POR ENIO VIEIRA
EM 08/12/2008 ÀS 01:52 PM
América profunda
publicado em ensaios
O cinema norte-americano contemporâneo incorpora bem a visão ora de isolamento, ora de abertura para o mundo. Existe uma valorização da vida interiorana e do sossego dos rincões dos Estados Unidos, em contraste à violência e à ampla circulação de pessoas nas metrópoles de Nova York e Los Angeles
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Os Estados Unidos oscilam historicamente entre o isolacionismo e o expansionismo em relação ao restante do mundo. Em certos períodos, predominam movimentos para além das fronteiras, numa lógica imperial. Outras fases mostram um recolhimento para dentro do país. Antes de reassumirem o poder no ano 2000, os pensadores republicanos definiram que a sociedade norte-americana necessitava se ocupar mais de problemas internos. Tiveram de mudar a estratégia. Os atentados de 11 de setembro de 2001 provocaram a guinada rumo ao exterior, com o combate ao terrorismo. Convivem assim o sentimento da busca da América profunda e a visão dos estrangeiros como bárbaros.
O cinema norte-americano contemporâneo incorpora bem a visão ora de isolamento, ora de abertura para o mundo. Existe uma valorização da vida interiorana e do sossego dos rincões dos Estados Unidos, em contraste à violência e à ampla circulação de pessoas nas metrópoles de Nova York e Los Angeles. Ganha relevo a imagem nostálgica das cidades dos anos 1950. “Forrest Gump” (1995), de Ron Howard, é exemplar disso. O personagem-título senta-se num banco de praça do interior e relata os episódios da história nacional nos quais teve participação. Todos os personagens que criticam os Estados Unidos e se rebelam são mortos ou ficam mutilados fisicamente no filme.
“Menina de ouro” (2004), de Clint Eastwood, também assume a defesa da vida tranqüila do interior. O treinador de boxe vivido por Eatswood adora versos arcaicos de poesia irlandesa e, ao final, se refugia no coração dos Estados Unidos. Assim como em “Forrest Gump”, os personagens pobres acabam morrendo ou são taxados de golpistas (por exemplo, a mãe da boxeadora “menina de ouro”). O filme é uma procura pelo paraíso perdido, vida pacata e integridade que as pessoas das profundezas dos Estados Unidos guardam. Paraíso que também se expõe nos campos de “Brokeback mountain” (2005), de Ang Lee, o único refúgio possível para a paixão homossexual de dois caubóis.
Fredric Jameson notou o quanto o cinema fabricou a imagem positiva (e falsa) da cidade pequena, com traços do pós-Segunda Guerra Mundial. É a idealização necessária e reconfortante da época de ouro do capitalismo entre 1945 e 1973. Segundo ele, os filmes que retratam esse período estão carregados de uma nostalgia (os “nostalgia movies” e os sitcoms) que jamais existiu. Na verdade, jamais existiu aquela vidinha de paz e ordem mostrada nas histórias sobre os anos 1950. Havia isso sim a perseguição aos comunistas e a paranóia com a bomba atômica – paranóia esta que se torna eixo narrativo dos escritores Thomas Pynchon e Don Delillo.
Um dos grandes achados de David Lynch foi re-apresentar o cenário da cidadezinha e descortinar em seus filmes os maiores absurdos nas vidas de seus personagens. É caso de “Veludo azul” (1986) e da série de televisão “Twin Peaks” (1990). Os Estados Unidos de Lynch é repleto de figuras como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Os personagens vivem de dia nas mais rígidas puritanas e à noite as maiores obscenidades. Médicos & monstros. Certas passagens são dignas do mais derramado melodrama ou de sitcoms, para em seguida cair na situação mais bizarra e aterrorizante. A cidade do interior absorve os instintos destrutivos da modernidade (drogas, consumismo, ultra-violência).
O vasto interior do Estados Unidos sofre uma implosão nos filmes dos irmãos Coen. Não é por acaso a insistência nos cenários sem vida: a neve de “Fargo” (1996) e o deserto de “Arizona nunca mais” (1987) e “Onde os fracos não têm vez” (2007). Neste último, as imagens do isolamento e do expansionismo se juntam no espaço da fronteira (no caso, com o México), que também é dos faroestes. Mas pouco restou da idealização e do triunfalismo pela conquista do Oeste. Não há mais índios. O que se vê é um deserto com pitbulls, um assassino eficiente como um executivo de empresa e um xerife que vive o pesadelo do passado. A América profunda é apocalíptica.
Ao recapitular essas imagens, dá para duvidar se existe uma verdadeira América. O que é mais real: a cidadezinha de “Forrest Gump” ou o deserto de “Onde os fracos não têm vez”? A metrópole é falsificação? Lacan dizia que o real é aquilo impossível de se capturar por meio da linguagem. Trata-se do irrepresentável. O verdadeiro “Estados Unidos” do cinema seria, portanto, uma multiplicidade de registros, tanto da pequena cidade quanto dos grandes centros urbanos. Esse é uma das qualidades de “Crash” (2004), de Paul Higgis, que enfoca as diversas tensões da sociedade norte-americana, concentrada na metrópole Los Angeles, numa narrativa com diversos pontos de vista.
O impossível “real americano” aparece em “Cidade dos sonhos” (2001), de David Lynch, e “Magnolia” (1999), de Paul Thomas Anderson. Ambos se passam em Los Angeles e jogam com os símbolos da cidade. No primeiro filme, o espectador procura saber o que é sonho ou é “realidade”. Passa-se da vida idealizada ao real próximo do pesadelo. Já o segundo filme é a análise de como pais exploram filhos. Todos os instintos de destruição (“pulsões de morte”, no sentido freudiano) estão presentes, até que se chegue ao fim surreal que deixa claro a construção ficcional do cinema. O real se dissolve e vira inexplicável pela linguagem, assim como os traumas submersos na mente de indivíduos e na sociedade.
Quanto mais fictício e irrealista no sentido estético, mais o cinema norte-americano consegue se aproximar do “real”. “Angels in America” (2003), de Mike Nichols, leva ao limite a narrativa da moderna nação americana. O filme é baseado na peça teatral de Tony Kushner que tem nove horas de duração. Na adaptação, virou um filme de televisão em duas longas partes.Os personagens estão em Nova York, por volta de 1985, e vive-se o conflito de religiões. Há o caipira mórmon (vindo das profundezas da América), o advogado ultraconservador gay que contrai Aids, o judeu moderninho e o protestante que também está com Aids e recebe a visita de uma mulher anjo.
Kushner escreveu a peça em 1994 e capta o início da virada reacionária nos Estados Unidos que culminou em George W. Bush. O personagem Roy Cohn, interpretado por Al Pacino, é o advogado que ajudou a falsificar o julgamento e facilitou a condenação à morte do casal Rosemberg nos anos 1950, acusando-os de espionagem. Ele carrega o espírito sombrio da nova América: homofóbico, anti-comunista, imperial, autoritário, mas frágil por sua vida sexual mal resolvida. Cohn foi um personagem real da política norte-americana. Na pele de Al Pacino, ele se aproxima ainda mais desse “real” dos Estados Unidos, que estão hoje em busca do seu “eu” profundo e odeiam os estrangeiros.






