntegro em relação às visões próprias de mundo, pois existe uma pressão social muito grande para que eles se ajustem às últimas crenças do mercado de idéias.

Chico Buarque transita no fio da navalha da indústria cultural e a grande arte. Seja na música, seja na escrita (romance, teatro), ele insiste em antecipar movimentos. O compositor dos anos 1960 catalisou o clima de “respiração artificial” no período mais duro dos militares. Foi o intelectual engajado que, com meias palavras, atingia em cheio os comandantes do regime, em canções como “Apesar de você" e "Acorda, amor”:

Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão
Que aflição
Era a dura
Numa muito escura viatura
Minha nossa, santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Ao mesmo tempo, o engajamento dividia espaço com o intérprete da alma humana. Era capaz de criar personagens, como em “Valsinha”:

Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Em “João e Maria”, foi capaz de jogar com os tempos verbais e denunciar a própria ficção que o ser humano cria: “Agora eu era um herói...”.

Chico foi virando uma marca da resistência à ditadura e uma certa sensibilidade brasileira. Sua presença era garantia de crítica certeira ao regime. Mais importante: ele cumpria a função de fazer a ponte entre os intelectuais e a massa. Na sociedade brasileira, os letrados se isolam e vêem sinais de populismo em qualquer proximidade com o povo. Porém, os músicos são figuras que fazem essa mediação no país de poucas letras e os milhares de iletrados. Foi assim com Noel Rosa, ao qual Chico Buarque deu continuidade no trabalho hábil de aproximação social.

O ocaso da ditadura representou um esvaziamento do discurso engajado mais direto. Para o bom senso comum, não havia mais contra o que lutar. Afinal, o Brasil entrava na democracia, jogara o passado debaixo do tapete chamado Anistia, e os inimigos militares haviam sido derrotados. Interessante que, quando mais se precisou do pensamento crítico, ele se dissolveu na resignação e na adesão ao mercado. Não é por acaso que Caetano Veloso tenha se ajustado barbaramente aos instrumentos da indústria cultural e se dado tão bem. Ele consegue ser o pensador polêmico, porém dentro dos limites fixados pelo mercado.

Chico vai do “engajamento” à “perplexidade”. Ele não se ajusta às novidades. E foi na literatura que o olhar perplexo se manifestou com toda a intensidade. Quanto mais ele mergulha nas narrativas de ficção, no entanto, mais resistência encontra pelo caminho. “Aqui e ali narizes se torceram, e se torcem ainda, como se farejassem um turista das letras, pior que isso, um usurpador, um sem-credenciais a medir e ocupar com seus best-sellers a reserva de mercado das letras. ´O mundo dos escritores é muito complicado´, avalia Chico, mais à vontade no dos músicos”, escreve Humberto Werneck, num perfil biográfico do autor.

O campo literário rechaça o compositor. Wilson Martins o atacou sistematicamente desde o romance “Estorvo”, ao classificá-lo de mero plagiador. Bruno Tolentino aproveitou a oportunidade e começou a desqualificar a veia poética dos compositores da MPB. “Letra de canção não é poesia”, disse. Quando Chico Buarque deixou o lugar cômodo e seguro de músico e aceitou correr riscos, vieram os ataques mais violentos e ressentidos, que por sinal persistem até o recente lançamento do romance “Leite Derramado”.

Os admiradores do compositor engajado e lírico não estavam preparados para o escritor. No lugar de personagens inesquecíveis e cheios de poesia, surgiram figuras anônimas, uma narrativa tensa de um sujeito vagando pela metrópole caótica. “Estorvo”  antecipa boa parte da produção posterior e contemporânea de narrativas que tratam da violência urbana. A perplexidade começa a dominar o universo de Chico, como ele mesmo bem sintetizou numa entrevista de dezembro de 2004:

Eu cada vez mais me abstenho por reconhecimento da minha limitação, da minha ignorância. Aí eu sou realmente modesto. Não sou modesto em relação ao que eu faço como artista. Mas, sobre os rumos ou possibilidades do país, não vejo honestamente que contribuição eu possa dar. O que eu posso fazer é só constatar minhas perplexidades, meus receios diante desse quadro cada vez mais assustador. Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes. O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. Toda essa indústria da glamourização, de quem pode, de quem ostenta, de quem torra dinheiro -enfim, ser reacionário se tornou de bom tom. As moças bonitas no meu tempo eram de esquerda. Hoje são todas de direita (risos). Boutades às vezes racistas, preconceitos de classe, manifestações de desprezo mesmo pelos mais pobres se tornaram algo muito comum e socialmente valorizado.

O artista Chico Buarque está apenas buscando formas novas de se expressar, no caso as da literatura. Para ele, a canção é um formato que se esgotou. O rap torna-se a novidade que é criada pelos e para os mais pobres. Ele não canta rap, mas está de olho (perplexo) no que ocorre no subúrbio:

Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda.

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