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POR EM 04/12/2009 ÀS 03:59 PM

O corpo sem pulso

publicado em

Yoko Ono e John LennonContra todas as indicações, Fernanda Young posou recentemente para a revista “Playboy”. As fotos mostram muito piercing, tatuagem e palavras escritas em punhos, braços e costas. Nada parece convencional porque se espera, neste tipo de publicação, a mulher fruta com inúmeras próteses para aumentar seios, quadris e lábios. O que aparece ali é muita insinuação de dor e mutilação. O corpo está modificado, não por roupas, mas por meio de intervenções e de inscrições.

Pessoas famosas estão exibindo mais as partes cobertas por roupas. Algumas vão além. Fazem filmes de sexo explícito e são entrevistadas no talk show de Luciana Gimenez (uma espécie de Paul Johnson da televisão brasileira). Leila Lopes contou, certa vez, que não sentia nada em termos sexuais nas filmagens. Só muita dor física. Os homens tomam Viagra para manter a perfomance durante cinco horas na mesma posição. As mulheres passam Xilocaína nas partes íntimas.

Tudo vira performance. Vinte anos atrás, Cazuza descobriu que era soropositivo da "maldita", como dizia na época, a doença que pune a sexualidade, e apareceu na capa da revista “Veja” (a versão impressa do programa Super Pop). Um corpo magro, debilitado, rosto esquálido, para chocar e vender revista de lixo cultural. As reações foram imensas. A esfera pública acabou de mutilar o que restava do compositor. Câmeras viram biopoder.

Annie Leibovitz fotografou a progressiva doença de sua parceira Susan Sontag. As dores, a perda de cabelo e, por fim, o cadáver. Fez o mesmo com os próprios pais, em seu envelhecimento, a flacidez dos braços. O que pareceria vulgaridade, tornou-se vida pelas lentes da fotógrafa. Foi ela quem convenceu John Lennon a posar nu, abraçado à mulher Yoko Ono, e no mesmo dia o beatle morreu com tiro disparado por um aloprado. O corpo morto de Lennon não apareceu mais. 

As ditaduras são mestres em desaparecer com corpos. O filme “Zuzu Angel” mostra uma mãe buscando o cadáver do filho desaparecido. O país do “não em recordo”, porém, se nega a entregar os mortos durante o regime dos generais (1964-1985). A ausência se faz presente na memória. Ditadura fabricou o modelo do capitão Fleury, o sujeito que goza ao torturar presos políticos, como se pode ver no filme “Batismo de Sangue”. Será que ele fez escola? Resposta: Capitão Nascimento.

O gozo não é mais do torturador. É do personagem policial que espanca a ralé no filme “Tropa de Elite” e avacalha com Foucault. Gozo: um prazer irrefreável que leva à destruição. Pulsão de morte da classe média brasileira, que deseja o aniquilamento da ralé para se sentir mais segura. As cidades estão repletas de condomínios fechados e casas com cercas elétricas – cercas que eram a marca dos campos de concentração. A vida nua não vale muita coisa mesmo, como diz o capitão do biopoder.

A novidade moderna é que o poder entra nos corpos, não é algo virtual, está nas exigências de padrões estéticos e na violência. Se não mata, deforma e deixa as cicatrizes. Os personagens de João Gilberto Noll esbarram em algo e tem uma ferida enorme. Qualquer coisa traumatiza. Rosângela Rennó fotografou os corpos de quem passava pelo presídio do Carandiru. A lembrança do inferno ficava na cicatriz. “O corpo ainda pulsa”? Até que pulsa, mas com muita marca externa e traumas na cabeça.

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