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POR EM 08/12/2008 ÀS 05:34 PM

Amores impossíveis

publicado em

Numa entrevista interessantíssima a uma jornalista australiana (disponível no YouTube), por ocasião do lançamento de 2046, o diretor chinês Wog Kar Wai (que em vários momentos deixa a jornalista em situação difícil com respostas monossilábicas) comenta a respeito da suposta obsessão por relógios em seus filmes:
        
 _ Meu diretor de fotografia, quando via que tinha um relógio numa tomada, dizia “Vamos tirar o relógio dali”. E eu retrucava: “Deixa o relógio aí. Tenho certeza que os críticos dirão alguma coisa”.

        
Kar Wai disse isso e morreu de rir. Pensei comigo: “Desgraçado! E nós aqui, elaborando mil teorias psicanalítico- filosóficas sobre o significado da profundíssima metáfora do relógio”. Mas acabei morrendo de rir também. Inevitável nessas horas lembrar de Susan Sontag em sua fase inicial, para quem fazia mais sentido apreciar uma obra de arte do que interpretar. Ou do diretor russo Andrei Tarkovski, que disse mais ou menos a mesma coisa em seu livro Esculpir o tempo (Martins Fontes), além de ter dado pouca importância ao fato de apontarem a água como sua obsessão. A propósito, Kar Wai, embora diminuindo a importância dos relógios, também comenta sobre a capacidade de um filme de esculpir o tempo (sem citar Tarkovski).

        
A verdade é que a obsessão de Wong Kar Wai é outra, que a jornalista australiana, infelizmente, não soube explorar. Ele é o diretor dos amores impossíveis. Sim, ele também é o diretor dos close-ups e câmeras lentas, das músicas (boleros, valsinhas e, mais recentemente, blues e jazz). Seu estilo (que é muito mais intuitivo do que racional, de acordo com ele mesmo) é imediatamente reconhecível. Seus atores prediletos (Maggie Cheung e Tony Leung), sua marca. Aliás, todo diretor-artista tem os seus. Woody Allen teve Alan Alda, Tony Roberts, Diane Keaton e Mia Farrow por muito tempo; Bergman, Max Von Sidow, Erland Josephson, Bibi Anderson e Liv Ullmann; Tarkovski, Nikolai Grinko, Anatoli Solonytsin (e o bergamniano Erland Josephson, nos dois últimos). Bom, etc.

        
As pessoas, nos filmes de Kar Wai (e eu digo “as pessoas”, e não “os casais”, pois há Felizes juntos em o caso de amor é entre dois homens), não conseguem se entender romanticamente[1]. Sempre há uma enorme muralha da China entre elas. Muralha invisível, desproporcional ao problema concreto, aparente. Em Amor à flor da pele, por exemplo, a obra-prima do diretor chinês, um casal descobre que os respectivos cônjuges os traem. A partir daí inicia-se um jogo de sedução-repulsão (“Não seremos iguais a eles”, dizem um pro outro, repetidas vezes) agoniante (mas ao mesmo tempo incrivelmente sensual) pro espectador. Perguntamo-nos o tempo todo: Por que não se atracam logo na cama, louca e vingativamente? Nada disso, parece nos responder Kar Wai, seria vulgar, veja como eles são sensuais à sua maneira. E é verdade. Amor à flor da pele é o filme mais erótico que já vi, sem ter uma única cena de sexo. A beleza escultural da ex-miss Hong Kong, Maggie Cheung, e o charme de Tony Leung são postos a serviço de Kar Wai de forma irretocável. Nunca você verá alguém descendo ou subindo escadas pra buscar noodles pra comer, ao som de uma valsinha, de forma tão encantadora (encantadora mesmo, no sentido de hipnotizante).

        
E por falar em valsinha, finalmente, o que me traz aqui, o último Kar Wai, My Blueberry Nights (Beijo roubado). Ela, a valsinha, está lá (embora estilizada). Assim como os close-ups, as câmeras lentas e cortes e jogos de ângulos diferentes. Também está lá a música (desta vez blues/jazz). Não estão lá Maggie e Tony, mas em compensação estão Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz e, pra minha grata surpresa, Norah Jones. Não li o que a crítica disse a respeito de sua interpretação (ou, se li, foi na época do lançamento em Cannes, de forma que não me lembro se foi positiva ou negativamente acolhida). Tanto melhor, pois assim não me deixo contaminar. Brilhante. Norah Jones é a cereja do bolo (ou a blueberry da torta) desse filme. Natalie Portman, a atriz de um papel só, interpreta a garotinha revoltada. Rachel Weisz e Jude Law estão bem. 

        
Está lá também outra característica de Kar Wai, a (aparente) fragmentação. A sensação de que falta costurar, que não tem como acabar. Nesse sentido aconteceu uma coisa engraçada. Um casal amigo, que assistia à mesma sessão, tinha ido mais pelo elenco, nunca ouviram falar do diretor. Faltando uns quinze minutos pro filme terminar, a energia acabou no cinema. Aproveitei pra perguntar a eles o que estavam achando. Meu amigo respondeu: “É... Seria bom costurar isso tudo, né...”. Logo o filme voltou e, pra minha surpresa (e alívio de meu amigo), Kar Wai costurou mesmo. O final é amarradinho, bonitinho, enfim... holywoodiano. Uma óbvia concessão[2] do diretor chinês aos produtores norte-americanos. Confesso que fiquei chateado. Minha esposa, que adorou o final, me chamou xingou de “do contra” e “espírito-de-porco”. Talvez ela esteja com a razão. Ou não.

        
Não é que My Blueberry Nights seja ruim. É ótimo. Mas espera-se mais de um artista como Wong Kar Wai. Há uma certa expectativa de que ele se mantenha fiel à linha à qual nos acostumou e nos transformou em seus admiradores. Esse pacto foi (parcialmente) quebrado. Esperemos o próximo, de preferência com a dupla Maggie-Tony de volta.
        
 

 
 


[1]
Na entrevista à jornalista australiana, esta diz a Kar Wai que ele é considerado um dos diretores mais românticos da atualidade, ao que ele retruca: “Isso é constrangedor”, provavelmente entendendo “romântico” no sentido holywoodiano (portanto negativo) da palavra.

[2]
Na citada entrevista a repórter pergunta ao diretor se, com a fama, ele alcançou o direito de fazer o que considerasse artisticamente correto, sem fazer concessões. Ele responde que sim, faz o que quer, mas dentro de certos limites (financeiros). Esse é um dos pontos em comum que Kar Wai mostrou ter com Woody Allen. Outra coincidência foi o fato de viver em cinemas na infância e adolescência em Hong Kong, além de ter sido um mau aluno. “Por que você fez faculdade de Design?”, perguntou a repórter. Ele responde: “Porque foi a única que me aceitou”. 

 
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