POR FLÁVIO PARANHOS
EM 03/11/2008 ÀS 10:16 PM
A utilidade das humanidades - final
publicado em ensaios
Um leitor me perguntou: “Dr. Fish, quando foi a última vez que o senhor leu um poema que o tenha motivado a realizar ações para melhorá-lo ou aos outros?”. Para dizer a verdade, nem uma única vez. Mas me lembro bem de inúmeras vezes em que, ao ler um poema, disse comigo mesmo: “Uau, isso não é demais?!”

Tradução: Flávio Paranhos
[Entre colchetes algumas observações minhas. Agradeço correções.]
Stanley Fish 1
Stanley Fish 2
Tudo isso não deve ser tomado como significando, como alguns o fizeram, que estou atacando as humanidades, ou denegrindo-as, ou as declarando inúteis. O que estou querendo dizer é que o valor das humanidades não pode ser dado por uma medida externa (produtividade econômica aumentada, bem-formar um cidadão, aguçar as percepções morais, diminuição de discriminação e preconceito) às obsessões que levam alguns (como eu) a dedicar suas vidas produtivas a elas. Se estes ou outros marcadores instrumentais – instrumentais no sentido de que são atrelados a um efeito secundário, em vez de uma economia interna – são o que as humanidades devem alcançar, elas sempre ficarão pra trás. Mas a recusa das humanidades para se curvar a servir a um fim que elas não contemplam é, penso eu, sua salvação e seu valor. Como disse uma leitora, “a matéria desses estudos não é para ser usada como ferramenta para alcançar outra coisa, eles próprios são o fim alcançado.”
Claro, isso não significa que alguém pagará por eles. De fato, como vários leitores observaram, meu argumento (e não é só meu) de que as humanidades são seu próprio bem, e que não servem pra qualquer outra coisa, pode ser usado para justificar a transformação dos departamentos de humanidades em departamentos de serviços, e cortar financiamento para a pesquisa em humanidades.
Ainda me lembro de quando participei de um comitê na Johns Hopkins University, e ouvi de um colega que ele daria suporte ao Departamento de Inglês com prazer, pois sua esposa adorava assistir a peças. Quando eu lhe disse que o Departamento de Inglês jamais encenava peças, e que, naquele momento, nem mesmo tinha um professor que se interessasse pelo assunto, ele ficou surpreso e fez a pergunta óbvia: O que vocês fazem, então? Quando eu respondi que nós fazíamos coisas do tipo pesquisar a astrologia medieval, a iconografia renascentista, a sátira política do século dezoito e teorias românticas da imaginação, e então dividimos nossos achados com nossos alunos, sua surpresa aumentou
Se ele tivesse feito a pergunta seguinte – mas o que vocês fazem com isso? – eu teria de dizer: Não muita coisa, a não ser persuadir algumas pessoas a se juntar a nós nessa empreitada esotérica. Ele foi educado. O mesmo não se pode dizer de outro colega, que classificou os membros dos departamentos de inglês como “parasitas na carcaça da literatura”. Este era um médico amante da literatura e não conseguia entender por que, num mundo já cheio de poetas, prosadores e dramaturgos, precisava-se de um exército de interpretadores.
Este sentimento foi ecoado pelos leitores que reclamaram ser os departamentos de humanidades pouco profissionais e preocupados principalmente com reproduzir a si mesmos. Um leitor relata a “verdade repugnante” que “as humanidades são o estudo de uma disciplina, e que o domínio dessa disciplina qualifica a professar [é professar mesmo] essa disciplina.” Outro, que “há Shakespeare e interpretadores de Shakespeare, e as Humanidades, hoje em dia, referem-se principalmente (e infelizmente) aos últimos”.
É isso mesmo. O que está em discussão não é a existência de Shakespeare, mas da indústria de Shakespeare (ou qualquer outro autor), com seus seminários, revistas científicas, simpósios, dissertações, bibliotecas. O desafio da utilidade não é colocado a artistas, mas ao maquinário acadêmico que parece levar aqueles que o operam cada vez mais distante do ponto de partida, os textos originais, para o terreno de teorias incompreensíveis e não raramente corrosivas. [Grifo do tradutor] Mais de um leitor condenou o jargão impenetrável dos estudos literários. Por que, seria o caso de se perguntar, não se faz a mesma queixa quanto ao jargão da física, economia, biologia, psicologia, todas disciplinas com seu vocabulário próprio, restrito aos iniciados?
A resposta é que tais disciplinas são tidas como buscando um objetivo concreto e promissor, que algum dia beneficiará também aqueles que não são capazes de entender o que publicam em suas revistas científicas. Que benefício os estudos literários têm a oferecer àqueles que lhes dão financiamento? Nada, a não ser o interesse (paroquial) experimentado por aqueles que se envolvem em discussões esotéricas do palco espelhado, o traço, o subalterno e o performático (nem me perguntem!). O público em geral, incluindo os legisladores, financiadores e os pais dos alunos, está do lado de meu colega de comitê na Johns Hopkins. Que se encene peças.
Das defesas do estudo humanístico oferecidas pelos leitores, duas me pareceram ter alguma força. A primeira é que fazer cursos de literatura, filosofia e história fornece treinamento em pensamento crítico. Confesso que sempre considerei o termo “pensamento crítico” vazio de sentido, um slogan a que o humanista recorre quando perguntado o que, de bom, ele/ela faz e não tem outra coisa a responder. Afinal qual seria a distinção entre ‘pensamento crítico’ e só ‘pensamento’? Não seria o adjetivo supérfluo? E o que exatamente significaria ‘pensamento acrítico’? Mas agora que eu tive a oportunidade de ver as respostas apaixonadas ao meu artigo, tenho um entendimento melhor do que seja pensamento crítico.
Tomando como exemplo o Q.I., um leitor diz que, enquanto um cientista apenas o utiliza, um humanista perguntará “O que significa? É uma coisa ou várias? Quem bolou as questões para medi-lo?”. Isso, então, é ‘pensamento crítico’ – a análise de fórmulas, preceitos, pedaços de sabedoria que muito freqüentemente passam sem ser examinados e desafiados. Essa habilidade, outro leitor aponta, é ensinada nos cursos de humanidades, onde os estudantes “analisam idéias, diferentes pontos de vista, justficações, opiniões e posições” e, no processo, aprendem como “construir uma abordagem lógica... e defender suas conclusões com fatos e argumentos lúcidos”.
Isso certamente soa como uma habilidade válida, e eu concordo que pode ser adquirida em cursos em que textos literários, argumentos filosóficos e eventos históricos estão sendo escrutinados com um olho que vê adiante (ou ao lado) de suas superfícies. Mas isso também pode ser adquirido (e é) de outras maneiras. Agora mesmo milhões de espectadores de TV estão adquirindo [pensamento crítico] quando os analistas políticos dizem coisas como “Seria errado tirar qualquer conclusão a partir da vitória de Hilary Clinton em New Hampshire por que é pouco provável que em outros Estados a proporção de leitores seja de 57% de mulheres e 97% brancos”, ou “Se queremos compreender o debate sobre a imigração, devemos voltar ao tempo das grandes ondas de imigração no final do século XIX e início do século XX”, ou ainda “Falta de moradia não é um problema isolado, mas faz parte de uma rede de problemas que não têm como ser resolvidos aos poucos.”
Você pode ouvir o mesmo tipo de pensamento em rádios de esporte, quando o apresentador e os convidados debatem ingredientes que fazem um time vencedor. E pensamento crítico é o que dezenas de milhares de pregadores encorajam em seus sermões quando pedem aos paroquianos para parar e pensar em seus impulsos, talvez até obscuros a eles, dirigindo suas atitudes do dia-a-dia.
[É impressionante que uma pessoa com o currículo do Fish acredite, de verdade, que se adquire pensamento crítico pelos meios de comunicação. Pois é justamente o contrário. Se não se estiver preparado para “consumir” o que nos cospem na cara esses meios, engolimos sem mastigar uma tal quantidade de lixo, que passamos a considerar como algo que preste. É justamente aí que entra o pensamento crítico fornecido pelas humanidades, um “background” contra o qual confrontamos o que se nos é ofertado no dia-a-dia dos jornais, rádios, TVs, internet, etc.]
Portanto, um brinde ao pensamento crítico, mas o fato de pode ser aprendido em vários outros contextos significa que não pode ser atribuído às humanidades um benefício especial, que só elas podem fornecer. Justificação requer mais do que evidência de que um consumidor encontrará uma mercadoria desejável em sua lojinha, requer uma demonstração de que só você é quem tem.
A segunda justificativa para o estudo das humanidades que na minha opinião tem alguma força é aquela que diz respeito à falta de assunto numa conversação. É verdade. A erudição enriquece uma conversa. Embora não aparecerá como um tipo de defesa que a sociedade leve a sério: “Vamos financiar as humanidades para que Stanley Fish e seus amigos tenham com quem conversar”.
[Esse argumento é idiota. E Fish sabe disso. Por que, então, incluí-lo entre os que têm força??]
Uma última coisa. Um leitor me perguntou: “Dr. Fish, quando foi a última vez que o senhor leu um poema que o tenha motivado a realizar ações para melhorá-lo ou aos outros?”. Para dizer a verdade, nem uma única vez. Mas me lembro bem de inúmeras vezes em que, ao ler um poema, disse comigo mesmo: “Uau, isso não é demais?!”. E essa é uma razão mais do que suficiente pra mim para justificar a empreitada do estudo humanístico. Mas eu não acredito, por mais que desejasse, que o resto mundo seja persuadido a subsidiar meus momentos de prazer estético.





