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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:54 PM

A utilidade das humanidades

publicado em

                   (PARTE 2)

Stanley Fish 1
Stanley Fish 3

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?

Stanley Fish, jornal The New York Times

Tradução: Flávio Paranhos
          
(disponível em:Aqui
          
Num poema intitulado “Matins”, o poeta anglicano do século XVII George Herbert diz a Deus: “Se Tu me ensinares a conhecer teu amor... Então, por um raio de sol eu subirei a ti”. Mas a dinâmica da barganha proposta – se fizer X eu farei Y – é fragilizada pela maneira como é proferida, especialmente pelo duplo sentido de “sunbeam” (raio de sol).
           
[Segue um parágrafo com análise do poema]
           
Esta breve análise de um poema que, simultaneamente, o elucida e minimiza é um exemplo do tipo de trabalho e aulas que tenho realizado por quase cinco décadas. É o trabalho de um humanista, ou seja, alguém empregado em uma universidade para ensinar textos literários, filosóficos e históricos. As questões levantas em meu último artigo [traduzido aqui na Bula – veja link] dizem respeito ao valor deste trabalho, por que alguém deveria financiá-lo e por que razão alguém o financia.
           
Por que eu faço esse trabalho? Não o faço por ser da mesma religião de Herbert. Não acredito no que ele acredita, nem valorizo o que ele valoriza. Também não o faço por que me inspira a fazer outras coisas, como mudar de religião ou sair por aí ajudando os pobres. Se eu tiver de dizer, direi que o faço por que obtenho uma espécie de satisfação estética por meio da experiência de tentar compreender como uma admirável realização verbal foi engendrada.
           
A satisfação é parcialmente auto-satisfação. É como resolver um quebra-cabeça. Mas a satisfação maior é admirar o que algumas pessoas são capazes de fazer com a língua que todos usamos. “Não é impressionante?”, eu digo aos meus estudantes. “Você não desejaria ter escrito algo assim?” (Em meu artigo anterior eu uso a palavra “prazer” para descrever a recompensa conseguida por discutir e decifrar textos literários, porém “prazer” é ao mesmo tempo muito restrito e muito vago; é o prazer específico que sustenta sua consciência de um efeito que voe não só experimenta, mas consegue explicar)
           
Note que estamos falando aqui de análise, e não de produção de textos humanísticos. [Grifo do tradutor]. A questão colocada no artigo anterior foi o valor instrumental não de obras de literatura, filosofia e história, mas da análise acadêmica de obras de literatura, filosofia e história. Quando Jeffrey Sachs diz que “no mundo real” a distinção entre as humanidades e as ciências não se sustenta pois “filósofos deram contribuições importantes às ciências” e “as próprias ciências tiveram grande impacto nas humanidades”, ele não chega nem perto de refutar o que eu disse. O que acontece ou deixa de acontecer no “mundo real” não está em questão aqui. O que está sendo discutido é o que acontece no “mundo acadêmico”, onde a distinção entre os saberes, que Sachs recusa, valem. Pode até ser que, como George Mobus defende, “só na academia há especialistas, só na academia se divide o mundo em departamentos”. Mas o mundo acadêmico é mesmo, por definição, dividido em departamentos, e quando a utilidade de um desses departamentos é questionada, não adianta dizer que num outro mundo esses coexistem numa grande mistura.
           
Em geral, os que discordam de minhas asserções, fazem como Sachs e Mobus, patinam (sem se dar conta) entre o verdadeiro foco da discussão (a academia) e algo maior, diferente. Quando eu digo que as humanidades não têm utilidade, eu me refiro aos departamentos de humanidades das universidades, não às “humanidades” como uma categoria cultural. Não estou me referindo aos poetas e filósofos e o impacto que causam ou deixam de causar no mundo e nas pessoas que os lêem. [Grifo do trad.]

O financiamento das humanidades nas universidades não pode ser justificado pelo fato de que poemas e argumentos filosóficos mudaram vidas e deram origem a movimentos. (Fiquei surpreso que ninguém tenha mencionado “A cabana do tio Tom”, um livro que, dizem, Lincoln credita como sendo o causador da Guerra Civil). A questão pertinente é: As humanidades mudam vidas e dão origem a movimentos? Aqueles que as ensinam o fazem com esse propósito, e se, o fazem, isso poderia ser alcançado?  
Se as respostas a essas perguntas forem não (como eu defendo) – ensina-se as disciplinas, e qualquer efeito retardado do que acontece na sala de aula é circunstancial e não tem como ser almejado – então a via da justificação externa das humanidades, de uma justificação que depende do cálculo de resultados mensuráveis, está fechada. O fato de que alguns dos leitores, incluindo alguns de meus ex-alunos, relatam experiências de mudança de vida como resultado de seus estudos é tocante (embora estou certo de que a vasta maioria relataria algo bem diferente), mas dificilmente serve como razão para dar suporte a um aparato inteiro de departamentos, diplomações, colóquios, etc., que cresceu em torno do estudo acadêmico de textos humanísticos.    

Alguns [leitores] que comentaram [o artigo anterior] apresentaram razões negativas para ensinar as humanidades. Disseram coisas como “ se pelo menos o governo tivesse algum conhecimento de história, poderíamos não estar no Iraque agora” e “será que os neoconservadores realmente acreditariam que o mundo é um campo de batalha do bem versus o mal, caso eles tivessem a mente aberta a um conhecimento mais completo de história e natureza humana?”. Mas os neoconservadores que eles têm em mente – Wolfowitz, Pearle, Kristol, Huntington – são bastante versados em história, filosofia e artes como qualquer um, e participam de discussões profundamente intelectuais de textos importantes nos seminários do Liberty Fund e outros lugares.
           
Especular que se eles tivessem sido introduzidos aos textos certos (Paul Krugman no lugar de Milton Friedman, Cornel West no lugar de William Buckley), eles teriam engendrado políticas melhores é uma ilusão. E, aliás, é o mesmo tipo de ilusão que os neoconservadores adotam quando argumentam que se eles apresentassem aos radicais islmâmicos os textos de Jefferson, Madison e J.S.Mill, eles aprenderiam a amar a liberdade e parariam de tentar nos destruir. A verdade é que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria (em qualquer forma) são variáveis independentes. [Grifo do trad.]
           
[Continua]
           
[Como o texto é grande, vou parando por aqui. Na semana que vem eu trago o resto. Essa última frase, que eu grifei, me parece uma boa frase pra se refletir: será que o conhecimento de textos filosóficos e literários e a aquisição de sabedoria são mesmo variáveis independentes? Se por sabedoria Fish quer entender “sabedoria moral”, então ele está coberto de razão. Posso ser doutor em filosofia moral e um canalha ao mesmo tempo, nada me impedirá (nem o mais completo conhecimento do assunto). Mas sabedoria “em qualquer forma”, aí são outros quinhentos dólares.]
           
[Aqueles que lerem o original, e identificarem algum erro relevante aqui, agradeço desde já que o apontem].

           
(Flávio Paranhos)
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