POR J. C. GUIMARÃES
EM 29/07/2008 ÀS 11:24 AM
Borges, o atualíssimo
publicado em ensaios
O título acima é meio que uma paródia do conto Funes, o memorioso, constante em uma das primeiras coletâneas narrativas de Jorge Luis Borges, Ficções, editada em 1944. Há um dado curioso nesse livro, ou em torno dele, que foi ter sido escrito na década de quarenta do último século. Parece, assim, que estamos diante de um artefato antigo. Ledo engano, embora tenha vindo a lume, para ser exato, há 68 anos atrás. Nessa idade o livro seria já velho: fosse um homem. (Não que não o seja, de certa forma).
Mas por que – indaga o leitor – um dado curioso? Porque não havia naquela época a internet, sequer indícios de que os homens empreenderiam algo tão fantástico. O universo já existia desde sempre, ou pelo menos desde quando foi escrito o primeiro poema épico ou o primeiro livro, quer dizer, no último caso: as primeiras tentativas de armazenar o todo. (d`Alembert foi um desses ambiciosos obreiros, e criou um dos objeto de culto do escritor argentino) Por outras palavras, somente três décadas depois do surgimento deste livro premonitório que se chama Ficções os homens começaram – década de setenta – a edificação concreta de algo mais sutil, e cujo nome pode ser A biblioteca de Babel. Tratá-la por Babel não tem a mínima importância, pois equivale a um reflexo, um efeito comum em Borges.
A biblioteca de Babel é um conto ilustre daquele título famoso. Nele, o argentino inventa uma arquitetura cujo número de recessos evoca, já, os labirintos da rede mundial. Borges, como sabemos, cultiva com especial predileção algumas palavras, qual pátio, vindicação, contestação, prodigalizar e intuição. De seu vocábulo interessa-nos esta, pois ele terá intuído – ou previsto – o surgimento dessa enorme empresa que os homens logram, agora, com êxito espantoso, e se não alcançaram o infinito, beiram-no vertiginosamente. Quem navega pelo ciberespaço pode não chegar a lugar nenhum ou fazer uma viagem inútil, movido pela curiosidade de abrir janelas. O problema é que essas aberturas não têm fim.
Quem lesse A biblioteca de Babel em outro ano, digo, outra década anterior – seja 1989, ano por acaso em que Borges faleceu – não poderia associar essa história ao futuro, e quem sabe se perdesse em seu intrincado argumento (com argumento intrincado eu seria menos explícito). Poderia, se tanto e por associação, vincular o conto aos livros na sua forma tradicional, e pensar – o que já é quase uma nostalgia – nas bibliotecas povoadas de livros tradicionais. Nem mesmo os críticos e admiradores de Borges – Emir Rodriguez Monegal, Allan Robbe-Grillet ou Michel Foucault, por exemplo – tenderiam para o futuro, embora seu cabedal e seu gênio tenham sido especialmente raros. Quem sabe se pudesse pensar, tanto tempo depois da publicação de Ficções, que este livro se tornasse cada dia mais datado. Porém, quis o destino ou quiseram os deuses que as cápsulas aí encerradas por Borges – que queria morrer completamente – se tornassem indestrutíveis pelo concurso da técnica, condenando-o.
Borges, que merece de nós o epíteto de atualíssimo, viverá, ainda, longos anos, graças a essa sutil descoberta. Há momentos em que ele a intui translucidamente:
“prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…” (trecho de A biblioteca de Babel)
Leio esta linha e percebo, no ato, que estou diante de um monitor, vagando na internet, onde alimento este texto para um blogue semanal. Jorge Luis Borges candidata-se de vez à imortalidade porque previu e fala aos homens do futuro, sem menoscabar a tradição. Uma das possíveis lições contidas nessa descoberta é de que o escritor, ao se lançar em seu trabalho poliédrico, deve esforçar-se por intuir o universo futuro, captando em seu instante os possíveis sinais ou vestígios desse universo posterior. É assim ou desaparece. O artista deve ser, na feliz expressão de Ezra Pound, a antena da raça e tornar-se a fonte para uma extravagante arqueologia do devir. Imagino que Borges conseguiu esta proeza com talento e fidelidade, ao manipular a metáfora, que é definitivamente mágica.
A título de esclarecimento, retornei à leitura d`A biblioteca de Babel por vias travessas. Agora sei que, quando a li pela primeira vez, não entendi nada ou entendi muito pouco. Cansado de outros afazeres, fui assistir a um canal de televisão, e acabei descobrindo que não perdi meu tempo. (Supostamente, poderia estar fazendo algo mais útil, escrevendo ou estudando. Mas assim poderia ter passado em branco o presente “conto-artigo”). Então, deparei nesse canal com uma entrevista em que a artista digital Gisele Beigelman abordava a arte na era da internet. Foi ela quem citou Borges como escritor capaz de refletir sobre o universo em que vivemos, lendo um trecho de Funes, o memorioso. Instigado, fui ao texto e continuei o jogo: soube que Funes era “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente exato.” Giselle tinha razão, embora tenha citado um dos últimos parágrafos do conto para justificar sua tese. Porém, dei-me conta de que noutras partes de Ficções também está cifrada essa coisa que agora sabemos: a www.
Com efeito, A biblioteca não foi um acidente: a internet foi prevista muito antes e povoa o universo fantástico de Jorge Luis Borges.





