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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:10 AM

Michael Jackson foi mesmo um gênio?

publicado em

A morte parece ter devolvido Michael ao Olimpo dos gênios. Citam-no ao lado de outros célebres músicos falecidos precocemente. É preciso separar as coisas. Comparar com Mozart não faz sentido. Diferentemente de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Kurt Cobain, todos mortos com apenas 27 anos, deixando incompletas carreiras, aparentemente, promissoras, o ciclo criativo de Michael Jackson parecia estar esgotado

 Michael Jackson

A morte de uma celebridade, seja qual for seu nível de celebridade, sempre vem acompanhada de palmas e lamentos. A morte de um astro mundial, como era Michael Jackson, multiplica essa tendência a enésima potência. O lugar-comum entre seus admiradores mais afoitos é dizer que ele saiu da vida para entrar na história, que se tornou, definitivamente, um mito. Os mais cínicos podem afirmar que a morte precoce lhe fez bem. Agora ele não pode mais fazer bobagens, acumular dívidas ou arranhar sua imagem dos tempos áureos. Os mais cínicos dentre os cínicos podem ir além e defender que a morte valorizou seus feitos. 
 
Praticamente em todos os textos que abordam a morte de Michael Jackson, e são muitos, ele é chamado de gênio. Definir o conceito de gênio é complexo. A rigor ele pertence ao período romântico. Não existia antes e passou a existir de modo totalmente diferente depois. O século XX, de certo modo, desfigurou a palavra. Ao mesmo tempo em que esvaziou seu sentido, difundiu-a e, estranhamente, popularizou-a. Os gênios multiplicaram-se, mas também passou a ser possível questioná-los. Se antes a genialidade era estabelecida, fundamentalmente, pela capacidade criativa de um indivíduo e o reconhecimento da mesma pela comunidade culta da época como algo assombroso e original, na sociedade pós-industrial o fator genialidade está intimamente ligado ao fator números. Nessa nova configuração, um artista criativo que não aparece fora do circulo dos iniciados não pode ser gênio. É apenas mais um entre muitos. O título de gênio, antes raro, muitas vezes só concedido postumamente, tornou-se um rótulo definidor de carreiras. A nova genialidade, dos séculos XX e XXI, é, por definição, um produto. O que não significa que todos os candidatos a gênio na era pós-moderna sejam fabricados pelo mercado.  
 
O caso de Michael Jackson é um dos mais difíceis de julgar. Não por sua megalomania, por ter enlouquecido ou por ser um possível criminoso. Tudo isso é irrelevante nesse debate. Alguns dos maiores talentos da humanidade foram canalhas inescrupulosos: de Rousseau à Sade, de Brecht à Chaplin. Para ser justo com um artista ou pensador é preciso considerar apenas sua obra no contexto histórica em que foi produzida.
 
Muitos consideram impossível genialidade em música popular, quanto mais em música pop. Não creio que seja tão simples assim, embora o pop esteja intimamente ligado ao pueril. Segundo Ray Browne, teórico que cunhou o conceito de “cultura pop”, na década de 1960, “o termo pop, como o conhecemos hoje, se refere basicamente àquilo que agrada aos jovens e que tem popularidade, ou seja, que gera dinheiro”. Michael Jackson, sendo o Rei do Pop, foi a encarnação máxima desse principio. Mas foi, acima de tudo, fruto de uma era. Não o artista Michael Jackson, mas o fenômeno Michael Jackson só foi possível porque surgiu no momento de maior apogeu da indústria fonográfica, coincidindo inclusive com o estabelecimento da MTV como definidor de tendências globais. Importante lembrar que contou com um grande guru, o lendário compositor e arranjador Quincy Jones, produtor de “Off the Wall”, “Thriller” e “Bad”, seus melhores trabalhos. Sempre considerei subestimada a contribuição de Jones na lapidação artística do pequeno vocalista do Jackson Five. Michael Jackson era o homem certo na hora certa. Tinha fama de bom moço, tinha carisma, era bonito, experiente, muito bem produzido e, sobretudo, cantava melhor que Madonna e era menos agressivo que Prince. Um artista negro feito sob medida para ser aceito pela classe média americana; e, por extensão, mundial.
 
É comum o pop canibalizar elementos culturais mais sofisticados ou de guetos, tornando-os aceitáveis ao gosto médio. A estratégia mais usada é torná-los espetaculares, enchendo-os de luzes, cores e movimentos, acelerando o ritmo. Michael Jackson fez isso com sua influência musical mais evidente, Marvin Gaye. Visualmente, em termos de figurinos e performances, incluindo coreografias, a influência de James Brown é inegável. A revolução que fez nos clipes musicais foram passos adiante em experiências estéticas que tiveram como pioneiros nomes como Beatles e, com maior similaridade, David Bowie. Nada disso por si só é negativo. Inspirar-se em outros artistas é comum tanto em gênios criativos quanto em farsantes. Não significa muito. 
 
É possível que os limites do talento, ou do gênio, de Michael Jackson tenham sido estabelecidos pelo gênero que abraçou. Em maio de 1989, Paul McCartney concedeu uma entrevista às páginas amarelas da revista Veja. O jornalista perguntou: “O que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não têm?”. O ex-beatle respondeu: “Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso,mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores do ponto de vista musical. Até hoje são modernas, intrigantes, ousadas. Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas sobretudo é um showman. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento (...). Eu compus com Michael Jackson e compus com John Lennon e posso dizer que John Lennon era realmente um gênio musical. Ele podia não cantar como Michael Jackson e certamente não dançava como ele – a menos que estivesse bêbado,mas isso era uma outra história -, mas era um homem muito profundo e um músico excepcionalmente habilidoso”.
 
Justificar a analise de McCartney pela inimizade com Michael Jackson, provocada pela compra dos direitos autorais de parte das músicas dos Beatles, parece-me pobre, sobretudo considerando as rusgas históricas entre ele e John Lennon. E McCartney não criticou apenas Michael Jackson, criticou toda uma tendência musical dominante nos anos de 1980, que supervalorizada a forma em detrimento do conteúdo. Ademais, não se pode negar que, como pede a cartilha do pop, as letras de Michael Jackson, a despeito das melodias contagiantes, sempre foram extremamente simplistas. “Billie Jean”, por exemplo, trata de um sujeito negando a paternidade do filho de uma garota com quem fez sexo casual. “Beat it” não vai muito além da repetição incessante do refrão que manda “cair fora”. Mas Michael Jackson nunca pretendeu ser um filósofo ao estilo de Bob Dylan. Cobrar-lhe profundidade é inútil. Sempre preferiu comover pelo sentimentalismo, como em “We are the world”. Uma estratégia válida, enfim.
 
Um dos fatores de medida da importância de um artista, do alcance de seu gênio, seria a lista de figuras influenciadas por ele. É comum afirmar que Michael Jackson influenciou toda a música feita depois dele. Mas quê música é essa? Feita por quem? Imagino que os nomes mais evidentes sejam os de Justin Timberlake, Britney Spears, Aaron Carter ou a camarilha de mentecaptos que cometem rap. Sem comentários. Tio Michael merecia coisa melhor.
 
Grande parte do fascínio de Michael Jackson deve-se ao estrondoso sucesso alcançado nos distantes anos de 1980. Sua fama nas duas décadas seguintes foi residual, retroalimentada pela sucessão de escândalos. Sua voz, suas músicas e seus clipes ficaram cada vez piores. De gênio passou a ser visto como louco. Para comparar, Madonna evoluiu como cantora e show girl, ganhando respeito. Prince, com uma série de projetos conceitualmente ambiciosos, tornou-se um artista quase underground. 
 
A morte parece ter devolvido Michael ao Olimpo dos gênios. Citam-no ao lado de outros célebres músicos falecidos precocemente. É preciso separar as coisas. Comparar com Mozart não faz sentido. Diferentemente de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Kurt Cobain, todos mortos com apenas 27 anos, deixando incompletas carreiras, aparentemente, promissoras, o ciclo criativo de Michael Jackson parecia estar esgotado. Assemelha-se mais a Elvis, seu “sogro”, que morreu semi-aposentado, cantando baladas românticas para antigas fãs velhas e gordas em cassinos de Las Vegas.    Curiosamente, nenhum dos nomes citados foi artista pop. Portanto, se Michael Jackson era gênio, possivelmente, foi o primeiro e único em seu estilo.
 
Por fim, depois de tantas voltas, é muito provável que George Bernard Shaw estivesse correto quando escreveu que “os gênios não existem. Eu sou um gênio e portanto sei. O que há é uma conspiração para fazer de conta que os gênios existem e uma escolha das pessoas certas para assumir o papel imaginário de gênio. O difícil é ser escolhido”. Com apenas 25 anos, Michael Jackson foi escolhido, como antes havia acontecido com Orson Welles, outro que caiu em desgraça depois de criar sua obra-prima.  Certamente, essas “escolhas” não são aleatórias. O escolhido precisa ter, além de sorte, seus méritos, para tornar a “conspiração” convincente. Talvez consista nisso a verdadeira genialidade.
 

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Comentários (9)

  • Gênio sem dúvida!

    2 anos atrás por deboraantunes
  • Gostei do comentário de Yasmim, pois atualmente a música pop é um lixo quase nada me interessa, de tudo que vi e ouvi até hoje, nenhum artista principalmente no palco me impressionou da forma que Michael Jackson me impressiona!Um artista completo e complexo, não vejo simplicidade sua obra e sim criatividade, mesmo em canções com Billie Jean. Seu mérito não ficou "congelado" na década de 70 com os álbuns como Off The Wall ou 80 Thriller e Bad, são ótimos isso é inegável, mas na década de 90 seus méritos continuaram isso é prova da sua qualidade. As músicas e clipes como de In Closet e Stranger in Moscow, parecem que são atuais. Ainda ele foi o melhor cantor infantil, até hoje nunca vi nenhuma criança cantar e encantar como o menino Michael Jackson, por isso penso que, ele pode ser considerado um gênio sem ressalvas ou aspas, pois ele tem um legado profissional e musical que merece todo o respeito de quem realmente é aprecia a boa de música!

    2 anos atrás por deboraantunes
  • O artista mais famoso não é necessariamente o melhor. A crítica estadunidense é praticamente unanime em apontar Prince como o nome mais talentoso da geração pop da década de 1980. Michael Jackson canta melhor que ele, mas Prince era musicalmente mais inventivo, além de ser um reconhecido multi-instrumentista. Prince nunca entrou em decadência. No auge da fama, claramente optou por uma trajetória musical alternativa, lançando discos complexos, em circuito de distribuição menor. Não sou fã de Madonna, creio que é supervalorizada, mas acho que ela teve o mérito de saber se reinventar ao longo dos anos, sem nunca tornar-se obsoleta. Seus discos ainda dialogam com o público. Michael Jackson, ao contrário dela, tornou-se um clássico precoce. Não era mais um artista criador,mas um artista que há anos vivia do passado. Suas músicas mais lembradas são do início da carreira. O que não é em si um demérito. Foi um cometa que brilhou muito, muito mais que os outros, e depois entrou em colapso.

    2 anos atrás por Ademir Luiz
  • Quando eu era criança a música e os passos de Michael Jackson impressionavam-me. Felizmente, ou infelizmente, cresci e fiquei um pouco mais exigente. O tio Michael é legal, mas não chega a ser genial (talvez pelos limites estéticos do gênero pop). Acredito que Michael Jackson vai ficar para a História como um símbolo dos anos de 1980, assim como o Bee Gees é um símbolo da década de 1970. Músicas como “Billie Jean”, “Beat it” e “Thriller” sempre vão tocar em festas (viram “De repente 30”??), mas, dificilmente, vão receber respeitabilidade artística a longo prazo, como , por exemplo, “”Stairway to Heaven” ou “The End”.

    2 anos atrás por Ademir Luiz
  • Gostei de ambos os comentários, Yasmin e Sandra... Faço das suas as minhas palavras, sem alterar nada. Michael foi gênio, sim. Até mesmo nas escolhas das pessoas que o ajudariam a produzir suas músicas, como Quincy Jones. Sua carreira ainda era muito promissora, tanto é que os ingressos para seus últimos shows estavam esgotados na primeira semana em que foram colocados à venda. Quem "o estragou" naqueles anos todos em que ficou "congelado" foram as pessoas maldosas e gananciosas que o acusaram de coisas que nunca poderiam provar que ele teria feito...E mesmo assim, seu retorno era ansiosamente aguardado por seus milhares de fãs.E até mesmo quem não era fã queria vê-lo em ação...Pois, suas performances eram inacreditáveis!

    2 anos atrás por Wal Diniz
  • Muito bom. Gostei das respostas.

    2 anos atrás por luhsk
  • Textinho chulo e pobre e sem embazamento nenhum.

    Ahaha, os maiores genios da musica consideraram michael como um genio, inclusive fredy mercury.

    O autor desse texto é um desinformado. vai ler meu filho.

    2 anos atrás por mara
  • Para mim MJ foi um artista completo,gosto de TODAS as suas músicas , não tem uma que me desagrade, tanto com referência às letras como a parte melódica. Compôs músicas chamando a atenção da humanidade do cuidado que devemos ter com o meio ambiente e transmitiu de maneira brilhante que devemos ajudar o próximo,e jamais praticar violência contra as crianças. Ele cantou e praticou em vida todas as mensagens que ele procurou transmitir em suas músicas; suas ações humanitárias foi de valiosa ajuda aos necessitados. Ele não se compara a ninguém, mesmo ele tendo influência de James Brown na dança e de outros artistas, foi um artista único, um idealista. Não acredito em nenhuma acusação que lhe foi lançada, pois o que eu tenho lido a respeito, não encontrei nenhum fundamento que viesse a provar qualquer fato contra ele. Tem muito louco que persegue celebridade e um nome como MJ é alvo fácil de provocar uma comoção nesse mundo afora, uma maldade nesse nível pode ser um desastre na vida pessoal de alguém, e o que realmente foi na vida dele, infelizmente. Basta ver nos vídeos como ele era, um sujeito de coração aberto, fácil de se comover com as necessidades alheias. Ele só ganhou e manteve essa fama, mesmo isolado por vários anos, porque foi talentoso em tudo que fez, e todo artista bom jamais é esquecido. Na minha opinião , pelo o que eu acompanho e ouço das pessoas que conviveram com ele, tais como artistas, seus empregados, das crianças que conviveram em sua casa, artistas mais velhos como Gregory PecK e família, Elizabeth Taylor, Katherine Hepburn, Donald Trumph, Bill Clinton, toda essa gente se refere a ele com carinho e mil elogios, não há reticências quando se referem ao seu comportamento. Quando a gente assiste aqueles vídeos dele brincando com aquelas crianças, jogando balões d"água uns nos outros, em John Landis depois das filmagens, sinceramente não vejo nenhum perfil de um homem pedófilo. Com suas próprias crianças, sempre foi carinhoso e o que mais me convence de sua inocência além dos relatos de seus amigos e empregados sobre seu comportamento, é o carinho que seus filhos têm por ele. Eu não vou dizer coitado do Michael, vou dizer coitado de quem o humilhou e o sentenciou de uma coisa tão cruel, se nem a justiça americana o condenou. Lá não é igual aqui, gente com grana vai para cadeia.Um beijinho Michael de onde você estiver, acho que você ainda não está descansando, porque tem muita coisa aqui que está lhe devendo, uma das principais é limpar seu nome, isso sim é o principal, porque falar do seu nariz ou da sua cor, isso é o de menos, é problema dos incomodados.

    2 anos atrás por Sandra
  • Muito interessante o texto, mas discordo da conclusão. Se avaliarmos os sucessos de Jackson, não veremos nada "profundo", porém me lembro quando ouvi "Will you be there" pela primeira vez, os beatles podem ser gênios, mas não poderiam compor uma música tão tocante. "Ame-me e liberte-me, cure-me e banhe-me", e aquele coral, é fabuloso. Na verdade, se observarmos as músicas de seu álbum "HIStory", veremos letras reflexivas, talvez porque o álbum foi lançado depois das acusações de pedofilia e ele achou que não tinha nada a perder se dissesse o que realmente pensava. A protestante They don't care about, ninguém havia dito isso tão diretamente antes, inclusive o clipe foi proibido nos EUA. "Stranger in Moscow" nem parece ser escrita por um artista pop. Acho que Michael Jackson devia, sim, ser incluídos na lista de "gênios", pois além de compor alguns dos maiores sucessos da histórias sem saber tocas nenhum instrumento, números não mentem. Desde o menininho prodígio, com uma alma de 60 anos, até o fim dos anos 90, seus clipes ainda eram inovadores e suas letras ainda tocavam a maioria. E absolutamente todos os artistas que vieram depois foram influenciados por ele. Prince e Madonna ficaram mais famosos pelos escândalos propositais do que pelo talento (inclusive, antes se falava de como madonna era sensual, agora é de sua disposição física - nunca envolveu talento)

    2 anos atrás por yasmin


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